O diretor do JF Vôlei, Maurício Bara, foi o convidado do Dá Jogo desta quarta-feira (15), programa de esportes transmitido no canal da Tribuna de Minas no YouTube. O dirigente desportivo fez um balanço da temporada 2025/26, em que a equipe terminou a Superliga com 21 derrotas e apenas três pontos somados, falou sobre a diminuição do público nos jogos realizados no Ginásio Municipal Jornalista Antônio Marcos e comentou sobre a situação financeira da agremiação.
Confira a entrevista!
Tribuna de Minas: Maurício, o que poderia ter sido feito de diferente durante a temporada?
Maurício Bara: Eu já vinha analisando isso durante a temporada, foi uma avaliação constante. Primeiro, não vamos esconder, foi ainda mais frustrante para nós internamente. Sabia que poderia acontecer isso? Eu acho que, analisando friamente, que a gente ia brigar ali mesmo, talvez brigasse um pouco mais, mas foi um pouco frustrante. Na reta final, mais de 60% dos sets nós perdemos por dois pontos, era sempre 25/23. O último jogo da Superliga, contra o Praia Clube, pra mim, foi o resumo da temporada. Tivemos um ótimo desempenho e perdemos com um triplo 25/23. Começando de trás pra frente, nos últimos quatro jogos a gente conseguiu fazer três bons jogos contra os quatro primeiros – perdemos por 3 sets a 2 para o Minas, perdemos por 3 sets a 1 para o Campinas, com esses times precisando ganhar, o que faz diferença. O Praia, por exemplo, eu brinquei com eles: ‘você podia ter ganho o jogo anterior, aí pouparam o Isac, pouparam o Franco, perderam pra Monte Carmelo, não ia perder com os dois jogando, e vieram aqui precisando do resultado’. Então é difícil, mas acho que existem três fatores, dois muito cruciais. Não tinha muita solução no mercado. Quando você entra no mercado, saindo da Superliga B e vai para a A, os times grandes e os médios já estão contratando todo mundo, já está todo mundo mais ou menos contratado. Manter a base principal, eu acho que tinha que ser feito, mas aí veio o primeiro problema. Eu acho que alguns jogadores, eu não vou dar nomes aqui, mas alguns jogadores que vieram pra dar o upgrade, e tinham qualidade técnica pra isso, não renderam, não deram essa qualidade. Isso foi um primeiro fator, foi muito claro isso, muito claro, e eu acho que isso afeta, porque são jogadores que a gente confiava de matarem os últimos pontos. Eu não vou nem entrar no fator financeiro. Foi baixo, mas não vou entrar nesse fator, porque a gente tinha muita saída não, então o primeiro fator é esse. O segundo fator é que a gente só tinha duas escolhas: ou mantinha a base, e eu acho que a maioria dos jogadores cumpriram o seu papel, é que não teve um suporte maior para dar tranquilidade a esses jogadores que tiveram que ir pro embate. São jogadores jovens que não estavam tão amadurecidos em relação à Superliga. Para a maioria foi a primeira experiência jogando em quadra e tiveram bons desempenhos no processo. O terceiro fator é que a gente não começou tão mal a competição. Perdemos por 3 sets 1 contra o Sada Cruzeiro fora e quase levamos o jogo pro tiebreak, ganhamos de Monte Carmelo aqui, beleza, segundo jogo, primeira vitória, adversário direto. E a gente foi para o jogo contra Goiás e o Wesleen se machuca na véspera. Era o nosso maior pontuador, o reserva imediato não tinha situação regularizada – que era o Rajé Alleyne, que depois, foi um grande jogador, talvez a nossa grande revelação na temporada – e aí a gente improvisou. No primeiro jogo o Fernando Pires foi lá, jogou bem como oposto, mas é um jogo. Só que tivemos que jogar mais jogos de maneira improvisada, e isso jogou a gente pro buraco, onde perdemos jogos contra as equipes diretas, o Joinville, São José, que pra mim foi o pior jogo nosso na temporada, foi horrível, não foi legal. São três fatores: maturidade geral, a questão dos jogadores que vieram pra fazer a diferença e não corresponderam, e terceiro essa questão do Wesleen com a não condição de jogo do Rajé. Então são três fatores aí que pesaram muito. A gente conseguiu recuperar o desempenho, mas não conseguiu recuperar o resultado. O resultado foi muito ruim, o desempenho nem tanto, o time jogou bem várias vezes. Por outro lado, a gente conseguiu terminar de maneira digna. O que a gente falava pros jogadores era que: já estávamos rebaixados, que eles deveriam jogar com amor à profissão. Não posso pedir amor à equipe, porque isso nem todo mundo tem, mas por respeito às pessoas que nos veem jogar, tanto que isso foi reconhecido. Nosso último jogo foi o quarto melhor público da Superliga. Não foi azar, não tem nada de azar, não tem lugar pra azar, tem lugar pra competência. A gente não conseguiu, agora não dava pra fazer muito diferente não.
Tribuna: Você acha que faltou um “pouco de liga” ao elenco para fazer com que os reforços chegassem ao desempenho esperado?
Maurício: Eu acho que é a mente do atleta. Eu conversava com eles e falava que eles tinham sido a última escolha. O nosso time, junto com o Monte Carmelo, teve mais ou menos a mesma montagem do elenco – mantiveram a mesma base, mas uma boa base, e três encaixes que foram muito bem. Eles terminaram em sétimo lugar. É um detalhe que pode mudar tudo. Eu não acho que foi entrosamento de grupo não, eu acho que é questão de entender ali o papel profissional de pensar: ‘eu estou aqui e vou dar o exemplo’. Vou para o topo da pirâmide. Campinas foi o nosso penúltimo jogo. Não importa onde o atleta está, ele tem que ter o mesmo comportamento, então a gente cruzou com os atletas de Campinas, e eles estavam se arrumando, enquanto que o Horácio Dileo estava no meio da quadra esperando junto com o auxiliar dele. Quem foi o único atleta a chegar no meio da quadra? Bruninho. Aí você começa a entender. O atleta deveria pensar: ‘se o Bruninho está lá, eu tenho que estar lá’. É muito a questão da doação. Onde eu estiver, qualquer que seja o trabalho da minha vida, eu tenho que me doar, porque aqui vai ser a minha salvação pra frente, e isso não aconteceu da maneira que a gente esperava. Tinha hora que no meio da competição, eu olhava pra quadra e o nosso time que estava jogando era o time da Superliga B, com o Gaspar. Depois, deu uma misturada, mas no final era o time da B.
Tribuna: Em algum momento houve uma avaliação de que seria necessária uma mudança no comando técnico?
Maurício: A avaliação é diária, e são algumas avaliações, a primeira é o trabalho. Eu estou lá acompanhando, o trabalho evoluiu, eles fizeram os jogadores evoluírem, alguns jogadores não estavam bem na competição e terminaram bem. A gente trabalhou muito no processo, nós fizemos trocas na comissão técnica. Por exemplo, chegou um analista de desempenho novo que nos ajudou demais, a gente tava com essa dificuldade e trocamos em janeiro. Em relação ao treinador, a primeira avaliação que eu faço, como eu fui treinador, é: ‘eu conseguiria fazer algo diferente?’. Nesse momento eu tive a avaliação que não, que se eu assumisse eu não conseguiria fazer algo que transformaria aquilo ali em vitórias. Quando você define para uma troca de comando, tem que ver como está o dia-a-dia. É lógico, quando você tem muita derrota, nenhum ambiente é bom, mas eu não enxergava isso a ponto de trocar. Outra coisa é o desempenho. Estava dentro do limite? Estava. Então não vi motivos para trocar. O André é muito tranquilo, a gente nunca chegou a conversar sobre isso no meio da temporada, mas eu não via, eu não via motivo para trocar.
Tribuna: No seu entendimento, então, houve um teto coletivo de rendimento?
Maurício: Bateu no teto natural em relação aos recursos que tinha ali. A gente chegou a pensar em algumas mudanças, mas não tivemos fôlego financeiro para fazer isso no meio da temporada. Também não tinha muita gente no mercado para isso, e aí seguimos tentando melhorar a cada dia. Eu acho que o time melhorou, numericamente melhorou, mas a distância disso para conseguir a vitória é um outro passo que nos custou, e foi frustrante por causa disso. Eles trabalharam muito, jogaram muito várias vezes, e a gente não fechava um set. No jogo contra o Minas fora de casa, a gente teve a bola para fazer 2 sets a 0, mas acabamos perdendo por 32/30, e o jogo terminou 3 sets a 2 para eles. Tivemos bons momentos, mas bom momento é ganhar também, ganhar é melhor que ter bom momento, então faz parte.
Tribuna: Por que há tanta dificuldade em conseguir patrocínios fortes em Juiz de Fora?
Maurício: Eu acho que é um pouco cultural e um pouco econômico também. Acho que as empresas também não estão muito habituadas à necessidade de um investimento como esse. A gente falava em pelo menos R$ 3 milhões ou R$ 4 milhões para jogar uma Superliga de maneira confortável. Nós jogamos com menos da metade disso, R$ 1,6 milhão, R$ 150 mil por mês. Quando eu falo isso para os outros times, eles não acreditam, e eu digo que é o que dá. Mas acho que é uma questão econômica também. Juiz de Fora é uma cidade que tem empresas, mas é uma cidade de serviços e universitária. Então, a gente não tem também esse universo que a gente acha que tem. Talvez um economista possa dizer isso melhor do que eu. Isso também é um limitador em relação à marca. Alguns patrocinadores, mesmo nesse momento, estão dizendo que foi ótimo, mesmo com resultado negativo, citando coisas positivas. E alguns dizendo que esperava mais de retorno da minha marca. Natural, a gente enxerga isso com naturalidade. Nós estamos buscando outras fontes que não seja o patrocínio tradicional. As leis de incentivo estão aí. A gente agora vai conseguir usufruir, não só para o time profissional, mas para a base também, da emenda parlamentar da Câmara Municipal, que foi significativa. A gente está buscando outros caminhos para dar sustentabilidade a todo esse projeto.
Tribuna: Maurício, você conseguiu identificar que pode ter impactado negativamente para que a presença de público fosse tão menor quanto na reta final da Superliga B?
Maurício: Eu vou um pouco mais atrás. No jogo contra o Minas, no Campeonato Mineiro, a gente vinha de resultados bons. Nós ganhamos de Araguari e perdemos por 3 sets a 2 para o Praia Clube, na viagem ao Triângulo Mineiro. Em função do final da Superliga B, se esperava um público bacana. Não teve. Depois era Monte Carmelo, aqui também. E nós não tivemos públicos bons já no Mineiro. Na Superliga, começando a Superliga, o segundo jogo contra Monte Carmelo, o público também não foi bom. Eu não consegui identificar se foi um pequeno aumento no preço. Esse último preço que a gente praticou de R$20 a inteira e R$ 10 a meia, a gente cobrava isso em 2012. Mas tudo bem, vamos dizer que um fator pode ter sido esse. Outro fator é o resultado, mas já no decorrer da competição, pelo menos nos primeiros jogos, a gente poderia ter um pouquinho melhor. Isso me deixa um pouco triste quando eu vejo reclamações de pagar R$ 20 ou R$ 30 em um jogo de vôlei, mas às vezes tem um show, como teve no dia seguinte ao nosso jogo, e eu vi que o ingresso era R$ 300 e estava lotado. Aí já é uma questão cultural. Eu ir ao jogo independentemente do resultado. Também tem a questão dos horários dos jogos, que foi um problema por causa da TV. Jogo domingo às 20h não dá. Não dá muito horário. No returno, tiveram dois jogos nossos que eu pude negar a TV e neguei e botamos para às 18h. O horário do jogo, o preço do ingresso, e esse engajamento do resultado, acho que são três fatores aí. O preço eu deixo ele de stand-by, estamos avaliando, fizemos esse teste no último jogo. Vamos tentar trazer o público de novo. Vamos tentar jogar o preço para baixo. Eu prefiro ter duas mil pessoas com preço baixo do que 500 com preço alto.
Tribuna: O quanto seria viável para o JF Vôlei retornar a Superliga A?
Maurício: Acho que foi bom ter jogado, para ter mostrado também para as pessoas que não lembram ou não acompanhavam que a gente sempre teve muita dificuldade. Temos que entender o seguinte: vamos jogar a Superliga B. Se a gente subir de novo, vamos com as nossas limitações, vamos jogar, vamos tentar achar uma química aí para poder jogar. Uma hora nós vamos romper isso, igual a gente rompeu quando chegamos aos playoffs. Então, vamos jogar, se tiver a chance de subir, não vou prometer nada aqui, porque eu não sei o que vai acontecer na Superliga B, mas se tiver a chance de subir, vamos subir, e se tiver a chance de jogar, vamos jogar. 2021 foi um caso à parte. Não tínhamos nada, não tinha dinheiro nem para comida, o patrocinador não passava nem perto, então como é que eu ia fazer? E esse ano, a gente teve uma condição um pouco melhor, a gente sobreviveu, ainda estamos pagando as coisas, mas sobrevivemos. Vamos tentar achar outros caminhos. Quem sabe daqui até lá a gente acha outros caminhos de ir.
Tribuna: Você falou da questão financeira. Houve uma gestão saudável?
Maurício: Foi mais saudável, o fluxo de caixa que não foi saudável. O fluxo foi um desafio bem grande, e a gente contava com um pouquinho mais de renda para sanear esse fluxo. A gente vai terminar de uma maneira relativamente saudável, talvez alguma outra ação aí, algum empréstimo pequeno no banco para poder zerar, e aí a gente começa com muita saúde. Não saúde de quantidade de dinheiro, mas saúde de saber um limite e não sair dele. Esse ano também foi feito assim, mas teve um desequilíbrio em alguns meses, que a gente esperava uma renda um pouquinho maior, mas não teve. Então vamos trabalhar nesse sentido aí e espero ter boas novidades. Estamos trabalhando para ter boas novidades para o torcedor do JF Vôlei, torcedor da cidade, nos próximos meses.
