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Projeto de caratê no Santa Rita busca auxílio financeiro para se manter

caratê Fernando Priamo
Foto: Fernando Priamo
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Era 2003 quando o armador de ferragens Reidner de Lima Ferreira treinava caratê em um campo de futebol no Bairro Santa Rita de Cássia, Zona Leste de Juiz de Fora. O faixa preta ensaiava alguns movimentos da arte marcial quando se deparou com uma pequena sombra, desajeitada, ao seu lado tentando repetir, como podia, o balanço de braços e pernas efetuado por ele. A sombra tinha 5 anos e vontade de aprender; o carateca, por sua vez, muita disposição em ensinar. Ao passar dos dias, o exemplo do jovem se multiplicou em mais sombras, e o carateca se transformou em sensei (instrutor).

Em dois anos, o céu aberto do terrão deu lugar ao teto do centro comunitário do bairro. Os encontros se tornaram aulas do projeto da Associação Comunitária de Apoio Infanto Juvenil – divisão caratê (ACAIJ), uma organização sem fins lucrativos, que definiu como missão mudar a vida de jovens carentes de oportunidades. Hoje, quase 15 anos depois e mais de 500 vidas tocadas pela ação, a iniciativa busca ajuda para continuar transformando realidades.

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Esta necessidade de apoio tem um motivo básico: o tempo. Reidner sempre ensinou sozinho, mas hoje, aos 56 anos, sente mais os efeitos da idade do que aos 41, quando deu início ao projeto. “Com 54 anos comecei a sentir um pouco, já não tinha tanta disposição para correr, por exemplo. Eu pretendo continuar orientando, mas preciso dos mais novos para fazer a parte pesada. Percebo que já é hora de ter alguém para me ajudar, pelo menos na parte física da aula”, relata.

Alunos faixas marrons precisam de apoio financeiro para graduação (Foto: Fernando Priamo)

Esse alguém pode ser um dos alunos faixas marrons do projeto, que possuem idade entre 20 e 30 anos e ingressaram na ACAIJ quando ainda tinham menos de 10. Para se tornarem senseis, entretanto, conforme as regras do caratê, precisam avançar a um próximo nível, a faixa preta. “Até a marrom eu consigo graduá-los, porém delas em diante somente as federações podem graduar. O valor que elas cobram é meio alto, em torno de mil reais por graduação. Estamos fazendo uma ‘vaquinha’ para tentar enviá-los para fazer o exame. Não temos condições de mandá-los por conta própria e por isso precisamos de ajuda”, explica Reidner.

Dos postulantes, dois serão enviados para realização da prova, que deve acontecer no meio do ano. Somados todos os custos e taxas, os gastos ultrapassam os R$ 2 mil. Até o momento da publicação desta matéria, menos de 30% do valor foi obtido na vaquinha virtual que pode ser acessada no link. O valor mínimo da doação é de R$ 10 e cada despesa está discriminada na plataforma on-line.

Segundo Reidner, 90% dos materiais utilizados nas aulas são originários de doações. O projeto está continuamente aberto a recepção de equipamentos e uniformes durante as aulas que vêm sendo realizadas aos sábados, de 11h à 12h30, no Centro Comunitário do Bairro Santa Rita de Cássia, localizado na Rua Rômulo Ribeiro Castro, 395.

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Muito além do tatame

“O maior objetivo do caratê é a perfeição do caráter”. Essa é uma tradicional máxima da arte marcial e levada muito a sério na ACAIJ. Para que o aluno possa se graduar e conquistar a próxima faixa, deve ser disciplinado e estar com suas obrigações em dia. “Para participar do projeto eles devem estar estudando e tirar boas notas, ou então sofrem a penalidade de não graduar. Devem respeitar os pais, ajudar em casa e não podem se envolver em brigas ou qualquer outro tipo de confusão”, explica o sensei.

Por conta da prioridade ser a disciplina nos estudos, grupo de alunos do projeto estava reduzido no dia do encontro com à Tribuna (Foto: Fernando Priamo)

Fruto dessa metodologia é o próprio filho, Reidner Júnior. O jovem, hoje com 22 anos, tinha sete quando o projeto foi criado. Além da faixa marrom no caratê, que o torna um dos candidatos para a vaga de sensei, um dos principais aprendizes do pai guarda um troféu que o transforma em exemplo para os mais novos e fonte de ensinamentos, mesmo sem ser um instrutor: o diploma de bacharel em Direito. Recém-formado, produziu seu trabalho de conclusão de curso (TCC), intitulado “O Enfrentamento ao Tráfico de Drogas Ilícitas na cidade de Juiz de Fora-MG: O papel desempenhado pela população civil frente à omissão do Estado”, tendo como inspiração o projeto que o fez chegar até a faculdade e concluí-la.

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“Durante a adolescência fui algumas vezes suspenso por conta das minhas notas e o mau comportamento na escola. Nessa época eu morava na cidade de Bicas e vinha todo final de semana para praticar caratê e ver meus amigos. Ser suspenso significaria que não veria meus melhores amigos e nem praticaria a arte marcial no projeto. Comecei a estudar para melhorar minhas notas. Hoje eu sou faixa marrom e no final do ano passado, devido ao incentivo que obtive na ação social, me tornei bacharel em Direito com uma bolsa de 100% na faculdade. Se não fosse o projeto talvez não tivesse nem completado o Ensino Médio”, relata.

Questionado sobre o que sente ao ver onde o filho chegou, Reidner, o pai, conta que além da satisfação em ver o caminho traçado por ele, define o jovem como um exemplo dos campeões formados pela ACAIJ. “Sinto uma alegria imensa pela conquista dele. É como eu falo com os alunos, eu não quero faixa preta, campeão mundial… eu quero campeões da vida, de luta. Pessoas honestas, formadas, que tragam coisas boas para a gente, para o bairro e para o mundo.”

Foto: Fernando Priamo
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