Maria dos Anjos e Paulo Edson
Maria dos Anjos nunca foi fã de futebol nem de cheiro de gordura velha. Mas também nunca se incomodou com a paixão de Paulo Edson pelo Flamengo e pelo boteco. Desde os tempos de namoro, enquanto ele ia para o bar ver jogo, ela ia assistir ao Silvio Santos, fazer um bolo – mais solado que tapete de banheiro, e ele era obrigado a comer – ou ir à casa da Lurdinha para saber das últimas da rua de cima.
Depois que casaram continuou a mesma coisa. Até na lua de mel ele deu uma escapada para ir a um bar na orla de Piúma ver o Rubro-Negro tomar um sacode de 6 a 0 do Atlético-PR. Voltou amarrado num fogaréu de dar inveja a mineiro na Oktoberfest. Mas deu no couro, que era o que interessava na ocasião. Estavam felizes.
Depois de alguns anos de solidão às quartas (ou quintas) e sábados (ou domingos) esperando o Paulo voltar do bar, Dos Anjos deu de presente ao marido um pacote da Sky com o Campeonato Brasileiro e o Carioca. Naquela quarta esperou ele chegar do trabalho e fez a surpresa: sala arrumada com bandeira do Flamengo, uma dúzia de Skol litrão, azeitona, maçã de peito com pão, feijão amigo e o barrilzinho de pinga de três litros e meio, excepcionalmente transportado da cozinha para a sala. Paulão ficou feliz pra burro. Lascou um beijo na Dos Anjos e logo se ajeitou no sofá ao lado dela, falando que no final de semana ia trazer Marcelo, Marcinho e João Bosco para ver o jogo contra o Figueirense.
Durante os 90 minutos, respeitando o intervalo, gritou tanto, xingou tanto palavrão e deu tanto murro na parede que, no dia seguinte, Dos Anjos saiu de cabeça baixa pela rua, com vergonha dos vizinhos. Foi direto no moço da Sky pra saber como é que fazia para cancelar o pacote.
