No final de 2008, o professor Renato Miranda recebeu do prefeito Custódio Mattos a responsabilidade de criar, operacionalizar e por em prática a recém-criada Secretaria de Esporte e Lazer. Quatro anos depois, o secretário faz uma análise positiva do trabalho realizado. "A chancela da minha atuação como secretário foi a minha dedicação e meu trabalho. Isso me deixa muito alegre", garante. Entre os pontos altos das realizações de sua gestão à frente da pasta, Renato destaca o fato de ter consolidado Juiz de Fora como uma cidade apta a receber eventos de porte municipal, estadual, nacional e até mesmo internacional, lembrando a realização dos Jogos Pan-Americanos Escolares, em 2010.
Renato também destaca os esforços para colocar a cidade nos portfólios dos comitês organizadores da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, o que credencia o município a abrigar delegações estrangeiras durante a realização dos eventos. A conclusão deste trabalho, aliás, é apontada pelo atual secretário como o principal desafio de seu sucessor, o vereador Francisco Canalli (PMDB), que assume a pasta em 1° de janeiro.
Tribuna – Há quatro anos, o senhor assumiu a responsabilidade de configurar a recém-criada Secretaria de Esporte e Lazer. Qual a avaliação do trabalho feito pela pasta durante o período?
Renato Miranda – Na primeira entrevista que dei como secretário, ainda no final de 2008, para a Tribuna, disse que o meu desafio era montar bases sólidas para o desenvolvimento do esporte em Juiz de Fora. Tenho plena consciência e alegria de dizer que isso nós conseguimos fazer. O primeiro desafio foi criar a secretaria e seus organogramas, cargos, além de um bom regimento. Criada a parte administrativa, o desafio foi colocá-la em prática. Creio que conseguimos fazer um trabalho convincente e que, naturalmente, vai marcar a história do esporte no município. Em várias cidades do Brasil foram criadas secretarias de esporte que acabaram extintas após quatro anos. Aqui, conseguimos solidificar essa nossa intenção. Mesmo compreendendo que foram os primeiros passos, entendemos que foram bons passos.
– Existe alguma coisa que o senhor gostaria de ter realizado e acabou não conseguindo?
– Eu diria que não. Para os anseios que dependiam dos meus esforços, determinei uma expectativa pessoal que foi atingida, principalmente no sentido de trazer para a cidade uma índole realizadora e a capacidade de sediar grandes eventos esportivos de nível municipal, estadual, nacional e internacional. Agora, aquilo que não dependia exclusivamente dos meus esforços, como a questão de obras, particularmente, tenho a certeza de que sempre trabalhei com muita intensidade e vontade de realizar, mas sem criar muitas expectativas. Sabia que a cidade tinha uma lista de prioridades em vários setores, como mobilidade urbana, saúde, educação… Mesmo assim, conseguimos desenvolver convênios que possibilitaram, por exemplo, a inauguração de um ginásio de iniciação esportiva aqui na secretaria, que irá atender as demandas do esporte escolar.
– Não fica nenhuma frustração?
– Eu me sentiria frustrado se não conseguisse colocar a cidade no portfólio do comitê da Copa e dos Jogos Olímpicos. Isso nós conseguimos. Não tenho muitos motivos para dizer que ficou faltando alguma coisa ou que não tenha conseguido algo dentro daqueles objetivos inicialmente traçados.
– Sobre o Ginásio Municipal, em que situação ele será entregue à futura gestão?
– Este é um grande desejo da comunidade esportiva e meu também. Na pior das hipóteses, conseguimos recuperar uma obra perdida. Hoje, temos 30% dela realizada. Deixamos encaminhadas, com a anuência do prefeito (Custódio Mattos) e do reitor (da Universidade Federal de Juiz de Fora, Henrique Duque), conversas iniciais para que a finalização das obras ficassem a cargo da UFJF. São conversas que podem se concretizar. Mas é também um desejo que pode ser revisto, pois a Universidade vai licitar um novo ginásio para 2 mil pessoas. Se houver o interesse em sacramentar esse acordo, vamos deixar tudo encaminhado. Na situação atual, com recursos apenas do município, não vejo a possibilidade de conclusão das obras no ano que vem.
– E a situação do Estádio Municipal?
– Outra coisa que estamos deixando, e que já foi aprovado, é um projeto que prevê a concessão do estádio durante 20 anos. Este pode ser o grande passo para tornar o nosso estádio um equipamento de qualidade. Nenhum município do Brasil tem condições de manter um estádio como aquele em alto nível. Seria um acordo nos moldes em que funcionam vários estádios no Brasil. Não inventei nada. Durante 20 anos uma empresa terá a concessão do estádio e terá que cumprir um cronograma de investimentos. É uma solução coerente, que desonera a Prefeitura e promove o estádio.
– Quais serão os maiores desafios para o futuro secretário?
– Reconheço que realizamos um trabalho iniciante. Muita coisa não foi feita porque, cronologicamente, não poderia ser feita. A pasta tem quatro anos de vida. O desafio é manter em alta qualidade toda essa agenda positiva que a gente criou, principalmente na realização de eventos esportivos. Depois do Pan escolar, por exemplo, notadamente, temos que brigar para sediar o Mundial escolar. Temos todas as condições para isso. Mas o desafio para 2013 e mais tardar início de 2014 é a gente conseguir trazer uma Seleção para a aclimatação para a Copa do Mundo. Temos todas as condições. Senão, não estaríamos no portfólio do Comitê Organizador Local.
– Quais são as ações necessárias para seduzir uma delegação estrangeira para a Copa?
– Temo que fazer quatro coisas. Primeiro, o Haras Morena acabar as obras. E vai acabar. Estão sendo investidos lá R$ 10 milhões. As obras já estão em andamento. Segundo, fazer as obras necessárias no Municipal, principalmente a reforma do vestiário, a troca do gramado e a criação de área de imprensa. O terceiro é a UFJF também fazer as obras necessárias em seu campo, como a troca de gramado e a construção de vestiários. Já conversei com o reitor, que se predispôs a ajudar. O quarto é um trabalho de articulação com os representantes das seleções. Um trabalho de convencimento. As condições gerais da cidade nos favorecem. No último congresso que participei, somente 33 aeroportos foram aprovados, entre eles, o nosso. Sem falar que o Aeroporto da Serrinha atende a pequenas demandas. A média de temperatura da cidade no período de treinamento também é adequada.
– Você tem confiança que a cidade será escolhida como um Centro de Treinamento de Seleções?
– Pinçaram uma frase do Parreira (Carlos Alberto, consultor da Secretaria de Estado Extraordinária para a Copa do Mundo de Minas Gerais), fora de contexto, que só reforça o conceito iconoclasta de que a cidade tem de diminuir o valor de si própria. Eu estava na coletiva. O Parreira afirmou que, das cidades do interior, Juiz de Fora é a melhor. No entanto, reforçou que há obras a se fazer e que a cidade, neste momento, não estaria pronta. Pergunto: qual cidade no Brasil está pronta? Nenhuma. Nenhuma sede está pronta. Eu diria que a chance é grande, mas sei que é difícil. São 31 equipes. Como fazer o difícil ficar fácil? Basta cumprir os passos que citei antes. É preciso saber articular, pois a palavra final será da comissão técnica das Seleções. As equipes são privadas e ficam onde quiser. Pelo histórico, considero Juiz de Fora um local adequado. Recebemos o dirigente máximo da Austrália. Ele adorou a cidade. É uma delegação que tem um nível de crítica altíssimo, pois se trata de uma potência olímpica.
– Tirando os pontos de maior apelo popular, quais outras realizações de sua gestão você destacaria?
– Nos setores de exercício físico, demos um grande passo que foi a sofisticação de um laboratório de educação física para as pessoas. Na parte cultural, recuperamos e digitalizamos cerca de 150 mil documentos que estão disponíveis para pesquisas sobre a história do esporte, com um programa de informática que auxilia essa conquista. Fizemos uma revolução na prática esportiva de massa através do ranking de corrida de ruas, que saltou de participação média por corrida de cerca de 250 para 1.400 pessoas. Não teve nenhum setor que deixamos de atender. Foram mais de 200 pessoas com deficiência física atendidas em vários projetos. Fizemos projetos espetaculares em parceria com a Associação dos Cegos, de natação, atletismo e futebol de 5. Atendemos dez mil jovens de 7 a 14 anos em dez modalidades esportivas. Por ano, atendemos no lazer cerca de 65 mil pessoas. Foi um trabalho importante. Encerro este período com várias manifestações de agradecimento de setores que não aparecem na mídia, muitos em trabalhos de razão social. Demos apoio a vários atletas, com aporte para a participação em eventos nacionais e internacionais.
Mandamos atletas para a Tailândia, Rússia, Austrália, Canadá, Argentina, Estados Unidos, França, Alemanha. Fora os traslados nacionais. Apoiamos a realização de vários eventos, além daqueles feitos por nós.
– Como você recebe as críticas ao seu trabalho?
– A chancela da minha atuação como secretário foi a minha dedicação e meu trabalho. Isso me deixa muito alegre. Foi assim desde o primeiro dia e será até o último. Recebi do prefeito, via Ministério do Esporte, um ofício falando sobre a abertura de crédito para estádios que teriam a possibilidade de ser utilizados para o treinamento de seleções durante a Copa. Isso agora no final de novembro. Poderia deixar essa tarefa para o próximo, mas trabalhamos arduamente para que o novo secretário já inicie seus trabalhos com recursos aprovados da ordem de R$ 800 mil para obras no estádio. Recursos que podem chegar a R$ 4 milhões, caso, cronologicamente, tudo o que previmos for aprovado pelo Ministério. Recebo normalmente as críticas, pois sei que as demandas do esporte local são muito grandes. Por isso, o sentimento é de que sempre está faltando. Temos um orçamento baixo. Sempre soube que os recursos eram escassos. Quando o prefeito me convidou, deixou-me à vontade para pensar, pois seria um início de trabalho e poucos investimentos. Tivemos uma média de R$ 1 milhão por ano para investir no esporte.
– Caso seja convidado no futuro a contribuir com o esporte local exercendo uma função pública, você aceitaria?
– Desde o início da minha carreira, fui criando preconceitos e conceitos da minha própria figura. Um desses é que sou uma pessoa inquieta. Muita gente pensou que larguei a vida acadêmica durante esses quatro anos, e ano que vem vou lançar um livro que prova exatamente o contrário. Foi um trabalho árduo, sofrido, tenso. Mas encarei sempre com muito ânimo. Você me perguntou se eu toparia. Sendo um prefeito de alto nível como foi o Custódio, não descartaria. Se faltaram recursos, sobrou muito respeito e consideração do prefeito, que não colocou nenhuma barreira. Em 2010, quando concorremos a sediar o Pan com a capital de Porto Rico e fizemos, o Custódio só me fez uma pergunta, se eu tinha consciência de que seríamos capazes. Eu disse que sim, e a partir daí ele me apoiou em tudo.
