Francisco, aquele argentino
Parecia jogo de Copa do Mundo. Não jogo eliminatório, mas um joguinho de primeira fase, porque não era feriado nem nada. Eu ziguezagueava pelas calçadas do Centro, a correria e o calor sacana lembrando meus tempos de office-boy na caliente Cidade Carinho, numa dessas quartas-feiras ordinárias que você tira para resolver pendengas civis de toda ordem. Foi lá na parte baixa-baixa da Marechal que vi um cidadão meter o pescoço pra fora da loja e perguntar pro vizinho:
– Tem internet aí? Saiu o novo Papa. Só que ainda não falaram quem é.
Na minha pressa de cobrador de armazém de madeira correndo fábricas de fundo de quintal, não consegui pegar o resto da conversa – ajuda o fato de eu estar meio surdo de um dos ouvidos. Segui caminho a passos largos, com aquela destreza que só os afobados que adotaram Juiz de Fora desenvolvem, desviando de aposentados, bancas de óculos de R$ 5, bocas-abertas variados e outros corredores experientes.
Com o suor descendo da calva e represando nas sobrancelhas, alcancei a Batista e daí comecei a ver os montinhos de gente nas portas das lojas de eletrodomésticos. Em vez de um México x Itália, as TVs anunciadas em até 24 parcelas mostravam a imagem de uma fumacinha branca subindo de uma chaminé sem graça. Mas àquela altura ninguém sabia de onde vinha o homem. Acho que pude ouvir uns três ou quatro Será que é o brasileiro? até chegar ao Granbery, mas, como disse, não dá pra confiar na minha audição.
Só quando cheguei ao São Mateus, antes do dilúvio, cruzei um amigo que me disse: Viu lá que o Papa é argentino?. Juro por Deus que não tenho nada contra argentinos, nunca fui a Buenos Aires e os poucos hermanos que conheci jamais me destrataram, mas pulou da minha boca: Pô, mas logo argentino?. O tsunami de piadinhas que se seguiu ao anúncio oficial do Papa Francisco só fez confirmar essa rivalidade já inata, porém saudável, entre nós e eles.
De volta ao Granbery, enquanto eu saltava sem sucesso a enxurrada caudalosa na porta do colégio, rodeado de crianças em seus uniformes azuis e amarelos respingados do toró, encontrei o reconfortante pensamento de que essa implicância recíproca e fanfarrona só é possível porque surgiu no campo de jogo, não no campo de batalha. No fim das contas, ainda bem que tudo redunda em futebol por estas bandas do vasto Novo Mundo.
