
Partida do 27º ano de disputa será o desempate de títulos entre Casados e SolteirosFERNANDO PRIAMO
Tudo pronto para o grande clássico. Hoje, às 10h, o campo da Sede Campestre do Sesc receberá duas animadas torcidas que defenderão no grito mais um capítulo de 27 anos de disputa. São 13 títulos para cada lado, e 2015 determinará uma nova hegemonia para uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro: casados contra solteiros, uma rixa fundamentada na amizade.
Em Juiz de Fora o epicentro da rivalidade está no Bairro Eldorado. Há 27 anos, um grupo de amigos promoveu a primeira edição da disputa que segue firme até hoje. O bar Vaca Atolada é a sede das duas equipes, exibindo em cada espaço de suas paredes os feitos e conquistas das duas equipes. Flávio Talma, organizador do duelo e treinador do Casados, está envolvido com o jogo anual de confraternização desde o início. Não só ele, mas também seis de seus nove irmãos, além dos laços de amizade que construiu ao longo do tempo. Famílias de sangue unidas à famílias de afinidade.
“A gente conta muito com a amizade”, afirma Flávio. Sobre o processo de garimpo de novos talentos, o organizador do duelo aponta os critérios para passar na “peneira”. “Temos o bar como nosso ponto de encontro. Vamos batendo um papo com as pessoas que frequentam mais, e aí surgem os jogadores para o solteiro. Aí vem outro amigo, sobrinho. Eles começam a frequentar, tomar um guaraná, e começam a conviver com a gente. Gostamos disso. Claro que tem que saber jogar bola, mas a gente nem olha tanto por ser melhor ou pior. O importante é estar enturmado.”
Um exemplo de “como se enturmar” é Demétrio Oliveira. Aos 37 anos, o defensor está no duelo desde 1998. Começou no time dos solteiros. “Até gol de título já fiz”, se vangloria. Com o tempo, passou para o time dos casados após oficializar sua transferência e, de quebra, ainda entrar para a família Talma. “Comecei no solteiro. Na época era novo e consegui ajudar bastante a equipe. Deram sorte, casei com a Flaviana, que é sobrinha do Flávio. Passei para o Casados também para dar umas vitórias para eles, né? (risos)”, provoca Demétrio, que aponta a dificuldade de trazer reforços para sua atual equipe. “A meninada não está mais querendo casar.”
Mas o mercado da bola não é desafiador para a equipe que encontrou a tampa da panela só pela pouca iniciativa para novos casamentos. Os efeitos do matrimonio também trazem dificuldades, segundo Flávio Talma. “O Casados já tem muitos barrigudos, que estão na hora de parar, mas que não querem dar a vaga para os meninos novos. Tem que girar como algo natural da vida. Mas tem uns que não querem e insistem. O jeito é colocar esses para jogar menos e, devagarzinho, eles mesmos vão desanimando (risos).”
Táticas de guerrilha para ‘contratar’
Se as estratégias do lado dos casados são as mais diversas para conquistar um reforço de peso, os solteiros também adotam táticas de guerrilha para repatriar destaques. Rogério Talma, irmão de Flávio e treinador do Solteiros, arrancou gargalhadas dos colegas ao ensinar uma maneira de aliciar talentos, ou pelo menos desestabilizar o ambiente do adversário. “A gente pergunta ‘vem cá, você não briga com a sua mulher não?”
Na leveza da integração entre futebol e amizade, o que não falta é companheirismo. Não por acaso, todos os anos são marcados por homenagens. Cada troféu ganha nome, sendo uma forma de homenagear um integrante das equipes ou seus familiares. “São 30 jogadores, mas a festa tem 120 pessoas que convivem com a gente. Qualquer pessoa desse grupo, querida no bairro, a gente pede autorização aos familiares para homenagear”, diz Flávio Talma.
Em 2015, a lembrança será de Wagner Gamonal. Falecido no último mês de maio, era irmão de José Gamonal, atacante que participou de todas as 26 edições até agora, e que terá a oportunidade de fazer uma homenagem especial ao irmão. “Ele (Wagner) participava das festas. Não jogava, mas era torcedor. Ficava na beirada do campo assistindo a gente. Será muito bom. Se fizer um gol vai ter homenagem. Vai ser para o meu irmão”, diz José, que tem passagens pelas duas equipes, mas que agora defende o Casados.
Os últimos três anos vieram para acirrar a rivalidade. Entre 2012 e 2014, o Casados conseguiu o tricampeonato e tirou a vantagem que o adversário construiu em número de títulos. Com isso, a taça de 2015 tem ainda mais valor. Confiantes no potencial de seus elencos, os treinadores não escondem as estratégias para a batalha.
Com média de idade mais alta, os casados vão lutar contra o peso dos anos acumulados, mas terão a experiência a favor. “É ter paciência, jogar fechadinho”, afirma o técnico Flávio Talma. “O Solteiros é de meninos novos, que entram no início dos jogos com muito apetite. Querem partir para dentro achando que vão resolver o jogo em 15 minutos. É ter inteligência para segurar no início do jogo, ter paciência para jogar no contra-ataque e esperar eles fraquejarem as pernas. Aí vamos aproveitar mais no segundo tempo e partir para dentro deles e conseguir a vitória.”
Por outro lado, Rogério Talma, treinador do Solteiros, acredita que o caminho para a vitória é caprichar na marcação. “Vou botar os jovens para correr e marcar direitinho. No ano passado, deixaram muita brecha para eles (Casados), que aproveitaram e levaram para os pênaltis. Mas esse ano quero ganhar no jogo, no tempo normal. Conto com meus jogadores. Ano passado não foram tão bem, mas esse ano, pelo que estou vendo, vai ser bem melhor.”
Independente de quem ficará com a taça, o resultado é o mesmo de todos os anos: alegria, amizade ainda mais forte, e a garantia de que vão planejar muitos outros anos de confraternização. De preferência, na “sede social” Vaca Atolada.

