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‘Tomamos um tapa’

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Um dos mais renomados treinadores do futebol brasileiro esteve em Juiz de Fora no fim de julho. Paulo Autuori, 57 anos, fez a palestra de abertura do Simpósio Internacional de Futebol, iniciativa promovida pela Faculdade de Educação Física e Desportos (Faefid) da UFJF. Antes de retornar ao Rio de Janeiro, o treinador recebeu a reportagem da Tribuna para uma entrevista exclusiva que teve como tema principal exatamente o que se discute em cada roda de bar, conversa entre amigos boleiros e na fala do próprio palestrante um dia antes: a atual situação do futebol brasileiro.

Com o respaldo de quem é formado em educação física pela Universidade Castelo Branco e administração esportiva pela PUC do Rio de Janeiro, além de passagens pelos maiores clubes do Brasil como Botafogo, Flamengo, Cruzeiro, Internacional, Grêmio, Vasco e São Paulo, Autuori defende a criação de uma comissão de notáveis para pensar e nortear os rumos do futebol brasileiro nesses tempos de incertezas. Crítico com relação aos dirigentes e à atual estruturação do esporte no país, o técnico defende o envolvimento também das universidades na construção de um novo modelo de abordagem da modalidade mais popular do Brasil para que se deixe para trás o empirismo hoje massificado.

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Tribuna – Quão grave é a crise do futebol brasileiro?

Paulo Autuori – Esse alarde todo só está acontecendo por conta da Copa do Mundo. Mas as coisa já não vem bem há algum tempo. Não só dentro, mas fora de campo, principalmente. Você vê atrasos no pagamento de salários e direitos de imagem. Essa é a realidade atual. Na minha perspectiva, não existe futebol nem seleção forte sem clubes fortes. O momento é de se pensar seriamente nesses problemas todos.

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– Era preciso a Seleção Brasileira ser goleada, como foi para a Alemanha por 7 a 1, para abrirmos os olhos?

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– Isso acontece no Brasil não só no futebol. É cultural. Depois dos campeonatos de 1958, na Suécia, e 1962, no Chile, o Brasil foi muito mal em 1966, desclassificado na primeira fase. Foi a partir dali que começou-se a pensar mais seriamente o futebol. Com Zagallo, com Parreira, com Coutinho, com Chirol, com Camerino e, principalmente, com o professor Lamartine Pereira da Costa, uma sumidade. Isso tudo partiu da Escola da Educação Física do Exército. Começou a entrar a ciência especialmente com relação à preparação física.

– Há como se fazer uma transformação semelhante em nosso futebol agora?

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– Todos se recordam que o Mundial do México, em 1970, foi realizado em altitude. E o professor Lamartine fez um trabalho brilhante. Inclusive é doloroso para nós que estudamos o esporte perceber que ele não é citado como deveria sempre ser. Assim, houve essa mudança, e as equipes multidisciplinares começaram a trabalhar, com preparadores físicos, auxiliares técnicos, fisiologistas e preparadores de goleiros. Mudou-se o modo de trabalho. Acredito que devemos parar para refletir como se refletiu àquela altura. E quando vejo os portões das universidades se abrindo para discussões sobre o futebol, vejo esperança. Esse é o caminho para sair desse eu acho que e partir para métodos, sistemas de trabalho eficazes. Não há outra maneira de fazê-lo. Não estou falando somente da parte física. Na parte que pertence a nós treinadores também é necessário tratar o futebol de uma outra maneira, especialmente na formação de jogadores.

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– Você enxergou algo novo nessa Copa do Mundo ou foram apresentadas apenas variações de um jogo já jogado há anos?

– Acho difícil acontecerem coisas revolucionárias como foi a Holanda em 1974, por exemplo. Há variações de sistemas. Algumas equipes estão mais preparadas para, durante o jogo, variar. E nisso reside o maior segredo a meu ver. Aqui no Brasil se fala muito na exigência dessa variação. Mas como variar se a gente não treina?

– Não se treina por quê?

– Não há tempo para treinamento no Brasil. Não há uma pré-temporada que lhe permita criar trabalhos que deem sustentação a uma temporada inteira na qual você será exigido por conta dessa variação. Assim, você percebe que há uma oscilação muito grande. As equipes raramente conseguem manter o mesmo nível durante duas, três temporadas. O último a fazer isso foi o São Paulo com o tricampeonato, e o Cruzeiro do ano passado para cá.

– A mudança nos elencos durante uma temporada também influencia nessa oscilação de desempenho?

– É um complicador. Os clubes, endividados, vendem jogadores importantes, e o treinador tem que recomeçar do zero. Mas como fazer isso sem tempo para treinar? Entramos na ciranda de resultados. O técnicos ficam reféns dela. Se ganha, sinal de que as coisas estão sendo bem feitas, o que não é verdade, pois a vitória pode mascarar muita coisa. Se não ganha, acaba pagando o pato. É mais fácil mandar embora um treinador do que dez, 20 atletas. O contrário também é uma cultura equivocada de dirigentes e torcedores que acham que contratar cinco, seis, sete jogadores de uma vez como reforços é excelente. Não é. Isso significa que, mais uma vez, para encaixá-los no time, terá que começar tudo outra vez, novamente sem tempo para treinar. É um ciclo vicioso.

– Além do campo, o que a Copa nos mostrou e que pode ser aproveitado para que o futebol brasileiro evolua?

– A vinda de outras seleções e outros profissionais nos deu a noção exata de onde estamos no futebol. Tomamos um tapa. Não é possível o Brasil, que era considerado – muitos ainda consideram, e eu não compartilho dessa ideia – o país do futebol, perder assim. Porque futebol não é só o que é jogado dentro de campo. Em média de público, somos o 34º do mundo. Nas Américas, estamos atrás dos Estados Unidos, do México e da Argentina. Já deveríamos ter parado para pensar nisso. A quantidade de jogos vulgariza as partidas, a qualidade vai lá para baixo, gera afastamento do público e por aí vai.

– Por suas colocações, o futebol nacional precisa de uma ampla reformulação. Qual o caminho para que ela pelo menos se inicie?

– Enquanto nós não tivermos a noção e cobrarmos que a CBF pense o futebol amplamente, não só na Seleção Brasileira principal, mas na base também, fica muito difícil. Acho que deveríamos juntar um grupo de ex-praticantes preparados, com qualidade e bagagem intelectual para, juntos, pensarem no futebol. Seria o passo fundamental dessa transformação. Eles poderiam ajudar muito os dirigentes da CBF, se estes últimos tiverem humildade de escutar e reconhecer que o futebol não é propriedade deles e que eles não têm o conhecimento necessário para as mudanças que precisam ser feitas. Se isso não acontecer, acho que fica muito difícil sairmos dessa crise.

– O que você pensa do Bom Senso FC?

– Apoio completamente. E a classe diretiva arrogante do Brasil está tentando miná-lo porque não tem argumentos para sentar à mesa e discutir pontos chave. E não é só na responsabilidade fiscal não. A partir do momento que os clubes forem punidos com o rebaixamento se não cuidarem de sua saúde financeira, teremos pessoas que podem entrar no futebol com interesse de fazer algo melhor. Porque do jeito que é hoje, com clubes falidos nos quais há cinco candidatos a presidente, há algo errado.

– Como romper uma estrutura já viciada de agremiações, federações e confederações?

– Fica claro em como o presidente da CBF é eleito e isso se replica nas federações estaduais. Os clubes estão nas mãos das federações, dos empresários de atletas e da televisão. É quem socorre. Você vê que a Federação Carioca teve de emprestar dinheiro a Vasco e Botafogo para que eles pagassem uma de suas folhas atrasadas. Então, qual a autonomia desses clubes de ir contra uma decisão que a federação tome? O sistema não ajuda em nada. As pessoas não têm a humildade de reconhecer que é preciso tratar o futebol de uma outra maneira. Iniciativas como a da UFJF, de Viçosa e da Unicamp, por exemplo, de discutir o futebol no meio acadêmico, são vitais para que surjam soluções, não através do empirismo. Na década de 1970 os profissionais brasileiros foram vanguardistas e têm qualidade para serem novamente.

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