Não fosse o Neymar, avaliava um comentarista da TV, o Brasil hoje figuraria no mapa do futebol apenas como sede da próxima Copa. Mais ou menos como aconteceu com a África do Sul nos anos que antecederam o Mundial de 2010. O mesmo pessimismo aparece em qualquer discussão de torcedor sobre deficiências de alguns setores. O Cruzeiro, por exemplo, não tem um bom ataque? Mas quem tem um bom ataque no futebol brasileiro? Quem tem uma boa dupla de zaga? Quem tem um bom time para o Brasileirão?
Para complicar ainda mais a situação, os jogadores possíveis no futebol brasileiro hoje não conseguem se firmar em seus times. Dificilmente jogam três partidas no mesmo nível. Especulou-se até agora que o problema era as noitadas. Também se falou nos altos salários, que colocaram os atletas em mundos irreais. Houve até quem enxergasse as concentrações como parte do problema. Tudo isso é consequência apenas. Loco Abreu, do Botafogo, e Leandro Guerreiro, do Cruzeiro, mataram a charada após a eliminação dos seus times da Copa do Brasil: é medo mesmo.
É como um poema de Drummond. Provisoriamente não cantaremos o amor/que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos./Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços. No caso, que esteriliza o futebol bem jogado, que acaba com a raça em campo e que tira o sentido do vestir a camisa. Talvez seja esse medo que leva os derrotados do campo aos vestiários não tristes ou chorosos, mas assustados.
Mas o que temem os endinheirados jogadores? Um confronto com o Barcelona de Messi, Iniesta e Xavi? Uma conversa tête-à-tête com os chefes das torcidas organizadas? Que medo mesquinho é esse que os impede de arriscar um passe, um drible, um chute? É aquele medo nosso do dia a dia que nos impede de querer ir além da nossa mediocridade. Depois morreremos de medo/e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
