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Felipe Roque relembra início em Juiz de Fora, Seleção Brasileira e projeta temporada na Coreia do Sul

dá jogo felipe roque

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Do Bom Pastor às convocações para a Seleção Brasileira, passando por títulos nacionais e duas temporadas no Japão. Em entrevista ao programa “Dá Jogo“, transmitido – na última semana – no YouTube da Tribuna de Minas, o jogador de vôlei Felipe Roque revisitou os principais momentos da carreira, falando também sobre a próxima temporada, quando defenderá o Daejeon Samsung Bluefangs, da Coreia do Sul. Confira a entrevista!

Felipe Roque foi ouro no Pan em 2023 (Foto: Arquivo pessoal)

Tribuna de Minas: Como foi seu primeiro contato com o esporte?
Felipe Roque: Na verdade, ninguém na minha família era ligado ao esporte. Meu pai chegou a treinar vale-tudo porque um amigo dele, que acabou se tornando profissional, o convidou. Então meu primeiro contato com o esporte foi justamente na luta. Toda a família treinava. Depois esse amigo foi para o Rio de Janeiro seguir a carreira, e a gente acabou parando. Em seguida, joguei um pouco de futebol no Tupynambás, quando nos mudamos para o Poço Rico, onde passei boa parte da infância. Como acontece com muitos brasileiros, sonhava em ser jogador, mas não deu muito certo. Comecei tentando jogar na linha e fui recuando até virar goleiro. Pelo menos desenvolvi certa agilidade com as mãos. Depois deixei o futebol. Como toda a minha família é muito alta, meu irmão mais velho recebeu um convite para conversar com o Maurício Barra, que treinava no Bom Pastor. A ideia era que ele começasse a jogar vôlei, mas já tinha 18 anos e iniciar do zero nessa idade era muito difícil. Curiosamente, no mesmo dia em que fomos ao Bom Pastor aconteceu uma peneira para atletas da minha geração. Eu tinha 14 ou 15 anos. Fui sem conhecer absolutamente nada de vôlei. Brinco que só me aceitaram porque perceberam que eu ainda ia crescer bastante. Foi ali que tudo começou. Passei a treinar, a acompanhar jogos na televisão e a me apaixonar pela modalidade.
Tribuna de Minas: Você era considerado um dos melhores da sua idade quando começou?
Felipe: Para ser sincero, eu era um dos piores da minha idade quando comecei. Não tinha qualquer contato com o vôlei. Não dominava manchete, toque, nem tinha noção de posicionamento em quadra. Acho que a grande virada veio por causa de um desafio do meu pai. Minha família sempre foi muito simples e todos trabalhavam desde cedo na oficina. Muitas vezes eu deixava de trabalhar para ir aos treinos. Um dia ele me perguntou: ‘Você vai estar lá só para ser mais um? Está deixando de trabalhar para nem jogar?’. Aquilo mexeu muito comigo. Percebi que precisava aproveitar a oportunidade que ele estava me dando. Passei a chegar mais cedo, sair mais tarde, treinar mais e focar no que precisava evoluir. Os resultados começaram a aparecer. A primeira competição em que realmente senti que estava dando certo foi a Copa Cidade Maravilhosa de 2014, no Rio de Janeiro, com o André Silva. Chegamos à final e consegui me destacar. Foi naquele momento que tive certeza de que era isso que queria para a minha vida.
Tribuna de Minas: Quem foram os treinadores mais marcantes na sua formação?
Felipe: Meu primeiro treinador foi o Rômulo. Depois trabalhei cerca de dois anos e meio com o Didi. Ele foi muito importante porque cobrava o básico com muita intensidade. Fazíamos muito treino de repetição, passando meia hora na parede, só de manchete e toque. Para quem está na base, isso faz toda a diferença. Mais tarde trabalhei com o André, e foi com ele que comecei a me destacar. Ele contribuiu muito para a minha leitura de jogo. Claro que esse crescimento foi resultado do trabalho de todos os treinadores que tive, mas foi com ele que dei os primeiros passos mais marcantes da minha carreira.
Tribuna de Minas: Como foi a transição da base para o profissional?
Felipe: Todos os passos foram no Bom Pastor. Em 2015, um oposto da equipe principal se lesionou e fui convidado para treinar com o adulto. Foi uma realização enorme. De repente, eu estava dividindo a quadra com jogadores experientes, em um ritmo completamente diferente. Treinei com eles no início daquele ano e, pouco tempo depois, entre abril e maio, me transferi para o Minas. No começo da base eu também joguei como levantador. Na categoria infantil era obrigatório jogar no sistema 4×2 com infiltração. Quando estava no fundo, infiltrava para levantar; quando estava na rede, atuava como oposto. Não era exatamente a função em que eu me sentia mais confortável, mas fazia parte da formação.
Tribuna de Minas: Conte um pouco sobre sua trajetória nos clubes.
Felipe: Em 2015 fui para o Minas Tênis Clube, onde fiz toda a transição da base para o adulto. Fiquei cinco anos lá. Depois fui para o Taubaté, que foi o período em que conquistei mais títulos no Brasil. Fomos campeões da Superliga, da Supercopa e do Super 8. Na sequência, a equipe se transferiu para Natal. Acabei sofrendo uma lesão no joelho e praticamente não joguei. Depois passei pelo Vôlei Renata, de Campinas, e pelo Farma Conde São José. Em São José conquistamos o primeiro título nacional da história do clube, vencendo a Supercopa contra o Sada Cruzeiro. Em seguida fui para o Hiroshima Thunders, no Japão, onde permaneci por duas temporadas. Agora estou iniciando um novo desafio na Coreia do Sul.

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Felipe Roque acumulou títulos no Taubaté (Foto: Arquivo pessoal)

Tribuna de Minas: Como foram as convocações para a Seleção Brasileira?
Felipe: As primeiras convocações começaram na Seleção Mineira, para o Campeonato Brasileiro de Seleções. Naquela época, só vestir a camisa de Minas já parecia algo enorme para mim. Em 2015 veio a convocação para a Seleção Brasileira Sub-19, meu primeiro contato com Saquarema e toda aquela estrutura fantástica. Depois fui passando pelas categorias Sub-21 e Sub-23. Em 2018 comecei a participar da Seleção principal, inicialmente na equipe B. Já em 2019 disputei o Sul-Americano, os Jogos Pan-Americanos e a Copa do Mundo, justamente no Japão. Foi uma realização muito grande. Poucos anos antes eu era boleiro nos jogos da seleção, ajudando a pegar bola e pedindo fotos para aqueles jogadores. Quatro anos depois estava dividindo a quadra com eles em uma Copa do Mundo. Procurei aproveitar cada momento e aprender o máximo possível, dentro e fora da quadra.
Tribuna de Minas: Quem foram suas maiores inspirações dentro do voleibol?
Felipe: Quem mais me marcou foi o Bruninho. A gente vê o jogador em quadra, mas nos bastidores ele impressiona ainda mais. Era sempre o primeiro a chegar e o último a sair. Fazia trabalho extra, cuidava da alimentação, do descanso e estava sempre buscando evoluir. Mais do que o atleta, me inspirei na pessoa. Aprendi muito observando como ele se comportava nas viagens, nos treinamentos e na rotina diária. Quanto ao Bernardinho, eu já admirava o trabalho dele antes mesmo de conviver na seleção. Estar em Saquarema sob o comando dele foi muito especial. Ele sempre me orientava a acelerar mais o jogo e variar os golpes. Infelizmente não cheguei a jogar com ele em competições, mas absorvi tudo o que pude durante os treinamentos. É um profissional que admiro muito.
Tribuna de Minas: Como foi a experiência de jogar no Japão?
Felipe: O Japão vem mostrando nos últimos anos a força do seu voleibol. Os jogadores talvez não sejam os mais altos nem os mais fortes, mas atuam como uma equipe extremamente organizada.
Lá o fundamento técnico é muito valorizado. Todos dominam muito bem a bola e praticamente não desperdiçam jogadas. Eles têm uma cultura de defender, levantar e reconstruir o ponto o tempo todo, enquanto no Brasil normalmente buscamos definir logo a jogada. A principal diferença que senti foi a capacidade de adaptação durante a partida. No primeiro set eu conseguia pontuar com facilidade, mas, a partir do segundo, eles já tinham ajustado bloqueio e defesa. Eu precisava encontrar novas soluções o tempo todo. Além disso, a liga cresceu muito com a chegada de grandes nomes internacionais. Isso elevou bastante o nível da competição.
Tribuna de Minas: Quais foram os principais desafios de atuar no voleibol japonês?
Felipe: Outro desafio era o formato da competição. Jogávamos sempre sábado e domingo contra o mesmo adversário. Muitas vezes fazíamos uma partida de cinco sets e, menos de 24 horas depois, enfrentávamos a mesma equipe novamente. Fisicamente já era desgastante, mas o maior desafio era mental. O adversário já conhecia suas características e você precisava encontrar novas maneiras de pontuar.

Oposto vai para a Coreia do Sul em busca de retornar à seleção (Foto: Arquivo pessoal)

Tribuna de Minas: O que te motivou a aceitar o desafio na Coreia do Sul?
Felipe: Vejo a ida para a Coreia como mais um passo importante. A seleção sempre é consequência do que você faz pelos clubes. A liga coreana está passando por um processo parecido com o que aconteceu no Japão e tende a crescer ainda mais. Queria justamente esse tipo de desafio. Pelo regulamento, o estrangeiro costuma ser muito exigido durante os jogos, e isso me obriga a manter um nível alto o tempo inteiro. Desta vez vou para um lugar onde não conheço ninguém. No Japão eu já tinha profissionais brasileiros e pessoas conhecidas. Agora será um ambiente completamente novo, e era exatamente esse desafio que eu procurava.
Tribuna de Minas: Como sua família lida com as mudanças de país?
Felipe: Sempre fiz questão de ter minha família comigo. Minha esposa, meu filho e agora minha filha me acompanham. Passamos por momentos difíceis durante uma temporada, e ter esse apoio faz toda a diferença. Em relação à alimentação, é uma adaptação. No Japão, até o arroz é diferente. Mas a gente já foi preparado para isso. Levamos cerca de 15 quilos de feijão porque não conseguimos abrir mão. Agora, para a Coreia, será parecido. Vamos levar o que for possível, mas sabemos que também precisaremos nos adaptar à cultura local.
Tribuna de Minas: O que você achou da campanha do JF Vôlei?
Felipe: Consegui acompanhar a campanha do JF Vôlei do Japão. Alguns jogos foram transmitidos, e mesmo com o fuso horário fazíamos questão de assistir. Foi muito legal ver o ginásio lotado e a torcida apoiando a equipe. Acho que o principal mérito do JF Vôlei é dar um passo de cada vez. O clube monta equipes dentro da realidade financeira e não faz promessas que não pode cumprir. Infelizmente, no voleibol brasileiro ainda vemos muitos problemas por causa disso. Ao mesmo tempo, para competir em alto nível, investimento faz diferença. Quanto maior a capacidade de investimento, melhores são as contratações e maiores as possibilidades de crescimento. A estrutura existe. O ginásio lota, a torcida apoia e os jogadores entregam muito em quadra. Mas chega um momento em que é preciso contar com patrocinadores para dar o próximo passo. Isso vale tanto para o masculino quanto para o projeto feminino, que está começando e tem muito potencial.
Tribuna de Minas: Qual a importância de ter uma equipe competitiva na cidade?
Felipe: Ter uma equipe competitiva na cidade influencia diretamente quem está começando. Quando um menino ou uma menina assiste aos jogos da Superliga e vê que existe um time na própria cidade, passa a pensar: “Quero treinar para chegar lá um dia”. Os atletas acabam se tornando referências e inspiração para quem está na base. Além disso, uma equipe forte atrai patrocinadores e empresas interessadas em associar suas marcas ao projeto. Esse investimento acaba chegando também às categorias de base, fortalecendo toda a estrutura.
No fim, todos ganham. Os atletas têm mais oportunidades, a cidade ganha visibilidade nacional, as crianças passam a ter exemplos próximos para seguir e o voleibol como um todo se desenvolve.
Tribuna de Minas: O que você achou da criação da equipe feminina do JF Vôlei?
Felipe: Fiquei muito feliz com a criação da equipe feminina. Assim como os meninos precisam de referências, muitas meninas também sonham em jogar voleibol. Até então, Juiz de Fora não tinha um projeto feminino consolidado. Acho que esse é um passo muito importante para a cidade. Vai incentivar novas atletas, fortalecer a modalidade e permitir que mais meninas tenham a oportunidade de iniciar uma carreira no esporte. A Superliga Feminina sempre teve um grande apelo no Brasil, muitas vezes até maior do que a masculina. Independentemente de ser menino ou menina, todos precisam ter a oportunidade de praticar o esporte e tentar chegar o mais longe possível.
Tribuna de Minas: Como você vê o cenário do voleibol mineiro?
Felipe: Minas Gerais sempre foi um dos grandes polos do voleibol brasileiro. O Minas Tênis Clube revelou inúmeros atletas e construiu uma história enorme na formação de jogadores. Já o Sada Cruzeiro, mesmo sendo um projeto mais recente, tornou-se uma potência. Muito disso passa pelo investimento e pela paixão do Vittorio Medioli pelo voleibol. O clube mantém equipes extremamente competitivas e disputa títulos nacionais e internacionais todos os anos. Hoje também temos o Praia Clube muito forte, tanto no masculino quanto no feminino. O masculino vem crescendo rapidamente e o feminino já é uma referência. A rivalidade entre Minas e Praia é uma das maiores do voleibol brasileiro. Tudo isso mostra a importância de uma rede sólida de patrocinadores e empresas que acreditam no esporte. Com investimento, é possível montar equipes fortes e manter projetos competitivos por muitos anos.
Tribuna de Minas: Como é sua rotina de treinos?
Felipe: Na Coreia ainda não conheço exatamente a rotina, mas o padrão costuma ser parecido com o de outros clubes de alto nível. Pela manhã normalmente fazemos a parte física, academia e treino técnico. À tarde o foco costuma ser o treinamento tático, com situações de jogo e trabalho coletivo. É uma rotina bastante desgastante, mas necessária para desenvolver todos os aspectos do voleibol.
Tribuna de Minas: Como foi seu período de preparação para a temporada na Coreia?
Felipe: Quando terminei a temporada, tirei cerca de dez a quinze dias para descansar completamente. O corpo precisa desse período depois de tantos meses de competição. Depois disso, voltei gradualmente aos treinos. Conversei com o André e comecei fazendo trabalhos na areia e exercícios técnicos para retomar o contato com a bola e voltar a saltar aos poucos. Já conheço meu corpo. Se fico muito tempo sem saltar, preciso praticamente recomeçar do zero. Perco velocidade e reflexo rapidamente. Por isso preferi voltar logo aos treinamentos. Depois fiz a transição para a quadra e passei a treinar com o Sub-19 do JF Vôlei. Meu objetivo é chegar à Coreia o mais preparado possível para iniciar a pré-temporada em boas condições físicas.
Tribuna de Minas: Qual a importância da base para o desenvolvimento do voleibol em Juiz de Fora?
Felipe: Juiz de Fora sempre revelou grandes jogadores. Se o JF Vôlei continuar se consolidando, a transição da base para o profissional ficará muito mais natural. Existe uma diferença enorme entre jogar categorias de base e atuar como profissional. A cobrança é muito maior, tanto por desempenho quanto por resultados. Quando o atleta consegue fazer toda essa caminhada no mesmo clube e na própria cidade, ganha mais tranquilidade. Já conhece o ambiente, as pessoas e a forma de trabalho. Quando precisa sair da base diretamente para outro clube, em outra cidade, além da pressão do voleibol profissional ainda enfrenta a adaptação à nova rotina. Por isso acredito que um projeto forte em Juiz de Fora beneficia tanto o masculino quanto o feminino e facilita muito essa passagem da base para o adulto.
Tribuna de Minas: Que conselho você deixa para quem está começando no vôlei?
Felipe: Independentemente de a pessoa seguir carreira profissional ou não, o esporte só traz benefícios. Ele ensina a trabalhar em equipe, cria responsabilidade, disciplina, comprometimento e ajuda na formação como ser humano. Para quem sonha em viver do voleibol, meu conselho é aproveitar cada momento da base. Treinar com dedicação, dar o máximo em cada atividade, mas sem deixar de aproveitar essa fase, que é muito especial. Procurem absorver tudo o que puderem com treinadores, companheiros e competições. Essas experiências vão fazer diferença tanto na carreira esportiva quanto na vida.
Tribuna de Minas: Para encerrar, que mensagem gostaria de deixar?
Felipe: Quero agradecer pelo convite e pela oportunidade de conversar com vocês. Espero que minha história possa inspirar, de alguma forma, quem está começando no voleibol. Também agradeço pelo carinho e pelo acompanhamento de tantos anos. Minha mãe guarda todas as matérias publicadas sobre mim. É muito especial poder olhar para trás e lembrar de cada etapa da caminhada.

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