Nos idos dos anos 80 (mais precisamente em 1985), os músicos do Ultraje a Rigor davam seu recado: "Nós vamos invadir sua praia". Quase uma palavra de ordem, a frase era refrão e nome da música de trabalho e do disco de estreia da banda paulista. O hit que ganhou o país apresentava uma mineiridade ímpar: "daqui do morro dá pra ver tão legal, o que acontece aí no seu litoral." A verdade é que, seguindo os mandamentos do vocalista Roger Moreira ou não, 50 surfistas mineiros vão misturar sua laia, sair da tocaia e descer a serra para a disputa do V Campeonato Mineiro de Surfe, que será realizado no próximo sábado, no Rio de Janeiro.
Mas, espera aí, Campeonato Mineiro de Surfe? Pai da ideia, o empresário carioca Eduardo Duca, 40 anos, explica como nasceu a competição. "Há 13 anos vim morar em Belo Horizonte, onde fiquei por quatro anos antes de voltar para o Rio. Era um surfista profissional e me tornei um profissional do surfe, com negócios ligados ao esporte. Cheguei aqui e vi que tinha muita gente apaixonada pelo surfe. Assim, o torneio surgiu há dez anos e vem crescendo desde então."
Em 2011, pela primeira vez, Juiz de Fora estará representada na competição. Pelo menos dois free surfers locais vão entrar nessa onda, partindo do alto da cidade até a beira do cais. Carioca de coração juiz-forano, Ricardo Malhado (Fisioterapia Ricardo Malhado), 46, mora na cidade há 16 anos. O fisioterapeuta vai fincar a bandeira juiz-forana nas areias cariocas e busca mais do que um bom bronzeado em seu primeiro campeonato após 30 anos. "Já competi quando estava no colégio. Tinha 16 anos na época. Estou ansioso. Acho interessante poder participar de um campeonato depois de tanto tempo. Sei que minha época de ser profissional do surfe passou faz tempo. Mas será uma oportunidade de defender Juiz de fora, uma cidade que eu amo."
Outro que já mandou separar um lugar na areia e promete chacoalhar a aldeia carioca é o educador físico Ricardo Leite (Pulse Academia), 45. Para a disputa do torneio, ele vai levar para as praias cariocas a mesma bagagem de muitos mineiros. Como bom juiz-forano, o surfista iniciou sua experiência no esporte na Região dos Lagos, ainda na infância. "É tudo uma grande novidade. Estou cheio de expectativas. Conheci o surfe em Cabo Frio. Comecei com uns 10 anos, com uma prancha de isopor. Depois, meu irmão comprou uma prancha de fibra. Era uma luta para carregar, mas tudo valia a pena pelo esporte."
Uma década de praia
Mineiro da gema, o campeonato completa dez anos de praia nesta temporada. "Ainda é um torneio amador. Temos contatos com a Feserj (Federação de Surfe do Estado do Rio de Janeiro), buscando um maior reconhecimento. Muitos ainda levam na brincadeira quando se fala de um Campeonato Mineiro de Surfe. Mas é visível que o torneio está em clara evolução", garante Kaú Cavalcanti, que organiza o evento ao lado do irmão, Eduardo Duca.
Duca explica que a edição 2011 seguirá o formato móvel, comum nas principais competições do surfe em mares nacionais e internacionais. "Adotamos este modelo pela primeira vez. Três praias do Rio poderão ser utilizadas nas baterias: Macumba, Recreio e Barra. Vamos para o local que tiver as melhores ondas no dia do evento, para subir o nível de surfe da galera."
A primeira chamada está marcada para as 7h de sábado, na Praia da Macumba. No local, a organização irá definir em qual local estão as melhores ondas, e a primeira bateria terá início às 10h. "O campeonato é composto de várias baterias, cada uma com quatro surfistas. Os dois melhores avançam. Vai assim até que sejam definidos os quatro melhores do dia, que disputam o título", explica Duca.
A inédita participação de surfistas juiz-foranos é considerada por Kaú uma atração especial para a disputa deste ano. "Pela proximidade com o Rio, esse torneio sempre deveria ter contado com a moçada daqui. Temos atletas de todas as regiões do estado. Governado Valadares, Belo Horizonte, Sul de Minas, Zona da Mata. Essa participação é importante para criar um link maior entre o campeonato e os atletas da região."
Além da atração principal, a organização busca parceiros para a realização de eventos paralelos, como explica Kaú. "Já está confirmado um campeonato de altinha. Ou embaixadinha, como é conhecido por aqui. O torneio será organizado pelo filho do Adílio, ex-jogador do Flamengo. E é uma forma de interação entre a galera de Minas e o pessoal do Rio."
Coisa séria
Os irmãos admitem que são muitas as brincadeiras por conta da realização de um Campeonato Mineiro de Surfe. Porém, cortam a onda dos engraçadinhos e garantem que qualquer chacota não tem nenhum fundamento. "Há muitos anos, quando se falava em um brasileiro no circuito mundial, os gringos riam. É mais ou menos o que acontece com os mineiros. Não podemos podar um mineiro de ser um surfista de verdade. Quem faz isso não conhece a história do surfe ou está querendo botar para baixo uma galera que tem muita qualidade", defende Duca.
Kaú endossa as palavras do "brother" e afirma que a essência do esporte se faz presente durante a competição. "Você tem atletas de todos os calibres. Mas a onda é mesmo deslizar na onda, e todos fazem isso. Esse é o surfe. Essa é a onda." Brincadeiras à parte, os mineiros já estão de malas prontas. O recado está dado. Aloha, Rio de Janeiro. "Nós vamos invadir sua praia!"
