Montillo e o Atari
O espírito natalino já tomou a cidade, como diz muito comercial de refrigerante por aí. As ruas estão cheias, o comércio faturando aos tubos, o 13º salário indo embora, o povão se endividando. Nada muda. Ontem padeci para garantir algumas poucas lembranças que me obrigo a distribuir. Não sou dado à carapuça de Papai Noel. Jogo no time da moçada que, nessa época do ano, espera um grande presente vindo do noticiário esportivo. Só dá a tecla F5, atualizando de hora em hora os principais portais especializados em futebol da internet. Será que meu time já acertou com alguém? É pergunta, pedido, mantra e carta para o velho Nicolau no imaginário de muitos apaixonados e enlouquecidos pela bola que não rola.
Uma coisa é certa. Esse Natal vai ser de poucos presentes nos grandes clubes do país. O que é um tanto quanto paradoxal, já que nunca rolou tanta grana no futebol tupiniquim. Os contratos de patrocínios estão nas nuvens, as cotas de TV quebrando recordes. Então, por que o mercado anda tão sonolento? Embora pareça ruim, vejo um lado positivo nesse cenário. Ao que parece, nossa cartolagem evoluiu um pouco, andou um passo em direção ao mínimo de profissionalismo esperado de quem lida com cifras tão astronômicas. Nossos dirigentes estão aprendendo a pensar a médio prazo e viram que o mais inteligente é trabalhar primeiro a manutenção do grupo e apostar na tal da continuidade.
Isso explica o pouco oba-oba nas manchetes esportivas neste mês. Com os clubes ralando para manter seu principais jogadores, diminuem as possibilidades do mercado e, consequentemente, os negócios e as negociatas. Um exemplo da repetida lei da oferta e da demanda que explica até o inexplicável no mundo da economia.
Se a oferta é pequena, os preços vão nas alturas. Assim como foi o Atari nos natais de minha infância, o argentino Montillo é o presente esperado por dez em cada dez torcedores brasileiros. Por isso, o Cruzeiro chutou o valor de sua liberação mais alto que Baggio e Elano cobrando pênalti em Copa do Mundo. Mesmo assim, tem clube querendo pagar mais do que o argentino – que é, sim, craque para os atuais padrões brasileiros – vale. Só por isso, já pendurei um pé de meia na janela.
