
Gilberto Nascimento e Jorge Emídio, com tudo em cima
Mesmo para os mais jovens, a maratona é um desafio e tanto. À óbvia dureza dos 42.195m do percurso, acrescentar o peso de mais de 60 anos de vida pode até parecer demais para qualquer um. Mas um grupo de juiz-foranos vem provando que a turma da terceira idade encara de frente a meta da maioria dos praticantes da corrida e faz bonito não só cruzando a linha de chegada, mas estabelecendo tempos de fazer inveja a muito garotão.
No ranking nacional da revista especializada em corrida "Contra Relógio", uma das mais respeitadas do Brasil, a categoria 60 a 64 anos foi dominada em 2012 por dois corredores de Juiz de Fora. O número 1 da faixa etária foi o local Gilberto Nascimento, 60 anos, com o tempo de 2h59min32s, registrado na Maratona de Santa Catarina, em Florianópolis, em setembro do último ano. Logo atrás vem Jorge Emídio de Oliveira, 62, que fez 3h02min50s na Maratona do Rio de Janeiro, em junho da temporada passada.
Quem consulta as estatísticas das maratonas percebe como são consideráveis os tempos desses jovens senhores de Juiz de Fora. Atualmente, o recorde mundial da distância é do queniano Patrick Makau, atleta profissional. Ele fechou em 2h03min38s a Maratona de Berlim, na Alemanha, em 2011, quando tinha 26 anos, ou seja, com menos da metade da idade dos amadores locais.
Surpresa
O líder do ranking da categoria 60-64 anos planejou a melhora do tempo. Mesmo assim não deixou de se surpreender ao conseguir baixar seu tempo, que já era, desde junho de 2012, o melhor do país para a faixa etária. "Estive na Maratona do Rio e completei a prova na casa de 3h02min. Tinha outros cinco corredores perto. Paulistas, gaúchos e o próprio Jorge Emídio estavam bem. Pensei ‘ainda há outras maratonas no ano, preciso melhorar se quiser continuar como primeiro’. Então, me preparei para dobrar essa barreira de 3 horas. Trabalhei em cima e, graças a Deus, deu certo. Foi como se fosse aquela cesta no último segundo. Quando me aproximei da chegada no sambódromo de Florianópolis, olhei no relógio e estava 2h59min, e pensei ‘tenho que chegar de qualquer jeito’, dei um pique final e consegui", lembra Nascimento.
Já Jorge Emídio conseguiu sua melhor marca logo na sua primeira experiência correndo a distância. "Não esperava fazer esse tempo. Fui me sentindo bem na corrida e conseguindo aumentar o ritmo até a chegada. Fiquei surpreso com o tempo, radiante, pois era a primeira maratona que participava."
Líder em dedicação
Ainda segundo a classificação da "Contra Relógio", que leva em consideração o resultado de atletas amadores nas oito maratonas mais importantes do país – Rio, São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Foz do Iguaçu, Recife e Adidas Pró-Rio -, outro corredor de Juiz de Fora, Antônio Carlos da Silva, o Seu Antônio Papeleiro, 62, se destacou. A 30ª colocação nacional com o tempo de 3h34min29s, registrado na Maratona de Curitiba, em 18 de novembro de 2012, já impressiona, mas a história de vida e como o juiz-forano lida com sua pesada rotina o tornam exemplo.
Da marca registrada na capital paranaense, o corredor que chega a percorrer 50km todos os dias pelas ruas de Juiz de Fora catando papel para reciclar se lembra de uma sensação. "Cheguei bem, inteiro na linha de chegada. Dava até para correr mais um pouco", acredita Seu Antônio, cujo trabalho diário é apenas uma parte do treino semanal. "Três vezes por semana, vou à BR-040 e volto ao Centro. Faço isso em cerca de 1h10min. São 13, 14km por aí. Depois começo o serviço", conta o atleta local que há 27 anos mantém a rotina de recolher papel para reciclagem como forma de complementar sua renda.
Início gradativo no esporte
Não foi a noite para o dia que esses atletas locais conseguiram desempenhos tão impressionantes mesmo na terceira idade. As histórias são diferentes, cada uma com sua peculiaridade, mas todos os três senhores corredores iniciaram a vida competitiva de forma gradativa. Nascimento conheceu a corrida de rua através de uma reunião de amigos. "Trabalhava no comércio, jogava futsal durante a semana e futebol aos sábados. Em 1979, um de nossos colegas, preparador físico da Polícia Militar, me chamou para disputar a Corrida da Fogueira. Acabei topando. Depois disso, entrei para uma equipe, competindo em provas locais e regionais. Em 1980, disputei a primeira Maratona do Rio de Janeiro e me encantei com a distância. Desde então corro maratonas, e vamos seguindo", conta Nascimento.
Um decisão de mudança radical em hábitos pouco saudáveis colocou Jorge Emídio na rotas das provas de rua locais e, no último ano, na busca por tempos nos temidos 42.195m. "As corridas entraram na minha vida depois que eu parei de beber e fumar, em 2006. Então, me engajei nas provas de rua. Primeiro, fiz corridas menores, aqui no Ranking de Juiz de Fora. Depois, cismei e fui fazer uma maratona, no ano passado, em Curitiba. Me senti bem e continuei até hoje a participar dessas provas frequentemente", explica.
Além da rotina de catador de papel, percorrendo grandes distâncias todos os dias e ainda suportando um peso muitas vezes maior que o seu próprio, uma situação inusitada levou Seu Antônio Papeleiro a descobrir o talento para as passadas. "Quando ainda trabalhava como zelador, além da rotina de catar papel para reciclagem, tinha que correr para não perder o ônibus. Essa situação me despertou para a prática do esporte. Vi que levava jeito e passei a fazer isso por minha conta. Passei a disputar provas do Ranking de Corridas de Rua em 2002, e em 2006 comecei nas maratonas", lembra.
Benefícios e riscos para corredores acima dos 60
Segundo o educador físico, mestre em treinamento desportivo e especialista em fisiologia do exercício Jeferson Vianna, a decisão dos juiz-foranos em primeiro disputar provas mais curtas á acertada e pode ser seguida por quem quiser começar a se preparar para uma maratona, mesmo que esteja além dos 60 anos. "Deve-se começar com distâncias menores para que haja uma perfeita adaptação do sistema cardiorrespiratório e neuromuscular. Um trabalho de reforço muscular deverá fazer parte da rotina de treino, isso em qualquer idade e principalmente para quem já passou dos 60. Nessa faixa etária, para poder chegar ao ponto de correr uma maratona, o indivíduo deverá estar percorrendo pelo menos 60 km por semana de treino. Além disso, dar atenção a alimentação, hidratação e descanso", aconselha.
Para Vianna, o estilo de vida é que vai determinar a dificuldade de cada pessoa em cumprir a distância da maratona, mesmo na terceira idade. Mas é preciso ter cuidado. "Quem quer correr uma maratona, já passou dos 60 anos e não quer colocar em risco sua saúde deve fazer exames preventivos com cardiologista e ortopedista; buscar orientação especializada para a montagem da planilha de treinamento; alimentar-se de forma saudável – dando prioridade aos carboidratos -; hidratar-se muito bem sempre; usar roupas adequadas para treinos e competições; ter cuidados especiais na escolha do tênis; e correr com controle de ritmo, de preferência com uso de um frequencímetro."
Os cuidados com a saúde continuam mesmo depois da linha de chegada. "Após a prova, é preciso alimentar-se adequadamente para melhor recuperação, além de muita hidratação e descanso. Pelo menos um vez na semana devemos descansar em absoluto, pois o corpo necessita recuperar-se dos esforços e prepará-lo para novos desafios. Não há limite para competir, desde que você esteja preparado. Não é a idade que coloca barreiras, é a nossa forma de viver", acredita o educador físico.
Faz bem, faz mal
Se levada com as precauções necessárias, a prática da maratona na terceira idade traz ganhos para qualquer pessoa. "Os benefícios do exercício regular em indivíduos acima dos 60 anos são muitos. Incluem melhora da saúde óssea, portanto, redução no risco de osteoporose; melhora da estabilidade postural, reduzindo assim o risco de quedas, lesões e fraturas associadas; e incremento da flexibilidade e amplitude de movimento. Algumas evidências sugerem que o envolvimento em exercícios regulares pode também fornecer muitos benefícios psicológicos relacionados à preservação da função cognitiva, alívio dos sintomas de depressão e comportamento, e uma melhora no conceito de controle pessoal e autoeficácia. Especificamente em provas de endurance, como a maratona, há uma manutenção e melhora de vários aspectos da função cardiovascular, aumento da capacidade de resistir à fadiga e melhora do condicionamento físico geral", aponta Vianna.
O descuido, no entanto, pode levar a problemas para os praticantes acima de 60 anos. "O risco está na falta de uma preparação anterior e na ausência de exames médicos regulares. Os indivíduos acima dos 60 anos que realizam atividades físicas com regularidade já há algum tempo, não estando acima do peso recomendado, não encontram muitas dificuldades de participar de maratonas. Devem é se preparar para uma ou duas por ano apenas, de preferência com um grande intervalo entre elas. O excesso ou a escassez de treinos é uma grande preocupação: para cada indivíduo existe um dosagem adequada de sessões de
treinamento", alerta o especialista.

