O orgulho ao ver um atleta levando o verde e amarelo até o ponto mais alto do pódio é de todo um país. Mas o caminho até lá é árduo e, às vezes, começa muito cedo, como é o caso das ginastas juiz-foranas Ana Clara Santanna, de 7 anos, e Yasmim Coelho, de apenas 5. Ambas, apesar da pouca idade, já sabem muito bem o que querem fazer da vida e qual lugar pretendem ocupar no esporte. As atletas mirins despontaram em Juiz de Fora, mas nos últimos meses tiveram seu talento reconhecido por uma das melhores escolas do Brasil, a de ginástica artística do Flamengo, no Rio de Janeiro, de onde saíram nomes como Rebeca Andrade, Jade Barbosa e Flávia Saraiva.
“A Ana Clara sempre foi muito obstinada, desde bebê, quando ela venceu a displasia de quadril sem ficar com nenhuma sequela”, conta Michelle Santana, mãe de Ana. Segundo ela, ver a filha se pendurando nas barras e dando cambalhotas é uma grande vitória, visto que nos primeiros meses, após seu nascimento, Ana sofreu de uma condição chamada “displasia de quadril”, quando o bebê nasce com um encaixe imperfeito entre o fêmur e o osso do quadril, o que faz com que a articulação fique mais solta e cause diminuição da mobilidade. “Durante meses ela teve que usar um suspensório que limitava os movimentos dela e que a gente só podia tirar para dar banho. Mas a recuperação foi muito boa, muito rápida, e ela não teve nenhuma sequela. E já na escola, com 4, 5 anos, me falaram que ela era muito forte, se pendurava nos brinquedos e me indicaram procurar uma escola de ginástica.”
O desenvolvimento foi praticamente instantâneo. Em poucos meses, Ana se destacou entre as meninas da sua idade e passou a treinar com a turma de alunos mais avançados. “Já no começo de 2020, quando ela entrou, nós percebemos o potencial dela. Durante a pandemia, as crianças ficaram afastadas do treino, mas agora, no início do ano, nós voltamos a praticar. Nesse último mês, se preparando para a seletiva do Flamengo, a Ana estava treinando todos os dias”, conta Pamella Galollete, treinadora na Escola de Ginástica Olímpica de Juiz de Fora, onde Ana despontou.
De acordo com Michelle, foi a filha quem buscou a escola do Flamengo. “Quando a Ana descobriu que as meninas que ela mais admira, a Rebeca, a Flavinha, treinavam lá, ela disse: ‘mãe, é lá que eu quero’. A partir disso, a gente começou a tentar.” A mãe então criou um perfil no Instagram para publicar alguns vídeos da Ana (@anaclarasantanaginasta) e, a partir daí, a equipe do Flamengo a convidou para um teste. A seletiva para o time aconteceu na segunda semana de outubro, e, logo depois de ser aprovada, ela precisou ficar no Rio de Janeiro. “No momento nós estamos ficando na casa de tios, só eu e a Ana. O meu filho mais velho de 13 anos e meu marido continuaram em Juiz de Fora. A gente ainda não conseguiu alugar nada por aqui, os aluguéis são muito caros.”
Os custos para um atleta profissional são muitos, como conta Michelle. “A alimentação da Ana terá que ser balanceada, os uniformes são muito caros, o transporte até o centro de treinamento também.” Para seguir com o sonho, mãe e filha criaram uma vaquinha on-line. “Foi tudo ideia da Ana. Ela viu uns vídeos no Youtube e descobriu a vaquinha e logo pediu para a gente fazer.” Os interessados em ajudar a carreira da Ana podem realizar as doações através do link: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/vamos-ajudar-a-ana-clara-ir-para-as-olimpiadas. Além disso, a família também faz rifas para ajudar na arrecadação do dinheiro.
O mundo de cabeça para baixo
No caso da Yasmim, a energia que não a deixava ficar parada também foi o motivo do encontro com a ginástica artística. “Eu sempre falo que o mundo da Yasmim é de cabeça para baixo”, conta a mãe, Carol Roque. “Ela sempre fica se pendurando nas coisas, dando cambalhota, fazendo estrelinha. E agora, na pandemia, a gente pensou em colocar ela em um esporte para gastar toda essa energia acumulada.” A Escola de Ginástica Olímpica de Juiz de Fora foi a solução. “Na época que eu mandei mensagem para a Pamella, treinadora dela, as aulas eram muito caras, a gente não teria condição de pagar. Mas conversando, ela ofereceu uma boa bolsa de desconto para a Yasmim continuar treinando.” A paixão pelo esporte foi imediata, como conta a mãe. “Agora o mundo dela é a ginástica.”
Após ver as medalhas conquistadas por Rebeca Andrade nas Olimpíadas de Tóquio, a vontade de seguir na carreira profissional ficou ainda maior, e a oportunidade de treinar na Escola do Flamengo foi única. “Quando a gente descobriu que a Rebeca treinava no Flamengo, logo mandamos mensagem e, no final de agosto, fomos chamados para fazer um teste.”
A ida para o Rio de Janeiro mobilizou toda família. Todos os tios se juntaram para alugar um carro e ir até o centro de treinamento, que fica na Gávea. Chegando lá, a emoção foi grande. “Eu, como mãe, fiquei muito emocionada. A Yasmim não, ela estava se divertindo.” A aprovação saiu no mesmo dia, e junto com a alegria também veio a frustração. “Depois que falaram que ela tinha passado, foi como se a gente tivesse levado uma rasteira. Porque disseram que ela teria que ficar lá no Rio, pelo menos por um mês, para fazer o teste de esforço físico. A gente não teve condições de ficar. A gente tinha que ter uma moradia lá e não tínhamos como pagar.”
Yasmim e a família voltaram para Juiz de Fora, mas os planos de treinar no Flamengo não se apagaram. “Nós estamos nos organizando e a intenção é que ela faça um novo teste em janeiro e a gente volte para ficar, eu meu marido e meus dois filhos. A Yasmim me cobra até hoje.” Atualmente, ela continua treinando na Escola de Ginástica de Juiz de Fora, mas com uma rotina de treino semelhante à do Flamengo. “A treinadora dela, a Pamella, colocou ela para treinar como se estivesse no Flamengo, todos os dias, três horas por dia, para que ela esteja preparada para quando a gente voltar.”
Realizar uma vaquinha, assim como a família de Ana, também está nos planos. “Mas eu não tenho muita habilidade com a internet, então, estamos precisando de alguém que possa ajudar a gente com isso”, conta Carol, que disponibiliza o número de Whatsapp para aqueles que tiverem a intenção de ajudar: (32) 9809-4885. O contato também pode ser feito pelo Instagram criado para divulgar os vídeos da Yasmin (@yasmin.roque.coelho.ginastica).
Uma brincadeira levada a sério
A ginasta e treinadora na Escola de Ginástica Olímpica de Juiz de Fora, Pamella Galollete, acompanhou o desenvolvimento das meninas desde cedo. Segundo ela, o diferencial é que a criança goste do que faz. “Tem crianças que treinam uma vez por semana, 30 minutos por dia, porque a intenção dela é realmente só estar praticando aquela atividade. Mas quando a criança gosta, desde cedo ela mostra o interesse em seguir nessa carreira profissional. E a gente respeita a decisão da família, da criança, não forçamos nada, vamos acompanhando o desenvolvimento dela e aumentando assim a carga de treino.”
Atualmente treinando no Flamengo, Ana Clara dispõe de três horas do seu dia ao centro de ginástica. “A gente acorda 5h da manhã todo dia, porque demora quase duas horas para chegar na Gávea. E lá, ela treina de segunda a sexta, sem intervalos. É uma rotina muito rigorosa, mas é o que ela ama fazer. Até brinco que, com 7 anos, eu só queria uma boneca, já a Ana, o sonho dela é a medalha Olímpica”, diz a mãe da atleta mirim. “É muito divertido”, garante Ana. “Tem um trampolim gigante, uma barra grande. Minha maior inspiração é a Rebeca Andrade”, completa a menina que, dessa nova vida, só reclama da falta do irmão e do pai, que ficaram em Juiz de Fora. “Estou com muita saudade deles, mas uma coisa que minha mãe sempre fala é que ela está aqui para me apoiar.”
