Na Zona Norte de Juiz de Fora, o Bairro Esplanada, com imóveis demolidos e outros em avaliação pela Defesa Civil após as chuvas de fevereiro, ergue-se, em grande parte, sobre uma pedreira. A maior parte da população da área tem como único ponto de acesso um escadão, com extensão de aproximadamente 200 metros.
É desse escadão que sai Nicolas Vieira dos Santos Nicolau, de 21 anos de idade. Ele conversa com a Tribuna no deque construído na viela “Lembranças Edivina”, nome escolhido pelos moradores em homenagem a uma residente local.
A escolha do ponto de encontro tem um porquê: dali, há uma vista privilegiada para o campo do Bairro Cerâmica, gramado conhecido por ele. Também conhece bem a rua, onde jogava desde criança, como é de costume em bairros onde a vida corre mais devagar. Devagar como parecem correr os que tentam alcançar o ponta.
Pela esquerda ou direita, tanto faz, garante ter a mesma facilidade. É destro, mas também usa muito a perna canhota. “Sou um atacante veloz, de muito drible, gosto do um contra um”, ele se define.
E quanto à qual fundamento acredita que se destaca, nada de falsa modéstia: “O drible. Na finalização também sou muito bom. E o passe. Acho que eu tenho um passe muito bom também, que consigo deixar os meus companheiros na cara do gol”. Completo, então? “Falta um pouquinho, a gente vai trabalhando nisso”, ambiciona.
Moral em meio a medalhões
Ganhou moral recentemente, após a Tribuna noticiar o título da Copa Regional pelo Chacarense, e convidar o treinador, Fernando Alvim, e o capitão, Jason, ex-Tupi, para uma entrevista. Eles não pouparam elogios. “Ele foi o melhor do torneio”, crava Fernando. “Todas as contratações para a gente foram importantes. Mas eu acho que o Nicolas e o Sonas (goleiro) foram as que mais agregaram para a gente no campeonato”, afirma Jason – que foi quem convidou Nicolas para o Chacarense, após ver o garoto ser campeão da Regional pelo Milan Monte Castelo, em 2025.
O treinador também destaca um jogo contra o NECC, na primeira fase, em que perdiam por um a zero até o intervalo: “Todo mundo tranquilo, e a gente virou para 3 a 2, num jogaço, uma partidaça do Nicolas, aquele jogo bem tenso, bem regional”.
No time, havia jogadores com carreiras profissionais de destaque, como Pablo (ex-Vasco, Cruzeiro e com passagem pelo futebol espanhol, atualmente treinador no Sport Club Juiz de Fora), Raphael Toledo (ex-Tupi), Luiz Fernando (ex-Bahia), e os irmãos Salino (Léo e Leandro, com passagens por Flamengo e futebol europeu, por exemplo).
Mesmo recebendo elogios dos comandantes do time, em meio a nomes como esses, aqui, Nicolas já começa a mostrar seu lado comedido fora de campo: “Ah, é muito gratificante. Mas eu sei também que não foi só eu e o Sonas que contribuíram muito. Porque a gente jogou muito em equipe. A equipe que foi campeã”.
A experiência também serviu para perceber o “pouquinho” que diz faltar para a completude enquanto jogador. “Poder jogar com caras desse nível é muito bom, poder desfrutar. Me ensinaram bastante também, posicionamento tático, acalmar mais com a bola, ter mais paciência, não acelerar tanto o jogo”.
Sem exaltação no êxito, sem pressão no erro
Na final da Copa Regional, fez a jogada que iniciou o gol de empate e depois causou a expulsão de um adversário. Ele descreve os destaques com a calmaria de quem relata um capítulo de novela do dia anterior. “Eu tiro dois, acelero, acelero, chuto, o goleiro espalma e o Gui faz o gol. Tem o lance do chapéu também, que eu dou o chapéu, o marcador vem, eu travo, minha perna bate nele e ele é expulso”.
O jogo que achou o mais difícil da competição? Aquela semifinal em que ele fez dois gols. “Jogos assim que são bons de jogar”. Também elege um desses como o mais bonito da carreira, até agora. Nesse, se permite dizer que foi um “golaço”, mas ainda sem firula: “A bola veio no alto e eu peguei de primeira. Foi lá na gaveta”.
Da mesma forma, também se diz inalterável dentro de campo. Na final, por exemplo, relata que não teve nem reação após as façanhas, “é muito rápido”. Só depois que para e assiste os vídeos, se permite sentir, ainda movido pela objetividade. “É a sensação do trabalho que você vem fazendo dando certo dentro de campo”.
Se, no êxito, apenas segue fazendo seu trabalho, também não se abala na falha. Nas duas primeiras rodadas, perdeu dois pênaltis. Sempre fica incomodado quando acontece, é claro, “mas perder pênalti também faz parte. Depois a gente vai e tenta se redimir, fazendo mais um gol”. Simples assim.
Mesmo com os erros, ele foi quem abriu as cobranças na disputa da semi e da final. “Não teve nenhuma pressão, não. Eu sabia que a nossa parte a gente já tinha feito dentro de campo”. Escolhe o lado de confiança, firme na esquerda, e “só desfruta”.
Da creche ao primeiro emprego
Nicolas começou a jogar futsal, com seis anos, no Sport Club Mariano Procópio, o Marianinho, clube que já foi vendido e demolido em janeiro de 2023. Ordens da “tia” da creche para os pais: “Eu jogava bola desde pequenininho, aí ela foi e falou com a minha mãe que eu tinha esse dom de jogar bola, e minha mãe me botou na escola”.
Também passou pelo Vasquinho. Aos 12, foi para o Tupi, onde ficou até os 15 e, depois, para o Uberabinha, jogando no campo do Cerâmica, aquele mesmo que se vê do deque. No ano passado, foi campeão do Módulo II do Campeonato Mineiro Sub-20 e artilheiro da competição pelo clube, com direito a gol na final.
No ano passado, também jogou pelo Bonfim, de São João del-Rei, por cerca de dois meses. O próximo passo é jogar pelo Itararé, no Campeonato Municipal de Ubá. Admite que sempre pensa em passos maiores, como jogar em um time profissional, como o seu Botafogo, que nunca deixa de acompanhar nos momentos de lazer, mas reconhece os proveitos da várzea.
Um deles é o de ajudar no sustento da família. Recebe toda semana e, em um mês bom, consegue uma renda maior do que o que é pago em muitos clubes profissionais de menor expressão. Desde 2024, quando ganhou seus primeiros R$ 100 jogando a Copa Prefeitura Bahamas, jogar bola é seu primeiro e único ofício.
Vivendo com os pais, valoriza que sempre o acompanharam, inclusive cobrando: “Eles falam pra eu ficar treinando. Às vezes, o atleta deixa isso de lado, só quer saber de jogar. Então eles puxam minha orelha pra eu focar no meu corpo”. Além de pilares, a família é também protagonista dos momentos de lazer, e a maior torcida para quem já jogou, segundo ele, “gigantesca”.

