O técnico Rogério Santana, coordenador do Jotaefe Basquete e recém-convocado para comandar a Seleção Mineira Sub-16 feminina, foi o entrevistado desta quarta-feira (22) do programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna de Minas. Durante a conversa, ele abordou o cenário da base da modalidade em Juiz de Fora e o funcionamento do projeto desenvolvido na cidade, explicou como será o trabalho à frente do time estadual, falou sobre a importância de criar referências para as jovens atletas e ainda revelou o planejamento para que o município tenha uma equipe adulta feminina disputando a Liga de Basquete Feminino (LBF) a partir de 2028.
Confira a entrevista na íntegra.
Tribuna de Minas: Conte um pouco da sua trajetória como treinador e formador de atletas.
Rogério Santana: “Minha trajetória sempre foi voltada para a formação de atletas. Sou formado em Juiz de Fora, mas trabalhei durante muitos anos em Montes Claros, onde desenvolvemos um grande projeto de base. Foi dali que saíram atletas como a Kamilla (Cardoso, jogadora da WNBA). Também atuei no ensino superior e participei de um período muito forte do basquete mineiro, quando cidades como Juiz de Fora, Montes Claros, o Sul de Minas e o Triângulo tinham grande representatividade. Nesse período, participei de duas seleções masculinas sub-17 e fui treinador de quatro seleções femininas, sendo três sub-17 e uma sub-15. Agora retorno para contribuir novamente com esse processo.”
– Como você avalia o cenário do basquete de base em Juiz de Fora?
“O Jotaefe Basquete nasceu da união de profissionais com diferentes experiências, mas todos compartilham a mesma visão: a formação começa dentro da escola. O esporte escolar precisa ser a base do desenvolvimento. O clube deve estar presente nas escolas, ajudando a criar oportunidades para que crianças e adolescentes pratiquem esporte desde cedo. Juiz de Fora possui um dos maiores Jogos Intercolegiais de Minas Gerais, disputado entre março e novembro. Esse calendário é fundamental para a formação dos atletas. Quando o jovem joga apenas alguns jogos do Campeonato Mineiro durante o ano, a evolução fica comprometida. Já dentro das escolas, ele compete com frequência e chega mais preparado quando ingressa em um projeto de rendimento. Hoje vemos muitas discussões sobre formação em diversas modalidades, mas, muitas vezes, esquecemos que a base precisa começar na escola. Em estados como São Paulo, por exemplo, algumas categorias têm poucos participantes nos campeonatos federados, mas existe uma enorme quantidade de competições escolares. É esse volume de jogos que forma atletas preparados para abastecer as equipes adultas.”
– Para quem ainda não conhece, como funciona o projeto do Jotaefe Basquete?
“O principal objetivo do Jotaefe Basquete é ampliar o acesso ao esporte por meio dos núcleos sociais. Hoje já contamos com sete núcleos espalhados pela cidade, oferecendo oportunidades para crianças e adolescentes. Esse é o nosso maior patrimônio. Mais importante do que disputar campeonatos nacionais é conseguir impactar cada vez mais jovens por meio do esporte. A partir da categoria sub-15, realizamos seletivas abertas para toda a cidade. Atualmente atendemos cerca de 150 atletas, entre masculino e feminino. Outro diferencial é investir também na formação de treinadores. Muitos estudantes de Educação Física da UFJF fazem parte da nossa comissão técnica e ganham experiência desde cedo. Participamos do Campeonato Mineiro, mas entendemos que precisávamos dar um passo além. Por isso, priorizamos a participação no Campeonato Brasileiro Interclubes (CBI), que hoje é nossa principal competição. Não é um torneio simples nem barato, mas ele coloca Juiz de Fora no cenário nacional e permite que nossos atletas enfrentem as principais equipes do país.”
– Você foi convocado para comandar novamente a Seleção Mineira. Como será esse trabalho?
-“Assumir novamente a Seleção Mineira é uma grande satisfação. Neste ano criamos um modelo inédito de convocação, com campings regionais realizados em diferentes cidades do estado. Vamos passar por Montes Claros, Poços de Caldas, Juiz de Fora, Contagem e Uberaba. Em cada etapa serão avaliadas cerca de 25 atletas. Ao final teremos aproximadamente 120 meninas observadas antes da definição das 12 convocadas para o Campeonato Brasileiro. Além da seleção, a UFJF participará do projeto realizando avaliações físicas e cadastrando todas as atletas. Assim, criaremos um banco de dados importante para acompanhar o desenvolvimento dessas meninas e fortalecer o trabalho de base nos próximos anos.”
– Você teve participação importante na formação da Kamilla Cardoso. Como foi esse processo?
“Hoje temos um grande exemplo dessa retomada na Kamilla, uma das principais atletas brasileiras e destaque da WNBA. Muita gente conhece a Kamilla, mas poucos sabem que ela é de Montes Claros e nunca atuou por um clube brasileiro. Ela saiu diretamente dos Jogos Escolares para os Estados Unidos. Eu acompanhei a formação dela desde os 10 anos de idade. Aos 12, levei a Kamilla para a Seleção Mineira sub-15, onde acabou sendo convocada pela primeira vez para a Seleção Brasileira. Depois seguiu para o high school nos Estados Unidos e construiu a carreira que todos conhecem.”
– Como despertar nas meninas o sonho de seguir carreira no basquete sem tantas referências atuais? Antigamente havia Magic Paula, Hortência, Janeth…
“O basquete feminino brasileiro ainda busca recuperar o espaço que teve na época de Paula, Hortência e Janeth. Hoje a nossa principal referência é a Kamilla Cardoso, uma das melhores jogadoras do mundo. Mais do que mostrar o sucesso dela, precisamos contar sua história. Ela veio da escola pública, passou pelos Jogos Escolares e chegou à WNBA. Isso mostra às meninas que elas também podem alcançar esse nível. A Kamilla é o maior exemplo de que o esporte transforma vidas. Ela vem de uma família humilde, recebeu bolsa de estudos e sempre participou de projetos esportivos. Quando surgiram propostas para que permanecesse no Brasil, sempre defendi que ela fosse para os Estados Unidos. Mesmo que não se tornasse atleta profissional, voltaria com uma excelente formação. Felizmente, o talento dela falou mais alto. Nosso objetivo é fazer com que cada menina entenda que também pode chegar lá. Talvez ela não sonhe em ser exatamente a Camila, mas pode enxergar que aquele caminho é possível por meio do estudo, do esporte, da disciplina e do trabalho.”
– Existe o objetivo de ter uma equipe adulta feminina representando Juiz de Fora em nível nacional?
“Esse planejamento já está em andamento. Estamos estruturando todas as etapas para que, em 2028, Juiz de Fora tenha uma equipe adulta feminina disputando a Liga de Basquete Feminino. Queremos construir esse projeto de forma sólida e sustentável. Esse será mais um passo para inspirar novas gerações de atletas e mostrar que elas podem sonhar em chegar ao mais alto nível sem precisar sair da cidade logo no início da formação.”
– Qual é a importância de um projeto como esse para a cidade?
“Esse aspecto é muito importante. Quando acompanhamos projetos de sucesso em outras cidades, seja no vôlei, no basquete ou no futsal, percebemos que eles conseguem criar uma identificação muito forte com a população. As pessoas passam a acompanhar porque conhecem quem está ali. O garoto estudou no mesmo colégio, treinou no projeto do bairro, começou na escola. Isso faz toda a diferença. Não faz sentido uma equipe precisar contratar até os atletas que vão compor o elenco de apoio quando a cidade pode formar esses jogadores. É isso que queremos construir: que os jovens enxerguem quem está na equipe principal e pensem: ‘Eu também posso chegar lá’. Estamos trabalhando para isso. Queremos que o menino ou a menina que começa em um núcleo social consiga visualizar esse caminho até o alto rendimento. Mais do que conquistar troféus, o Jotaefe Basquete foi criado para transformar vidas e inspirar pelo exemplo”
– Para quem deseja conhecer o Jotaefe Basquete, como é possível participar do projeto?
“Hoje o primeiro contato acontece principalmente pelos nossos núcleos espalhados pela cidade. É importante que pais e alunos acompanhem as atividades nos bairros e conversem com os treinadores. Além disso, realizamos seletivas ao longo do ano para identificar novos talentos e integrá-los às equipes de competição. Também divulgamos todas essas oportunidades nas redes sociais do Jotaefe Basquete. Nosso objetivo é atender cada vez mais crianças e adolescentes. Além dos nossos núcleos, contamos com clubes e instituições parceiras, o que amplia ainda mais o número de vagas e oportunidades para meninos e meninas. Quanto mais pessoas conseguirmos envolver por meio do esporte, melhor será o resultado. Essa é a missão do Jotaefe Basquete e também do trabalho que desenvolvemos nas escolas, sempre unindo esporte e educação.”

