
Às 9h, o atleta de vôlei Gabriel Spinelli acorda, toma o café e parte para os treinos. Morando em um apartamento pequeno, sem área livre, o jogador improvisa exercícios para manter a prática e o condicionamento físico. Por mais que o isolamento social atrapalhe a motivação, seu foco é o sonho de ser um atleta profissional. “Tem que ter persistência. No início é chato e complicado, você não fica motivado. Mas sua determinação tem que ser maior que sua motivação. Mesmo que você não queira, tem que tentar, porque depois de 20 dias, acostuma e isso passa a fazer parte da rotina. Se eu não fizer isso, acabo me sentindo mal”, conta o ponteiro de 16 anos e 2,01 metros de altura.
Mirando a Seleção Brasileira, Gabriel ingressou na escolinha do Clube Bom Pastor em 2016 e subiu para o nível de base no ano seguinte. Em 2018, integrou o JF Vôlei e teve participação na Superliga B. No ano seguinte, passou a se aventurar também em um projeto de vôlei de praia que acontece na AABB, sob o comando do treinador Roberto Elias. Uma semana antes de entrar em isolamento social, o juiz-forano chegou a participar do Campeonato Brasileiro de Seleções. Mas sua rotina mudou completamente no dia 10 de março.
“No início foi bem difícil, mas faço o que é possível. Libero os quadros da parede, faço um paredão, com manchete e toque. Pela manhã, faço cardio na escada do prédio, subindo e descendo de três em três degraus, durante 30 minutos. De tarde faço musculação, improvisando com cabo de vassoura e mochila com livros”.
O atleta conta com o apoio do preparador físico e nutricionista, Diego Torga. Com a menor carga de treinos, sua alimentação também se adaptou à nova rotina. “Como eu não tenho gasto de energia de ir a pé até a escola, ao treinamento e à academia, meu gasto calórico também diminui. Com isso, o que como também diminui.”
Apesar dos esforços, Gabriel acredita que será necessária uma readaptação quando tudo voltar ao normal. Mesmo que sua parte física e cardiovascular estejam bem, não tem como, segundo ele, a parte técnica, tão fundamental no vôlei, não ser afetada. “Como todos estão em isolamento social, acho que todos voltarão no mesmo nível e crescerão exponencialmente”, avalia.
Uma pausa no planejamento
Tendo integrado a equipe adulta do JF Vôlei de agosto de 2018 a março de 2019, sua participação na Superliga B foi modesta, mas a experiência e seus frutos foram muitos. Faltando dois jogos para acabar a temporada, Gabriel deixou o time após ser convocado para a equipe mineira, durante o Campeonato Brasileiro de Seleções. Na época, o time foi vice-campeão Sub-17.
Uma semana antes de começar seu isolamento social, Gabriel teve o privilégio de participar do campeonato pela segunda vez, agora como Sub-19. O evento ocorreu em Saquarema (RJ), e a equipe mineira ficou em sétimo lugar na classificação geral. “É uma coisa única, porque você passa um mês em Belo Horizonte treinando com tudo pago, ao lado dos melhores atletas de Minas. Você vê que seu nível cresce e, na competição, jogam os melhores contra os melhores. Tem a pressão, porque em todos os jogos, há pessoas olhando e anotando tudo. Isso nos faz crescer muito como atletas, trabalha muito psicológico e técnica em uma competição de nível alto. Devo essa convocação ao período que passei no JF Vôlei, evoluí muito nesse período.”
A falta de notícias sobre o resultado da convocação de atletas para a Seleção Brasileira, que ocorreria em abril, mas precisou ser adiada por conta da pandemia, o deixou ansioso. “Fiquei aflito no início, mas é preciso entender o momento que estamos vivendo e ter paciência”, comenta. O atleta também ia disputar, esse mês, o Campeonato Brasileiro Interclubes de vôlei de praia, na categoria Sub-19, mas o torneio também foi adiado. Já no vôlei de quadra, ele aguarda os campeonatos de categorias de base no segundo semestre.
Com todas essas oportunidades e experiências, Gabriel segue se esforçando e treinando, projetando um futuro profissional para além das fronteiras de sua terra natal. “O vôlei é minha paixão, não me vejo em outra área. Pretendo continuar esse ano em Juiz de Fora e, possivelmente, ir para um time maior ano que vem, seguindo carreira. Minha projeção é receber propostas no vôlei de quadra, do Minas, Cruzeiro, Sesi-SP e, a partir daí, ver conforme os anos vão passando”, almeja.

