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‘Não há pensamento coletivo’

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René Simões é um homem do futebol. Formado em educação física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), já foi técnico em diversos clubes, como Fluminense e Coritiba, e possui vasto currículo fora do Brasil. Classificou pela primeira vez a Jamaica para uma Copa do Mundo, em 1998. Também trabalhou no futebol feminino, e foi vice-campeão com a Seleção Brasileira nas Olimpíadas de 2004.

Atualmente, é diretor executivo do Vasco da Gama e tem o desafio de reestruturar o clube cruz-maltino, dentro e fora de campo. Em Juiz de Fora junto com a delegação vascaína, ele bateu um papo com a Tribuna sobre a estrutura esportiva da cidade e a possibilidade de ser uma base camp (base de campo) de uma seleção na Copa do Mundo. Ele também contou algumas de suas experiências e aprendizados no trabalho com as mulheres em Atenas e apresentou alguns desafios da reestruturação do Vasco.

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Tribuna – Como foi o processo para a escolha de Juiz de Fora como destino para a intertemporada do Vasco?

Renê Simões – O Secretário de Esporte e Lazer, Francisco Canalli, ligou para nós dizendo que tinha interesse em receber o Vasco. Enviei meu assistente para Juiz de Fora para analisar as condições. Os jogadores estavam precisando desse momento de reaproximação com o torcedor. Precisavam de carinho, daquela união entre torcida e jogadores acima de qualquer coisa. As condições do estádio também são boas, mas ainda precisa de algumas melhoras. Tenho certeza que vai melhorar. Se fosse há dez anos, estaria perfeito, mas, para o nível de exigência da Copa, todos os gramados estão fora do padrão Fifa. Não é só aqui, todos estão fora. Com a proximidade da Copa, o nível de exigência é outro.

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– A cidade vive a possibilidade de ser uma base de campo da Copa do Mundo. Quando você foi treinador da Jamaica, o que você buscou na sua base camp na França e o que falta para Juiz de Fora alcançar este patamar?

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– O primeiro ponto na busca de um treinador para uma base de treinos é um campo de treinamento de ótima qualidade. Ele não pode correr risco de não treinar se chover ou qualquer outra coisa. O campo tem que ser muito bom. Depois, o foco vai para a acomodação. Hotéis de qualidade, área de lazer para os atletas. Na França, por exemplo, nós ficamos em um castelo. Em seguida, o foco é a questão da alimentação. Normalmente, as delegações levam ingredientes típicos de cada país. No caso do Brasil, o feijão preto. E por último, a segurança, até porque ela é feita pela Fifa, juntamente com o comitê local. É impressionante o trabalho. Eles têm tudo fotografado, filmado. O comitê organizador é muito cuidadoso com a segurança. Acredito que, pela estrutura, Juiz de Fora tem condições de ser uma base camp, mas ainda será necessária uma evolução, principalmente no gramado. Ao nível do Brasil está bom, mas para o padrão internacional tem que melhorar.

– Você foi vice-campeão olímpico em 2004 com a Seleção feminina. O que falta para que o futebol feminino faça sucesso no Brasil?

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– O primeiro erro é associar ao futebol masculino. São duas coisas distintas, com públicos diferentes. O pensamento que Vasco, Flamengo, Cruzeiro têm que fazer equipes femininas, nesse momento, não é correto. O processo tem que ser semelhante ao do futebol masculino no Japão. Não tem que ser associado aos clubes, mas sim a universidades, empresas, prefeituras. Parecido com o que gerou o boom do vôlei e basquete no Brasil. A hora em que as pessoas se conscientizarem disso, sem dúvidas, haverá evolução. Quem vai ver o jogo de futebol feminino são as famílias. No masculino, é o torcedor que vai ver seu time jogar. É uma concepção diferente. Mas mesmo assim, ele vem progredindo. O número de times e praticantes vem aumentando significativamente. Talento não falta.

– Qual é a diferença no treinamento para homens e mulheres?

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– O que você quer é o mesmo: uma equipe disciplinada taticamente, trabalhando bem. O que difere é a forma de apresentar isso. O homem é mais simplista. Fim de treino, banho e tchau. A mulher precisa de muito mais detalhes. Ela quer dizer que errou, que poderia fazer melhor. Ela precisa verbalizar. Às vezes, nem quer ouvir o que você tem a dizer, só necessita de colocar para fora o seu problema. Aprendi a ser muito mais detalhista. Para elas, não basta dizer que vai atacar pela direita. É preciso dizer com que jogadores e de que forma será o ataque. É necessário dar os detalhes para que o todo seja montado.

– Você é um homem do futebol. Já viveu experiências nas duas maiores competições esportivas mundiais – Copa do Mundo e Olimpíadas, e foi treinador de grandes equipes. Mas como foi o processo da saída da beira do gramado para assumir as funções executivas?

– Eu fui associando as duas etapas durante minha carreira. Na Jamaica, Irã, e Trinidad e Tobago eu fiz isso, eu coordenava a Federação e, também, ia para dentro de campo. No São Paulo eu fui diretor técnico. E agora eu sou diretor executivo e cuido de tudo relacionado ao futebol. E, no Vasco, não é só o time que tem que ser reformulado, mas o clube todo. Departamentos financeiro, administrativo, de marketing… Reformular um time é fácil, mas um clube centenário, com dívidas também centenárias, é complicado. Neste momento, não importa quem fez as divididas, mas sim encontrar formas de equacioná-las. Temos que pagar nossas dívidas e nos reestruturar. Não dá para pagar os salários que os jogadores recebem no Brasil. Nós estamos pagando mais do que muitos clubes da Europa.

– Recentemente, houve uma valorização dos cargos de gestão no futebol. O diretor de futebol ou executivo passou a ser visto como verdadeiro reforço para os clubes. A reestruturação tem que vir de fora para dentro?

– Acho que sim. A reestruturação deve ser de fora para dentro do clube. A forma que nós vemos o futebol tem que ser modificada. Eu dou tantas entrevistas diariamente e nunca me perguntam sobre o trabalho. O assunto sempre é qual jogador será contratado, quem é ele e se será uma contratação de peso. O importante é contratar e colocar para jogar. E aí, o que está acontecendo com o futebol brasileiro? São montados times e não trabalhos. Não há pensamento coletivo. Com isso, nós começamos a gostar do Borrusia, do Bayern, do Barcelona… Temos que pensar seriamente nisso. O que leva esse times é a força do trabalho, não só os jogadores.

– Tem vontade de voltar a ser treinador?

– Eu não deixei de ser treinador. Me lembro de Adib Jatene, quando foi Ministro da Saúde e foi questionado: Ministro, você deixou de ser médico? Ele respondeu : – eu estou ministro e não deixei de ser médico. Da mesma forma, eu não vou deixar de ser treinador. Agora, já fiz todos os cursos relacionados a essas funções. Inclusive, acho que dos clubes grandes eu sou o primeiro a ter o diploma de gestor da Fifa. Estou exercendo uma função para a qual estou habilitado, porém a gente nunca sabe o que vai acontecer. A vida é muito dinâmica. Só sei de uma coisa. Antes, eu pensava que o treinador trabalhava muito. De fato, trabalha. Agora, o que gestor tem de trabalho é coisa de louco. Trabalha-se demais.

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