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Os pés pelas mãos

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Malandragem e malandragem

1990. Turim, Itália. Oitavas de final da Copa do Mundo. Argentina x Brasil. Com um atleta hermano caído, o massagista Miguel Di Lorenzo entra em campo e distribuí água para os jogadores argentinos. Castigado pelo sol forte do verão europeu, o lateral-esquerdo da Seleção Brasileira, Branco, aproxima-se do adversário e pede uma garrafa. Água não se nega, portanto o pedido é prontamente atendido. Lorenzo pega um vasilhame diferente dos demais. Depois de ingerir o líquido, o brasileiro sente-se mal. A garrafinha continha uma substância sonífera. Anos depois, um debochado Maradona revela a malandragem portenha em um programa de televisão argentino. Basualdo confirma a história.

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2013. Belo horizonte, Brasil. Fase de classificação da Copa Libertadores. Atlético-MG x São Paulo. Com a bola parada, Ronaldinho corre até o goleiro adversário e ex-companheiro de Seleção, Rogério Ceni. Castigado pelo verão brasileiro, o meia do Galo pede uma garrafa ao adversário. Água não se nega, portanto o pedido é prontamente atendido. Depois de ingerir o líquido, aproveita a distração da defesa adversária, que, simplesmente, ignora a presença do craque e fica parada em uma linha burra. Literal e inacreditavelmente burra. Como em cobrança de lateral não há impedimento, o Gaúcho aproveita, movimenta-se para receber a bola e dá uma assistência perfeita para o gol do atacante Jô. Um sorridente Ronaldinho nega a intenção de ludibriar o arqueiro rival. Bernard confirma a história.

Dois casos distintos, que só podem ser apresentados em conjunto por conta da posição de destaque de infelizes coadjuvantes, as garrafinhas d’água. Situações que mostram que a malandragem, de diferentes tipos, faz parte e alimenta as polêmicas do futebol. Coisas que tornam o esporte algo tão apaixonante. Se a malandragem argentina merecia uma punição, por ter colocado a saúde de um adversário em risco, a brasileira merece ser reverenciada, por ter sido utilizada em prol do espetáculo.

Embora as equipe dos espertinhos tenham saído vitoriosas em ambos os casos, a dinâmica das duas partidas em questão revelam ainda que é preciso muito mais do que malandragem para ganhar um duelo de Copa do Mundo ou de Libertadores. É preciso ter talento, o que o debochado Maradona e o sedento Ronaldinho Gaúcho têm de sobra, para a alegria dos torcedores e dos caniggias e jôs da vida. Se o mundo é dos espertos, a bola sempre há de se render aos pés destes e outros camisas 10 de raro talento. Nós, mortais, também.

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