Padre João e as quatro linhas
O que me contaram foi que o caso aconteceu de vero num alto de serra da Zona da Mata mineira. Padre João era daqueles párocos rígidos, que tinha seus desafetos na comunidade, tanto que costumava carregar à cintura um trezoitão poucas vezes usado (porque era preciso garantir a segurança do rebanho, mas a do pastor também). De forma geral, porém, era um sujeito querido pelo pessoal. Menos pelos turcos. Com os turcos ele tinha lá uma questão que nunca fora muito bem resolvida. O que não vem ao caso aqui.
Apesar da sisudez, Padre João fazia muito pela paróquia, tinha carinho pelas crianças, era sempre convidado para os eventos de família e tudo mais. Uma vez, e isso deve ter sido lá no início da década de 1940, foi chamado para jogar futebol com a homarada num domingo de manhã, depois da missa. Não era muito a dele, que até tentou se esquivar, mas a insistência foi grande, era semana de quermesse… Depois da celebração, acabou descendo a rua do povoado rumo ao campo.
Livrou-se da batina atrás dos pés de manga, e lhe arrumaram umas ceroulas frouxas, que ele amarrou com uma corda de bacalhau. Chuteira ninguém sabia o que era, nem eram necessárias para pés de solas tão grossas quanto casco de mula. Quando o juiz apitou o início do certame, Padre João estava escalado na linha de defesa. Evitou o quanto pôde qualquer contato com a bola ou com outro jogador, mas ali pelos 10 minutos não teve jeito. Messias, um sujeito preto como braúna e liso que nem muçum, recebeu a bola na direita e parou na frente do vigário. Gingou para um lado, gingou pro outro, passou as pernas finas em cima da bola e Padre João não teve dúvida: meteu-lhe o pé bem no meio, levantando tufos de grama, esterco de boi e o Messias, tudo junto. Só a bola sobrou intacta, paradinha no mesmo lugar. Os outros jogadores vieram socorrer o atacante, que se contorcia de dor esparramado no chão, e o Padre João, discretamente, deixou o campo.
Dizem que o Messias ficou sem trabalhar na roça por um mês. Ficou estalando fumo com as mulheres no terreiro até poder ficar em pé de novo. Bola, só voltou a jogar depois de um ano. O Padre João, que continuou querido na serra e teve vida longa na paróquia, não fez penitência nem nada, mas ateve-se às tarefas eclesiásticas a partir de então. É que, para seu temperamento, manter o espírito cristão dentro das quatro linhas era provação maior do que podia suportar.
