Teve um penóte
O pessoal gosta de se reunir em volta do velho para ouvir suas histórias. Aos 80 e tantos, com um enfisema lhe escurecendo os pulmões, a memória continua cristalina. Todo mundo fala, às vezes ao mesmo tempo, e o assunto vira e mexe cai no futebol. Aí ele geralmente só ouve. Menos quando alguém lhe provoca.
– E futebol, o senhor já jogou?
– Eu? Já, já joguei… Mas o pessoal não gostava muito.
– Era muito perna de pau?
– Não, não… – diz ele sorrindo. – Não era isso não.
Então ele se ajeita na poltrona de couro, toma fôlego com um lento fechar de olhos e dá sequência.
– Na primeira vez que me chamaram pra jogar, me colocaram na defesa. Eu jogava em qualquer posição, não tinha isso de escolher lado do campo, nem chuteira tinha. E uma hora veio uma bola pererecando assim na minha frente, e o centroavante deles vinha atrás dela, embalado.
– E o senhor quebrou ele no meio!
– Não, não… eu nunca fiz uma coisa dessa. Mas dei um chute tão forte na bola, pro alto, que ela sumiu. Nunca mais caiu. Tiveram de ir buscar outra.
A rapaziada gargalha, dá um gole na cerveja, e acha que acabou.
– Por isso que eles não gostavam do senhor?
– Também -, e então é a vez do velho molhar a palavra. Sem pressa nenhuma, ele deposita o copo de volta na mesa e só então recomeça: – Mas não foi só isso.
– Ah, não?
– Não, senhor. Depois teve um penóte.
– Um pênalti?
– É, um penóte. Depois daquele chute, o compadre Marculino, que era capitão do time, foi lá e falou pra eu bater. Olha… eu nem tomei muita distância não, sabe? Corri pra bola e enchi o pé. Bem no meio do gol. No peito do goleiro.
– Perdeu o pênalti??
– Não, – riu o velho. – Foi bola, goleiro e tudo pra dentro do gol. Furou a rede e derrubou três pés de eucaliptos, um atrás do outro, em fila.
O pessoal lá morre de rir, enche seus copos e segue em frente.
Mas dizem que nas noite de lua nova, naquelas bem escuras, se você prestar atenção, vai ver no céu uma estrela que não brilha. E que, reza a lenda, nunca vai cair.
