Marcelo Augusto Mathias da Silva não será apenas nome do zagueiro juiz-forano, orgulho da família, da cidade e do país. O defensor de 25 anos que morreu no dia 29 de novembro de 2016, no maior acidente aéreo envolvendo uma equipe esportiva do Brasil, será homenageado pelo pai, Paulo Manoel da Silva, através da criação de uma instituição social voltada ao trabalho esportivo e educacional para crianças carentes e de escolinhas de todo o município.
A criação do Instituto Marcelo Augusto Mathias da Silva foi antecipada por Paulo à Tribuna e confirmada em evento na noite de ontem, no Círculo Militar de Juiz de Fora, que agraciou profissionais que auxiliaram os familiares do beque ex-Bonsucesso, Tupi, Macaé, Volta Redonda, Flamengo e, por último, Chapecoense, após a queda do avião da LaMia perto de Medelín, na Colômbia.
Quase 50 dias após o acidente, o marceneiro, músico e vendedor Paulo, 58 anos, recebeu a reportagem em sua casa, no Bairro Jardim Natal, também para relembrar a curta, mas vitoriosa carreira do filho, e os momentos de tristeza vividos após a tragédia que vitimou 71 pessoas, entre atletas, membros da comissão técnica e direção da equipe catarinense, além de convidados. “Quando você está trabalhando, não vê o que está em volta. O ser humano é assim, sai pisando em todo mundo e não olha para os lados. E comecei a ver mais. Não sabia quantos amigos eu tinha. Em Chapecó, na terça para a quarta da semana do acidente, todos dormindo, sentados, e quando você vê bate aquele tédio, uma vontade de chorar. Olhei no relógio e era meia-noite. Saí andando na rua, como um sonâmbulo, sem rumo, e me perdi na cidade. Quando ‘acordei’, estava quase na estrada da saída de Chapecó. Aí voltei, procurei saber o caminho de volta e fui chegar em casa às 4h da madrugada. Mas graças a Deus tive força e pessoas que me ajudaram”, contou Paulo.
O marido de Margarida Mathias e pai de mais três filhas adiantou as atividades futuras relacionadas à instituição, sonho antigo do jogador. “Trabalho também nessa área, e o Marcelo e eu já iríamos montar um instituto. Terá o nome dele. A idéia é ter um espaço para tirar as crianças da rua e levá-las ao futebol. Do mirim ao juvenil. Queremos parceria com os responsáveis por escolinhas da cidade. E já conversei com um ex-preparador físico do Tupi, também com o profissional Alan Kardec, que ensinou muito o meu filho, um cara indiscutível. Mas quero treinamento de profissional para que o empresário venha e leve os jogadores para alguma equipe profissional. Faremos todo o acompanhamento dos jovens. Já tenho médico, psicólogo, nutricionista, assistente social, tudo para o aconselhamento” revelou. As crianças devem ser atendidas em Torreões, onde Paulo recebeu a doação de um campo utilizado anteriormente pelo time do bairro, atualmente inativo.
Marcelo, eterno ídolo
“Amigo é coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito. Dentro do coração”. Parte da Canção da América, de Milton Nascimento, foi estampada em camisa com foto de Marcelo, a pedido do pai, que já distribuiu cerca de 400 unidades para moradores do Bairro Jardim Natal e pessoas próximas, e ainda guarda mais 800 para dar prosseguimento a mais uma homenagem.
Além da família juiz-forana, Marcelo deixou mulher, Suellen Nery, e o filho, João Arthur, que acaba de completar um ano de vida. Durante a conversa que durou aproximadamente uma hora e meia, Paulo assegurou que vem obtendo assistência financeira, principalmente do seguro de vida contratado pela própria Chapecoense, e que as pessoas mais próximas do zagueiro seguem em choque. Confira abaixo o relato emocionado do pai do defensor e também um resumo da trajetória de Marcelo no futebol, que saiu do anonimato e quase desistiu da carreira para virar eterno ídolo nacional.
Começo
“O Marcelo tinha o dom. Na rua, queria jogar bola. Às vezes não deixavam, mas vi que tinha esse talento e o levei para uma escolinha no Monte Castelo. Ficou de 8 até 10 anos lá e o coloquei no Bonsucesso, no Bairro Industrial, onde jogou até os 15. De lá foi para o juvenil do Tupi, fez um ano de júnior e, após problemas com o treinador, acabou indo fazer um teste no Macaé em 2010 por conta de um cara que foi ver ele em uma final contra o Atlético. Eu nem sabia como chegar em Macaé, mas demos um jeito. Ficou de 26 a 30 de dezembro, passou no teste, fez um bom Torneio OPG (campeonato do interior carioca após o Estadual) e ficou lá por dois anos até uma bagunça que os amigos fizeram. Sempre foi tímido, medroso em lugares novos. Quebraram uma pedra de mármore, ele levantou pela manhã, encostou nela sem querer, que caiu. Um cara viu e achou que tivesse sido ele. Teve desconto nos R$ 400 que ganhava de ajuda de custo. Tive que vender até coisa na minha mercearia para matar a fome dele. De 2011 para 2012, fez um gol no Volta Redonda e ficaram interessados. Foi quando pediram para que fizesse uma avaliação.”
“Pensou em desistir”
“O Macaé não tinha ligado para a gente, e o Marcelo já estava trabalhando como vendedor com meu cunhado. Desanimou de futebol. Quando recebemos a proposta do Volta Redonda, discuti com ele porque queria que fosse, mas ele não. Levei ele forçado, não trouxe nem chuteira. Quando chegamos lá, foi incrível. O cara olhou ele de baixo para cima e elogiou. Disse que ganharia o que produzisse e ainda assim o Marcelo não tinha aceitado. Então chamei para conversar e disse que precisamos produzir para comer. Que se perdesse a oportunidade, era enxada. Ia fazer 18 anos e iria para o exército. Estava lutando por ele desde os 8 e não ia desistir agora. Aí ele veio chorando para mim e falou que tentaria mais uma vez.”
Profissionalização
“O Marcelo virou capitão do júnior do Volta Redonda e, no ano seguinte, foi profissionalizado. Começou como quinto zagueiro, mas os dois primeiros foram expulsos em um jogo, o terceiro machucou. Aí, contra o Fluminense, ele acabou tendo que jogar. Aí foi crescendo, disputou Copa do Brasil e no final do ano teve uma disputa entre Vasco, Flamengo, Botafogo, Bahia e Vitória. Foi comprado por empresários e iria para o Fluminense, mas estavam em crise com o patrocinador. Então, o Flamengo pegou emprestado no primeiro ano, também começou como quinto zagueiro e foi conquistando espaço. Contrataram ele um ano depois, foi comendo pelas beiradas, sempre com humildade. Quando chegou no fim de 2015, tivemos divergências financeiras com o clube e estudamos propostas da Chapecoense, Vasco, Botafogo, Bahia, Vitória, um clube português e outro italiano. Colocamos na balança e escolhemos a Chapecó porque seria onde ele teria oportunidade de jogar, salário em dia, ganhar bicho e ficaria em uma cidade tranquila. Foi campeão catarinense, virou titular, até ter duas lesões que tiraram ele de campo por três meses. Voltou no jogo do título do Palmeiras. Mesmo sem ritmo, marcou o Gabriel Jesus, que até pediu pro Marcelo pegar leve em seu último jogo (risos).”
Viagem e tragédia
“Depois do jogo com o Palmeiras, foi elogiado, e o técnico (Caio Júnior) resolveu relacionar ele para a final na Colômbia. Havíamos programado uma festa de fim de ano. Então ele me ligou e disse que teríamos que adiar porque estava relacionado. Falou que o técnico pediu desculpas por não conversar tanto com ele porque esteve lesionado desde que chegou, mas que queria usá-lo como titular em uma formação com três zagueiros, já que o Neto estava com dor na coluna e o jogo seria pegado. Estava muito satisfeito. Antes da viagem, mandou eu ficar com Deus e que tentaria, dependendo do sinal, falar comigo assim que chegasse. Quando foi de madrugada, o telefone tocou. Um rapaz daqui do bairro ligou e me pediu para ligar a televisão. Meu forte foi que já fui realista. Sentei e comecei a ouvir a reportagem. Quando deu 2h liguei para a minha sogra e contei. Às 9h é que resolvi ir para Chapecó. A cidade estava pior do que a televisão falou. Passei uma agonia de terça até sábado. Não sabia que horário vinha o corpo, e os familiares todos chorando… apenas mercado e farmácia funcionavam na cidade. Foi muito triste.”
Pós-acidente
“Esse período foi difícil. Senti muito porque éramos muito ligados a ele. Está uma lacuna danada. É o mesmo que enfiar uma mão no coração e arrancar da gente. A família está toda abalada. Minha esposa, por exemplo, desde o falecimento não vem para casa porque estava meio traumatizada. Como aqui fica vendo imagens, relembrando, deixei ela na minha sogra, onde tem mais gente. Temos três meninas, vão começar os estudos, trabalho, e ela vai acabar ficando sozinha. Está difícil.”
Suporte e seguro de vida
“Estão (responsáveis da Chapecoense) cumprindo tudo. Têm realizado amistosos, pagam o salário dele e o seguro. Tudo sendo honrado. Para nós não houve necessidade de acompanhamento psicológico, que também ofereceram. Estou na agitação o dia inteiro, não deixando cair a imagem dele com a criação do instituto. Me doaram um campo em Torreões. Então não venho tendo tempo. Ruim é quando chega a noite e tenho que colocar a cabeça no travesseiro. Vejo o que realizei no dia, mas tudo é a imagem dele.”
Amor incondicional
“Faço isso por ele (Marcelo). Sempre fui assim com meus filhos. Lutei pelo Marcelo, ele faleceu, mas deixou uma imagem boa e me deixou bem. Isso me alegra. Ele dizia que queria fazer as coisas por mim, pela mãe dele e para seu filho. Às vezes brigávamos, ficávamos um dia sem conversar, mas é normal. Ele me ligava e voltávamos a nos falar. Nossa relação era de pai e filho, amigos, companheiros. Dividíamos tudo.”
