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Juízes no banco dos réus

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Ano após ano, a atuação da arbitragem no futebol tem sido tema de discussões com intensidade cada vez maior. Enquanto os erros de árbitros e assistentes sempre fizeram parte da história do futebol, a intolerância em relação às falhas cresce proporcionalmente ao aparato tecnológico usados para flagrar os menores detalhes possíveis. Cenário de cobrança intensa que muitas vezes coloca os juízes no papel de réus, e jogadores/infratores como acusadores.

Com um dos currículos mais respeitados na arbitragem brasileira atualmente, Marcelo Van Gasse esteve na Copa do Mundo de 2014, chegando ao ponto mais alto da carreira de assistente. Com quase 20 anos de atuação, a exposição da função ainda surpreende o profissional, que cobra mais responsabilidade de atletas e treinadores. “O árbitro é um ser humano e tem que tomar 200 decisões no campo de jogo em frações de segundo. O jogo poderia ser mais limpo. No caso do Wallace (zagueiro do Flamengo), por que ele não falou na hora que tinha tocado a bola com o braço (no clássico com o Fluminense)? Todos querem se dar bem e esquecem que o negócio futebol depende de todos. A malandragem é legal quando você é beneficiado, mas quando tem problema, quer chacoalhar o árbitro.”

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Para os profissionais da arbitragem, não resta dúvida que, se comparada a realidade atual com a do passado, os erros não aumentaram em quantidade, mas a exposição dada pelos veículos de imprensa tem sido capaz de revelar detalhes que o olho humano não é capaz de flagrar. “O principal desafio é com a televisão. O jogo está muito mais veloz. Tentamos nos equilibrar nessa situação. O árbitro tem sempre que acertar, não tem opção. Vivemos de cada partida, e o acerto é a garantia do próximo jogo. O meio do futebol precisa entender que erros acontecem. Essa aceitação seria muito importante. Dependendo da repercussão, pode acabar com a carreira. Um talento pode se perder por um erro”, alerta Marcelo Van Gasse.

Não bastassem a exposição extrema e a “malandragem” dos atletas, os árbitros ainda sofrem com o “fogo amigo”. Segundo o ex-árbitro e comentarista da Rádio CBN Juiz de Fora, Álvaro Quelhas, quem deveria dar segurança no dia a dia contribui para o crescimento do clima de instabilidade. “A cobrança e a exposição aumentaram muito. Os árbitros estão mais inseguros. Isso vem da própria comissão de arbitragem. Criaram um clima de insegurança que é desvantajoso para o árbitro. O futebol brasileiro alimenta essa instabilidade. Se você não apitar bem, vai para a geladeira.”

Sequestro da interpretação

Os avanços tecnológicos trouxeram benefícios para o futebol, do torcedor ao jogador. Já a arbitragem, que poderia ser auxiliada por novas ferramentas de verificação dos lances, ainda não conta com uma solução no horizonte. “A tecnologia para a arbitragem seria primordial. Trabalhei na última Copa do Mundo e vivenciei isso”, conta Van Gasse. “No jogo França x Honduras, eu não daria um gol da França, e a tecnologia conseguiu flagrar esse gol. Mas eles (International Board) não querem a tecnologia pelo fato de o futebol existir em todo o mundo e precisar ser igual. Não pode ter um jogo com 40 câmeras e outro com oito, usando imagens para tirar uma conclusão. Eles alegam que tem de ser igual para todo mundo ou ficar como está.”

Enquanto a modernidade não chega – esta semana a CBF pediu à Fifa para usar câmeras no Brasileirão de 2016 -, as técnicas de arbitragem sofrem reformulações. Árbitros passaram a ser tão exigidos na preparação física quanto atletas. “A qualidade dos árbitros não é ruim. Estão mais bem preparados que antes, com mais instrução, cursos de formação. O problema é a forma como a arbitragem está sendo dirigida”, critica Álvaro Quelhas. “As instruções estão sendo dadas de uma forma equivocada, fazendo os árbitros cometerem equívocos, inclusive por excesso. Estão tendo uma postura autoritária, arrogante. Parece que nossos árbitros carregam o mundo nas costas, por tanta pressão que sofrem.”

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Quelhas considera especialmente nociva a interferência na liberdade de interpretação. “A comissão de arbitragem tem exagerado na questão da instrução aos árbitros. Ela tem sequestrado a interpretação. A regra prevê os casos em que se deve marcar falta, advertir com cartões. Só que a comissão de arbitragem está pressionando tanto os árbitros que eles estão perdendo o poder de interpretar. Há um excesso de interferência.”

Sem medo da pressão

Apesar de acompanharem as intensas cobranças recebidas pelos grupos de arbitragem, muitos jovens buscam formação na área. Paulo César Zanovelli é um deles. Aos 25 anos, ele faz parte do quadro de árbitros da Federação Mineira de Futebol, na categoria bronze, que lhe credencia a apitar jogos dos Campeonatos Mineiros da Segunda Divisão e de base. Mesmo com a possibilidade de enfrentar turbulências pelo caminho, o jovem não se intimida.

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“Arbitragem é como uma empresa, são selecionadas pessoas que suportam tudo isso. Não me assusta, mas essa pressão que envolve os árbitros pode tirar muito o brilho do trabalho. O cara não pode só gostar, tem que ter o dom. Podemos perder um grande árbitro por conta dessa pressão para não errar”, afirma Zanovelli, que, mesmo com pouco tempo de atividade, já teve de conviver com pressões exageradas.

“Já aconteceu de pessoas quererem entrar no vestiário para dizer quem teria de ganhar o jogo. Nunca ofereceram dinheiro. Esse tipo de coisa acontece mais nos campeonatos amadores”, diz Zanovelli, que também atua como estagiário na equipe de vôlei da UFJF, conciliando com os períodos finais que cursa na Faculdade de Educação Física da UFJF.

Profissionalização

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Para que jovens árbitros como Paulo César tenham tranquilidade em relação ao futuro e possam se dedicar exclusivamente à função, uma antiga reivindicação da categoria tem sido amplamente discutida: a profissionalização das funções de arbitragem esportiva. “O árbitro é o único não profissional nessa história toda. No meio do futebol, que gera milhões, ficamos como amadores tendo de decidir várias situações e sendo cobrados por isso. A profissionalização está perto de acontecer aqui no Brasil e vai melhorar muito a nossa vida”, torce Marcelo Van Gasse, que se considera profissional mesmo assim. “Cuido da minha carreira e faço por onde. Cheguei a um nível que me dá essa condição, mas não são todos que conseguem.”

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