Os paralelepípedos da Rua da Harmonia
Depois das cinco da tarde a Rua da Harmonia era só festa.
A gente chegava da aula e ia pro portão do Seu João da Praia pra jogar controle. A regra era simples: um goleiro ficava postado em frente ao portão, que era o gol, e dois ou três moleques tinham de trocar no mínimo três passes, com a bola no ar, antes de tentar vazar o arqueiro. Se fosse pra fora, o goleiro vinha pra linha, e quem errasse assumia seu lugar. Se tomasse três gols, o goleiro mofava. Uma mofa era janeiro; duas, fevereiro, três, março e por aí em diante. O que mais se ouvia eram os gritos de cruzo!, que era pra avisar que alguém ia centrar a bola – dente de leite, que de couro era luxo -, como um ponta ou um lateral. Aí não precisava contar três toques, a gente podia bater direto.
Quando o seu João da Praia encrespava, ou depois, quando a Telemig comprou o terreno e o vigia ralhava, íamos jogar em frente à casa do Seu Pedro, pai do Luís Cheiroso. As traves ali eram um poste de luz e o tronco de uma árvore moribunda. Em época de Copa do Mundo, com folga na escola e o espírito esportivo aguçado pela Seleção Brasileira, a gente jogava era o dia inteiro. A rua era calçada com paralelepípedos, então a meninada vira e mexe arrancava a unha, porque todos jogávamos descalços. Eu mesmo quebrei dois ossos do pé no Mundial de 1986. Carro não era perigo, que todo mundo andava devagar.
Teve uma época que a gente desandou a jogar casinha. Lá na Rua da Harmonia não existia bete, era casinha. E ninguém jogava com taco. Montávamos a casinha com três pedaços de bambu, que ora arrancávamos da cerca lá de casa sem meu pai saber, ora catávamos no terreno do Edinei, que nem jogava. A bola era feita de meia, e a gente tinha que defender a casinha com os pés, chutando para o mais longe possível, numa versão brejeira do beisebol americano. Aí também os paralelepípedos costumavam arrancar unhas e a tampa do dedão.
Hoje em dia as crianças estão protegidas dos paralelepípedos da Rua da Harmonia. Os blocos de pedra foram enterrados sob 5 centímetros de asfalto. E, junto com eles, um pedaço importante de uma boa dúzia de infâncias.
