
Técnico Luiz Carlos durante treino com alguns atletas
Referência em Juiz de Fora quando o assunto é natação e acostumado a trazer medalhas em campeonatos estaduais e nacionais nas categorias de base, o Clube Bom Pastor está mostrando que também pode fazer bonito com os nadadores mais experientes. No primeiro semestre, a equipe master conquistou oito medalhas, sendo três de ouro, três de prata e duas de bronze, quatro delas no Aberto Brasil Master de Natação, em julho, em Ribeirão Preto (SP), e a outra metade no Circuito Loterias Caixa de Natação Paralímpica, em maio, no Rio de Janeiro. Também registrou a participação de duas atletas no Campeonato Mundial Master de Natação, que ocorreu no início deste mês em Montreal, no Canadá.
Os resultados, segundo a direção do clube, não são fortuitos, mas sim consequência de um trabalho iniciado a partir de janeiro, com a contratação do técnico Luiz Carlos Pessoa Nery, 50 anos, ele mesmo um ex-nadador do clube. Paulo Sérgio Rodrigues Costa, presidente do Bom Pastor, conta que, no final de 2013, a própria equipe de natação estava solicitando um treinador específico. "O grupo não tinha foco, levava a atividade mais para melhorar a qualidade de vida. Naquele momento, o objetivo era atender a esse pedido", relembra.
Nery confirma a situação: "Quando cheguei, encontrei atletas excelentes, mas que trabalhavam sob planilha, se encontravam no dia das provas e com foco limitado, só participavam de competições regionais". Com currículo "rechonchudo", Luiz Carlos, mestre em ciência da atividade física e doutor em gestão do esporte, diz que, aos poucos, foi implementando um modelo de trabalho que, segundo ele, permite a todos ter qualidade de vida aliada à saúde atlética, sem impedir que obtenham resultados competitivos.
Calendário
Para isso, ressalta que foi necessário se certificar de que o grupo possuía condições físicas. "A equipe tinha potenciais cardiopatas, pessoas com problemas alimentares, abaixo e acima do peso, e com dificuldade de mobilidade articular, ou seja: gente que poderia correr sérios riscos em competições." Foi definido um calendário de avaliações corporal, sanguínea, cardiológica e flexiteste, e também parceria com uma nutricionista, intercalando verificações de lactato, que, segundo ele, indicam, com 100% de precisão, o nível de esforço para evitar overtraining (sobrecarga). "A partir daí, identificamos a necessidade de cada um", destaca.
Atualmente, a equipe reúne cerca de 60 atletas, sendo que 30 treinam efetivamente, em uma rotina de duas horas diárias, de segunda a sábado. "Em média, eles fazem quatro vezes por semana, com 3.500m por dia para os velocistas e 4.500m para os fundistas." Os atletas não pagam para treinar, mas custeiam sua participação nos campeonatos. O técnico diz que o fato de os nadadores da categoria master estarem mais estabilizados financeiramente e socialmente, por um lado, facilita, mas por outro lado dificulta. "Conciliar trabalho, família e rotina de treinos não é tarefa fácil. É um desafio. Nós não temos uma estrutura profissional, mas temos obrigação de ter uma mentalidade profissional", destaca.
Em busca do índice paralímpico para 2016
Assim como Denise Barra, o presidente e nadador do Bom Pastor, Paulo Sérgio Rodrigues Costa, 49 anos, sabe bem o que 1 segundo dentro da água representa. No seu caso, representa a possibilidade de participar dos Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. "Estou a 1 segundo de obter o índice nos 50m livre. Tenho treinado intensivamente com esse objetivo", destaca. A última tentativa de Paulo ocorreu no Circuito Loterias Caixa de Natação Paralímpica, organizado pelo Comitê Paralímpico Brasileiro em maio, no Rio de Janeiro.
Ele diz que, apesar de não ter obtido o tempo necessário, "medalhou" em todas as quatro provas em que se inscreveu – ouro nos 100m peito, 200m medley e 400m livre, e prata nos 100m livre. "Sempre participei da natação convencional mesmo tendo uma sequela na perna em decorrência de um acidente. Mas, quando veio para o clube, o Luiz Carlos me propôs o desafio de participar na categoria paralímpica, e eu aceitei."
Paulo compete na categoria S10. São dez classes funcionais para os nados livre, costas e borboleta, nove para o nado peito e mais dez para o medley. As pessoas com deficiência visual se enquadram nas categorias 11 (cegos), 12 e 13 (baixa visão), e as com deficiência intelectual em uma única classe, na 14. "Nesse tipo de prova você compete com pessoas de várias idades, ao contrário da master, que é por faixa etária. Como são poucas as provas para se tentar o índice, este ano não dá mais, mas em 2015 vou tentar de novo", diz.
Superação individual é o lema
Luiz Carlos ressalta que o objetivo do Bom Pastor é levar o máximo de atletas para competir em provas nacionais, mas contrapõe: "Tão importante quanto os resultados, é que todos eles estabeleçam metas, tenham foco na autossuperação técnica e emocional". Um exemplo é o óptico João Batista Viana, 60 anos. Traumatizado por um episódio na infância em que quase se afogou, ele conta que, no início do ano, não conseguia nadar 100m direto, sempre parava no meio da piscina. "Não ia além porque a piscina tem 3,5m na parte funda. Eu travava." Mas, desde o início de junho, ele já nada até o fundo e diz que consegue fazer entre 2.000m e 3.000m nos treinos. "Tenho quase 100kg, está sendo um baita desafio. Mas já aprendi, além do crawl, costas e peito", conta, satisfeito.
Denise Barra, 54, lembra que também teve que enfrentar seus "monstros dentro do armário". "Eu nado há sete anos. Chegava a treinar 7km por dia, mas comia muito mal", revela. Ela diz que, em fevereiro de 2013, foi diagnosticada com púrpura, causada por baixa imunidade, e precisou extrair o baço. "No início do ano, o treinador foi categórico: ou você procura um nutricionista ou está fora da equipe. Hoje, minha alimentação é completamente diferente. Ganhei 6kg de massa magra e me sinto muito mais forte." Mesmo sem se enxergar como uma atleta de velocidade, Denise afirma que, com dedicação, conseguiu baixar em 11s seu tempo nos 100m peito. Resultado: abocanhou duas medalhas de prata no Aberto Brasil, no mês passado, primeira prova nacional de piscina que participou. "Para quem é leigo, um segundo parece fácil, mas para um nadador é uma eternidade."
A economista aposentada Maria Helena Leal Castro, 59, colega de raia de Denise, é outra que se surpreendeu com os resultados no torneio de Ribeirão Preto. Das quatro provas que nadou, foi bronze nos 50m livre e nos 100m livre. "Fiquei muito satisfeita, pois vi que tinha condições de competir de igual para igual. Eu poderia ter me aposentado e ficado com os pés para o alto, mas escolhi ter saúde. E não é fácil: tem que treinar faça chuva, sol ou frio, ter disciplina… é um esforço", ressalta.

