“Os PCDs largaram na frente e depois vieram os outros corredores. Algumas pessoas passavam empurrando, outras cuidavam da gente. Durante a corrida inteira o público dava apoio com palavras de motivação, e uma moça até molhava os corredores com uma mangueira de água para aliviar o calor. Depois de vários quilômetros de linha reta e uma subida no final, consegui cruzar a linha de chegada correndo, sem parar em momento algum, como era meu objetivo. Mesmo que eu participasse novamente, não seria como a primeira vez. Foi incrível, tenho vontade de participar de novo”, descreve André Santiago, paratleta de 30 anos, que vivenciou pela primeira vez a experiência de correr os 18km da Volta Internacional da Pampulha, em Belo Horizonte, no último domingo (8). O corredor foi acompanhado pelo guia Gedair Reis, completando o trajeto em 1h42min43s.
Nascido em Três Rios (RJ) e “juiz-forano” há 21 anos, André perdeu totalmente a visão em 2007. Alimentando a paixão pelo esporte desde jovem, ele chegou a jogar futebol e participar de campeonatos como a Copa Prefeitura Bahamas, além de praticar luta de vale-tudo e ciclismo. Após a deficiência visual, ele tentou se adaptar ao futebol de cinco sem sucesso e, depois de muita resistência, conheceu o atletismo. Curiosamente, o atleta, que nunca havia assistido uma corrida quando ainda enxergava, nem mesmo na televisão, hoje planeja passar do hobby às pistas de competição.
Enquanto atletas magros de estatura baixa podem ter bom desenvolvimento em corridas de longa distância, a musculatura de André o permite fazer trajetos curtos em explosão. Conforme ele, essa vantagem foi observada pela treinadora Célia Cleveland, do JF Paralímpico/ACJF. “Pratico esporte hoje como um hobby, pela qualidade de vida e outros benefícios, e agora vamos traçando algumas metas, à medida que vamos gostando, avançando e tendo possibilidades”, conta André que, depois de cerca de três anos no atletismo, pensa em aprender a nadar para futuramente praticar triatlo.
Mas até chegar ao momento em que se encontra hoje, não foi fácil. “O esporte veio muito depois que eu já estava no processo de reabilitação. Depois que já estava andando nas ruas, já sabia o braille e a informática que eu fui me abrir para o esporte. Tentei futebol de cinco e não me adaptei, conheci o golbol, mas também não foi um esporte que me agradou. Depois de bastante tempo, de tanto ficar recusando os convites, aceitei participar de um treino de atletismo. Desde então peguei gosto pelo esporte e tenho essa aceitação da minha parte”, relata. Além de completar a corrida na Pampulha, André já foi campeão mineiro de duatlo paralímpico em 2017, após 6km de corrida e 18km de bike, em Juiz de Fora. Também conquistou um pódio em Mercês (MG), na 9ª Corrida Rústica Saúde e Vida Sem Drogas, em julho deste ano. O atleta percorreu 10km em 48min5s, e ficou em terceiro lugar, na categoria PCDs. Dentre todos os desafios já disputados, um dos mais gratificante foi a Corrida da Fogueira deste ano, completada em 34min7s, que rendeu ao paratleta o 7º lugar entre 33 participantes da categoria.
“Correndo, nós somos um só”
André se lembra até hoje daquele que considera seu primeiro treino de atletismo, nas imediações do Sport Club, ao lado do guia Gedair Reis. “Nesse dia eu senti o vento batendo no meu rosto e nos meus olhos. A partir desse momento eu falei ‘é isso’ e me apaixonei pelo atletismo”, descreve. Para ele, que vive atualmente uma experiência diferente de observação de mundo, ver pelos olhos de outra pessoa se tornou algo interessante, que permite abrir novos horizontes. “Hoje eu consigo aceitar isso de uma maneira positiva, porque antigamente eu não gostava nem de perguntar muitas coisas para as pessoas, já tinha o meu modo de ver. Só que com o tempo percebi que as coisas estavam mudando. Então quando eles falam em detalhes, é muito bacana porque, diferente de outros deficientes visuais que nunca enxergaram, eu consigo formar uma imagem para mim, e isso é muito bom.”
Durante as corridas, receber algumas informações é sempre mais importante do que outras, mas o conjunto de detalhes que o guia pode passar é o que torna as experiências singulares. Alguns comandos, como alerta sobre obstáculos, já são automáticos para os guias, mas seu trabalho ao atender um deficiente visual pode ir muito mais além. “A atenção deles é toda voltada para o meu cuidado, para não pisar em um buraco ou tropeçar, isso é o mais importante para mim. Mas é claro que, quando passamos por algum local, tem algo que chama atenção, que seja muito bonito ou muito feio. Acho que tudo na corrida faz parte e é bacana de ser relatado”, comenta André.
Relembrando do desafio do último fim de semana, André não deixa de elogiar e agradecer o desempenho de seu guia. “A aproximação do guia comigo foi algo muito importante durante a prova. Tem uma frase dele que diz: ‘correndo, nós somos um só’. Eu respeito o Gedair cada vez mais e o admiro muito por sua capacidade de me conduzir e não permitir que eu me lesione ou até caia”, relatou, agradecendo ainda a colaboração da treinadora Célia Cleveland.
Disposto a ser um exemplo a outros PCDs, atualmente André, pai de uma filha de seis anos, concilia a vida familiar e os treinos com seu trabalho como psicólogo, além da pós-graduação. “Alguns deficientes visuais acham que não dá para fazer mais de uma atividade ao mesmo tempo. O esporte é um prazer, mas o trabalho também”, observa.
