A convocação de Pedro Morisco e Otávio para a Seleção Brasileira também representa uma conquista para os profissionais que participaram da formação dos dois goleiros. Antes de chegarem ao futebol profissional e ganharem espaço em Coritiba e Cruzeiro, respectivamente, os atletas passaram por diferentes etapas de desenvolvimento e foram acompanhados de perto por treinadores de goleiros que ajudaram a construir os caminhos percorridos até o reconhecimento nacional.
Entre esses profissionais estão dois nomes ligados à Zona da Mata mineira. Fernando Corrêa, de Rio Pomba, trabalhou com Pedro Morisco durante sua formação no Coritiba. Já Luiz Carlos Laudiosa, de Juiz de Fora, acompanhou Otávio em sua trajetória nas categorias de base do Cruzeiro.
Fernando e Pedro Morisco no Coritiba
Fernando Corrêa, natural de Rio Pomba e formado em Educação Física na UFJF, tem 37 anos e atua como treinador de goleiros há mais de 15. Nesse tempo, acumulou passagens por Tupi – onde trabalhou com o histórico Walker Campos -, e categorias de base de Grêmio Novorizontino e Coritiba, clube o qual trabalhou por nove anos e chegou ao profissional. Ele também já foi convocado para a Seleção Brasileira sub-15 e sub-17. Ainda trabalhou no Louletano, de Portugal, e na preparação de goleiros da Seleção Boliviana, participando das Eliminatórias da Copa do Mundo e da Copa América de 2024. De volta ao Brasil, integrou o projeto de SAF do XV de Piracicaba, conquistando a Copa Paulista de 2025. Atualmente, está em sua segunda temporada à frente da preparação de goleiros do time Sub-21 do Al-Nassr, equipe onde joga Cristiano Ronaldo, além do arqueiro brasileiro Bento.
Foi durante sua passagem pelo Coritiba que Fernando acompanhou de perto o desenvolvimento de Pedro Morisco. O goleiro chegou ao clube ainda aos 9 anos e passou pelas categorias de formação até se aproximar do elenco profissional.
Fernando participou de momentos importantes do processo, inclusive quando Pedro recebeu uma sondagem para deixar o Coxa e se transferir para o São Paulo. Na avaliação do preparador, o goleiro tinha potencial para alcançar a equipe principal e deveria permanecer no clube paranaense.
A aproximação com o profissional ocorreu de forma gradual. Pedro começou a participar de treinamentos com o elenco principal ainda no sub-17, passou pelo sub-20 e, em 2023, foi integrado definitivamente ao grupo adulto. Ao fim daquela temporada, fez sua estreia pela equipe principal.
“Foi um processo longo, construído por vários profissionais e, principalmente, pelo próprio Pedro, que sempre respondeu muito bem às exigências de cada etapa”, considera Fernando.
Técnica, posicionamento e paciência
Durante a formação, Fernando identificou em Pedro Morisco características que ajudaram a projetá-lo para o alto nível. O goleiro se destacava pela execução dos fundamentos e pela capacidade de interpretar o jogo antes que as jogadas se desenvolvessem.
“As duas características que mais me chamavam a atenção no Pedro eram o refinamento técnico nos fundamentos da posição e o seu posicionamento”, ressalta.
Para o preparador, a leitura antecipada permite que o goleiro esteja preparado antes mesmo da finalização, reduzindo a necessidade de intervenções espetaculares em determinados lances.
“Quando você observa o Pedro, percebe que, para fazer um gol nele, muitas vezes é necessário que a finalização seja muito bem executada. Isso é resultado de uma combinação entre qualidade técnica, posicionamento, leitura de jogo e, claro, muito trabalho ao longo dos anos”, explica.
A principal preocupação durante a formação não estava necessariamente relacionada a uma deficiência técnica, mas ao desejo natural de um atleta jovem de chegar rapidamente ao futebol profissional. O trabalho, nesse caso, foi mostrá-lo que cada etapa tinha uma função específica.
“Uma das minhas principais contribuições foi ajudá-lo a entender esse processo e a esperar o momento certo, sem deixar de estar preparado para quando a oportunidade aparecesse”, relata.
A personalidade também foi percebida desde cedo. Mesmo aos 17 anos, quando passou a conviver com jogadores experientes no ambiente profissional, Pedro não demonstrava intimidação. “Não tinha medo de errar, não se intimidava e conseguia competir de igual para igual no ambiente de treinamento”, observa Fernando.
A convocação de Pedro
A presença de Pedro entre os convocados para a Seleção Brasileira ocorre depois de uma trajetória de crescimento no Coritiba. O goleiro teve papel importante na campanha que levou o clube de volta à Série A e, mesmo após enfrentar uma lesão e perder partidas no início da temporada, voltou a demonstrar o nível de atuação que o colocou em evidência.
Fernando avalia que a convocação representa o reconhecimento de uma evolução construída ao longo de anos. “Conhecendo o Pedro e sabendo o quanto ele se motiva diante de novos desafios, acredito que ele vai se adaptar muito bem ao ambiente da Seleção”, projeta.
O preparador também acredita que Pedro pode disputar espaço no ciclo até a Copa do Mundo de 2030. “Ele tem qualidade, personalidade e margem para continuar evoluindo. Se mantiver essa trajetória, acredito que pode, sim, estar entre os goleiros que vão disputar uma vaga no Mundial”, afirma.
Luiz Carlos Laudiosa e Otávio no Cruzeiro
Luiz Carlos Laudiosa, juiz-forano e formando na UFJF, trabalhou no Sport Club, Seleção Feminina do Haiti, Pérolas Negras, Tupynambás e nas categorias de base do Cruzeiro. Desde 2022, está em Juiz de Fora e é coordenador de projetos esportivos do Parque Municipal e professor de futebol e futsal no Colégio dos Jesuítas.
Otávio já havia passado pelo Cruzeiro aos 10 anos, mas treinava na sede campestre. Como morava em Perdigão, no Centro-Oeste de Minas, a distância dificultava a permanência em Belo Horizonte. A situação mudou quando o clube decidiu formar a categoria Sub-13 na Toca da Raposa I, conta Luiz Carlos, que acompanhou toda a trajetória do goleiro.
Naquele momento, 11 goleiros foram reunidos para um período de avaliação. Apenas quatro permaneceriam. Otávio era um dos atletas mais baixos e não se destacava imediatamente pela execução dos fundamentos. Ainda assim, apresentava características que chamavam a atenção dos profissionais responsáveis pela análise. “Tinha tranquilidade, concentração e inteligência para tomar decisões. Mesmo não se destacando fisicamente, mostrava esse diferencial”, lembra Luiz Carlos.
O goleiro permaneceu no clube e voltou a trabalhar com Luiz Carlos em diferentes etapas das categorias de base. Em 2021, já participava de treinamentos próximos ao elenco profissional e começava a conviver com frequência com os jogadores da equipe principal.
“Foi uma felicidade muito grande ter feito parte da formação dele e vê-lo treinando no profissional juntamente com o Fábio, goleiro histórico do Cruzeiro”, recorda.
A altura foi uma questão recorrente durante a formação de Otávio. No sub-13, ele chegou ao Cruzeiro com 1,63 metro, enquanto outro goleiro da mesma categoria tinha 1,83 metro. A diferença alimentou dúvidas sobre o futuro do jogador dentro do clube.
O caso voltou a ser discutido no sub-17, quando houve a possibilidade de o clube buscar outros goleiros. A insistência dos profissionais da posição foi importante para que Otávio continuasse no processo de formação.
“Ele não era alto e nem muito forte, por isso passou por momentos em que havia pessoas no clube que achavam que era preciso captar outros goleiros. Porém, eu e outros treinadores de goleiros brigávamos para mantê-lo”, relata Luiz Carlos. O argumento era baseado em características menos mensuráveis, mas decisivas para um goleiro: concentração, serenidade, leitura das jogadas e capacidade de tomar boas decisões sob pressão.
“Do pescoço para baixo tem muito jogador, mas do pescoço para cima são os diferenciados. E esses não são fáceis de encontrar”, resume o preparador.
Inteligência para decidir sob pressão
Entre as características mais marcantes de Otávio está a forma como reage aos confrontos individuais. “Ele consegue manter a calma mesmo quando está em uma situação de um contra um. Fica de olhos abertos até o último momento para tomar a melhor decisão, enquanto a maioria dos goleiros já decide o que vai fazer antes de analisar o jogador e a situação”, detalha Luiz Carlos.
Essa capacidade ganhou ainda mais relevância quando Otávio precisou assumir responsabilidades no time principal. Aos 20 anos, o goleiro passou a atuar em partidas de grande peso e contra adversários de alta exigência. “Se não fosse a personalidade e a competência dele, juntamente com todo o apoio familiar, a base de treinamentos e o trabalho dos profissionais do clube, uma simples falha poderia ter comprometido a carreira toda”, acrescenta.
Fora do campo, Otávio é descrito como um atleta tranquilo e reservado por Luiz Carlos, que mantem contato por mensagens. Mesmo diante da exposição alcançada após a sequência de boas atuações, mantém hábitos próximos aos de antes da ascensão no futebol profissional. Nas folgas, costuma retornar à cidade onde nasceu para estar com familiares e amigos. O vínculo com as origens é apontado como um dos elementos que ajudam a explicar a postura humilde do goleiro. “Ele é uma pessoa muito acessível e reconhece e valoriza todos que passaram pela trajetória dele”, completa o juiz-forano.
Dois caminhos, o mesmo reconhecimento
Embora Pedro Morisco e Otávio tenham percorrido caminhos diferentes, as histórias dos dois apresentam pontos em comum. Ambos precisaram construir espaço dentro de clubes tradicionais, responder a expectativas elevadas e mostrar que a formação de um goleiro exige tempo.
Pedro teve a trajetória marcada pela necessidade de respeitar etapas e controlar a ansiedade para chegar ao profissional no momento adequado. Otávio precisou superar dúvidas relacionadas à altura e ao porte físico, mantendo-se no clube graças à confiança depositada em sua inteligência e personalidade.
Para Fernando, Pedro encontrará na Seleção um ambiente de novos aprendizados e desafios. “Espero que ele consiga deixar uma excelente impressão no Ancelotti, no Taffarel e em toda a comissão técnica. Mais do que isso, espero que aproveite a experiência, porque estar nesse ambiente já é uma etapa muito importante da carreira”, afirma.
Luiz Carlos também vê a convocação de Otávio como o início de uma nova fase. “Acredito que será um momento mágico para ele, de muito aprendizado e de fazer a comissão conhecer de perto todo esse potencial. É uma oportunidade que ele vai segurar muito bem e que pode iniciar o caminho dele para a próxima Copa do Mundo”, projeta.
