O que é mais desafiador para um cronista esportivo do que a folha em branco?
Comentar a final da Copa da França em 1998 pela Rádio Universitária, com a derrota definida já no intervalo pelo que víamos acontecer em campo e ainda assim manter aquele pique da linguagem radiofônica foi desafiador.
Dirigir com o carro cheio de gente e guitarras e pedais pelos arredores de Volta Redonda, vindo de São Paulo, o sol rachando, torcendo para a estática dar tréguas no rádio enquanto ouvíamos o GP do Brasil de 2008, quando Timo Glock, a duas voltas do final, foi superado por Sebastian Vettel e Lewis Hamilton, tirando de Felipe Massa o primeiro título brasileiro desde Ayrton Senna. Isso foi bem desafiador.
Escolher fotos de juiz-foranos chorando no Parque Halfeld após o vexame da brincalhona e convulsionada Seleção Brasileira para a França de Zidane e Henry na Copa de 2006 foi um desafio. Menor que aquele de 1998, mas mesmo assim um desafio.
E ter novamente de separar fotos de juiz-foranos desolados após a derrota do Brasil para a Holanda na Copa do Mundo de 2010. Tudo bem, já havia calos criados lá em 2006. Um desafio ainda menor.
Não se deixar levar pela emoção à meia-noite de uma quarta-feira quando seu time do coração perde uma final de Copa do Brasil para o Santo André diante de 70 mil torcedores do Maracanã. Ah, aquilo sim, aquilo foi um senhor desafio.
Mas nada mais deliciosamente desafiador que a tal da folha em branco.
