Ícone do site Tribuna de Minas

Os pés pelas mãos

PUBLICIDADE

O velho

Era velho. Que já passara dos 70 anos, era batata. Gostava de futebol. Ou, pelo menos, do que era jogado há algumas décadas. Hoje é só correria. Era mesmo velho. Não vai ter outro Pelé. Garrincha, nem se fala! Mas o melhor foi o Zizinho. Fingia que não gostava mais da bola. Desapeguei depois da Copa de 50. Era criança em 1950. Tinha 12 anos quando foi pela primeira vez ao Maracanã. Comemorou o gol de Friaça na decisão daquele Mundial como nunca mais fez na vida.

PUBLICIDADE

Não viu o primeiro de Ghiggia. Estava na fila da pipoca. Ou do refrigerante? Era criança. Não lembrava. Mas, o empate era nosso. Sentia-se mais brasileiro. Chorava de orgulho. Escondeu as lágrimas na barra da camisa do pai e não viu o segundo gol uruguaio. Morri ali. Desde então, fingia não gostar de futebol. Você devia ter visto o Zizinho jogar. Era velho.

Fazia as vontades do neto, de 12 anos. Prometeu levar o garoto à final da Copa das Confederações. No Maracanã. Nada será mais triste que a Copa de 50. Tinha manias de velho. Cismou. Ia dar uma camisa do Brasil para o menino. A 8, do Zizinho. Comprou a 10, de Neymar. Voltando para a casa, viu um protesto de jovens na rua. Será que é porque o Neymar foi para o Barcelona?

Um rapaz de 17 anos o convenceu a sentar no chão, em um cruzamento antes movimentado. Vou explicar, tio. O garoto falou sobre objetivos diversos, mas ficou claro que queria algo que nunca teve na vida. Como eu, na Copa de 50. Era velho, mas, de alguma forma, aquilo o tocou. Também queria um país melhor. Envolveu-se. A causa passou a ser sua. Nossa!

Entoou gritos de ordem. Contra a corrupção. Por um Brasil melhor além das quatro linhas. A tristeza de 1950 não fazia mais sentido. À época da ditadura, havia escolhido não se envolver. Tinha medo de comunista. Só agora, depois de velho, percebeu que há conquistas maiores que uma Copa. Sentia-se mais brasileiro. Chorava de orgulho. Copiosamente.

PUBLICIDADE

Não são só vinte centavos, tio. Ele sabia. Até porque já não pago passagem, riu, em uma travessura egoísta. Sobre alguns radicais que quebravam inocentes vidraças, vaticinou: Sempre existirão ‘ghiggias’, mas eles não nos impedirão de sonhar. Era, agora, um garoto.

Sair da versão mobile