Esta reportagem especial dos 45 anos da Tribuna percorreu essa cadeia de ponta a ponta: dos donos de quadras e organizadores de eventos aos fotógrafos, lojistas, fisioterapeutas e atletas que gastam e ganham com a prática esportiva para entender como o suor do amador virou dinheiro no caixa e identidade na cidade.
A quadra que virou indústria
O chinelo parece fora de lugar em um espaço de treino, mas é ele que define a vibe das noites na quadra de areia do CT Dynamo, no Bairro Santa Luzia. Dezenas de pessoas circulam entre uma partida de beach tennis e um treino de futevôlei, enquanto famílias inteiras ocupam as arquibancadas improvisadas. O empresário Maurício Carvalho, dono do espaço, viu aquela cena nascer há sete anos, em 2019, antes de qualquer estatística confirmar o que ele já percebia nas ruas do bairro: Juiz de Fora estava descobrindo no esporte um dos negócios que mais crescem. No início de 2026, inclusive, abriu uma nova unidade do CT Dynamo, no “Passeio JF”, localizado na Avenida Deusdedith Salgado.
Os números dão contorno ao que acontece na quadra. Dados do Sebrae Minas, atualizados até 31 de julho deste ano, mostram que o setor de serviços em Juiz de Fora registrou 139 aberturas de empresas, 50 fechamentos e um saldo positivo de 89 negócios no recorte analisado — crescimento de 47,09%. Do total, 97,37% são micro e pequenas empresas, e os segmentos ligados diretamente ao esporte puxam esse movimento. Atividades de condicionamento físico abriram 89 empresas com saldo de 54; o ensino de esportes cresceu 61,29%; e a gestão de instalações esportivas saltou 69,23% no saldo. Só não cresceram os clubes sociais e esportivos tradicionais, o único segmento do recorte com saldo negativo.
Do campinho à quadra de areia
Para o analista do Sebrae Minas Gustavo Magalhães, o fenômeno não é um surto passageiro, mas uma mudança estrutural de comportamento. “Esse mercado deixou de ser um nicho voltado apenas para esportistas ou amantes de uma modalidade específica. Hoje, essa demanda parte da sociedade de uma forma geral”, afirma. Ele explica que o chamado wellness — saúde, esporte e bem-estar — já representa cerca de 10% do crescimento do mercado de franquias na cidade, e que a formalização desses negócios é facilitada pelo baixo custo de operação.
O baixo custo, porém, tem um preço: a competição acirrada. “Como não existem barreiras de entrada muito grandes, a competição aumenta rapidamente. Isso leva o empreendedor a precisar se desenvolver de forma rápida, trabalhando com inovação e serviços diferenciados”, analisa Gustavo. É exatamente o que se vê no mercado das quadras de areia.
O empresário Maurício Carvalho estima que existam hoje cerca de 30 locais com quadras de areia em Juiz de Fora, somando mais de 100 quadras. Mesmo assim, ele diz não enxergar concorrência: “São perfis de negócios diferentes, cada um com o seu posicionamento”. A meta dele é chegar a mil alunos ativos — hoje são 600, que frequentam de uma a três vezes por semana, além de mais de 100 pessoas por semana nos aluguéis rotativos, com tarifa média de R$ 80 por hora.
O efeito contágio vai além das quatro linhas. Maurício observa que o mercado de roupas e raquetes foi o grande beneficiado pelo boom, seguido por eventos de competição, alimentação e bebidas. “O ecossistema retroalimenta, complementa, não compete um com o outro”, resume.
O dinheiro público na jogada
O setor privado não caminha sozinho. Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora, mais de R$ 30 milhões foram investidos desde 2021 em equipamentos e infraestrutura esportiva, entre o Ginásio Municipal (R$ 17,7 milhões), a Arena Brasil no Amazônia, a pista de skate do Poço Rico e uma série de reformas de praças e campos. Apenas em 2025, o Estádio Municipal recebeu 160 eventos e o Ginásio, 33.
Segundo a prefeitura, os programas públicos da Secretaria de Esporte e Lazer têm 7,4 mil pessoas cadastradas, as copas municipais alcançam cerca de 50 mil pessoas, o Ranking de Corridas envolve 7 mil corredores e os Jogos Intercolegiais, 33 mil. A Administração municipal também emitiu 204 alvarás e 77 cartões de referência fiscal exclusivamente para negócios esportivos. Um mapeamento de espaços esportivos e demanda reprimida, em parceria com a UFJF, está em andamento.
A câmera que segue a bola
Se as quadras geram movimento, alguém precisa registrar tudo isso. O fotógrafo Anderson Barcelos, dono da Fanáticos FE, entrou no mercado em 2022, quando trabalhava como atendente em uma quadra de futebol e aproveitou um campeonato para fotografar os jogos. Hoje cobre entre 15 e 20 eventos por mês, com venda de fotos avulsas entre R$ 8 e R$ 15 por unidade, usando a plataforma Banlek, referência no setor, presente inclusive no Maracanã.
Seus principais clientes, diz ele, são os jogadores amadores. “O fato de não termos muitos esportes profissionais fez com que a várzea crescesse bastante”, conta.
Dessa maneira, Barcelos acompanha a transformação que o Sebrae registra nas planilhas: as 139 empresas abertas em Juiz de Fora no recorte analisado têm rosto, e alguns deles carregam câmera no ombro. O volume de trabalho revela uma demanda que não existia na mesma escala há poucos anos, quando o futebol de várzea jogava para as arquibancadas e para mais ninguém.
Hoje, uma partida disputada no fim de semana gera registro, venda e renda para um profissional que antes teria de procurar outro ofício. E o ciclo se retroalimenta: quanto mais jogos fotografados, mais jogadores querem a própria imagem, e mais o fotógrafo investe nos 30% do faturamento que retorna, mês após mês, em equipamento e capacitação.
O circuito que lota hotéis
Na areia do vôlei, o crescimento é medido em equipes. Eduardo Magalhães, dono de uma escola de vôlei de praia na cidade, organizou o primeiro torneio em 2024, com 20 equipes. No fim daquele ano, já eram 36. O Circuito de Vôlei de Praia de Juiz de Fora estreou com 72 equipes e chegou a 166 na etapa de outono deste ano — saltando de cerca de 70 para quase 300 atletas. O número que mais impressiona, porém, é geográfico: na última etapa, participaram atletas de 25 cidades, principalmente do eixo Rio de Janeiro–Belo Horizonte.
“Como muitos passam o fim de semana em Juiz de Fora, acabam utilizando hotéis e Airbnb, restaurantes e outros serviços da cidade, além de aproveitarem para conhecer o comércio e a gastronomia local”, afirma o organizador.
Em pouco mais de um ano, Eduardo se vê à frente de um circuito inteiro, com etapas ao longo do ano e um volume de atletas que já exige planejamento de operação profissional — quadra, arbitragem, logística, inscrições e atendimento ao público de fora. É o retrato clássico do pequeno negócio que o Sebrae descreve no setor de serviços: entrada fácil, crescimento rápido e a obrigação de amadurecer na mesma velocidade. O próprio organizador reconhece que o passo seguinte é estruturar melhor essa operação, para que a máquina não fique menor do que a demanda — um dos gargalos que o mercado esportivo juiz-forano terá de resolver para sustentar o ritmo.
O boom das corridas de rua
A conta fecha também nas ruas. A VidAtiva, comandada por Lucas Leite, realizou mais de 30 corridas de rua em Juiz de Fora nos últimos três anos, de um portfólio de mais de 300 eventos. Uma prova pode custar entre R$ 60 mil e R$ 300 mil e envolve de 20 a 30 empresas direta e indiretamente — segurança, ambulância, cronometragem, som, fotografia, hidratação, montagem. O público predominante tem de 30 a 45 anos, e 55% são mulheres, diz Lucas.
O que a VidAtiva mostra é que uma corrida não é um evento, é uma cadeia. O corredor entra em movimento e, simultaneamente, a operação aciona segurança, ambulância, cronometragem, som, fotografia, hidratação e montagem. É renda pulverizada em dezenas de pequenos fornecedores que, sem a prova, não teriam essa demanda. E o efeito não para no dia: as pessoas costumam permanecer no esporte, e Lucas Leite enxerga o negócio de longo prazo.
A corrida funciona para ele como porta de entrada de um funil econômico — o corredor de domingo de um mês vira o aluno de assessoria esportiva, o cliente da academia, o paciente do nutricionista e do fisioterapeuta dos meses seguintes. Uma inscrição vendida semeia uma série de outras compras ao longo dos anos, e é esse efeito cascata que transforma um evento esportivo em um negócio de serviços duradouro.
O bolso do praticante
Do outro lado do balcão está quem gasta. A atleta Maria Júlia Martins, que corre há poucos anos e hoje disputa cerca de 10 provas por ano, ilustra o novo perfil de consumo: paga R$ 160 por mês de academia, investiu R$ 1.200 em um único par de tênis e desembolsou cerca de R$ 4 mil para disputar a Maratona do Rio, somando transporte, hospedagem e alimentação. “Existe a Maju antes e depois da corrida. São duas pessoas completamente diferentes, com hábitos e prioridades diferentes”, brinca ela, que diz comprar sempre on-line e adquirir fotos de treino para apoiar o trabalho dos fotógrafos.
Nas prateleiras, o reflexo é imediato. Oscar Henriques, da loja Camorra Tennis, diz que os produtos de corrida passaram por um verdadeiro boom, puxados pelo público feminino e jovem — hoje, a modalidade responde por 30% das vendas da loja, com tênis de R$ 600 a R$ 2 mil. “A corrida deixou de ser uma modalidade restrita a atletas e passou a ser um estilo de vida. Todo mundo quer correr”, resume.
A conta que ainda não fecha
Mas nem tudo é celebração. O fisioterapeuta traumato-ortopédico Rodrigo Vieira vê o outro lado do boom na sua clínica: mais gente praticando, mais lesões. Ele divide os praticantes em dois grupos — a minoria que investe em acompanhamento preventivo e a maioria que só busca atendimento quando a lesão impede a atividade. “Nossa cultura ainda é do remediar, não de prevenir”, critica. Para ele, o investimento do brasileiro continua desproporcional: paga-se pelo tênis e pela raquete, mas se resiste a pagar pelo profissional que orienta o uso do próprio corpo.
A própria estrutura de eventos tropeça em gargalos. Eduardo Magalhães aponta a escassez de árbitros de vôlei de praia na cidade e a necessidade de profissionalizar uma operação que cresceu mais rápido do que os processos. E o Sebrae alerta que, em mercados de expansão acelerada, a competição feroz cobra inovação constante — inovar, diz Gustavo Magalhães, é o que separa os negócios que sobrevivem dos que fecham as portas.
O saldo positivo do setor de serviços e a velocidade com que quadras, torneios, fotos, tênis e atendimentos se multiplicam indicam que a onda veio para ficar. Para que ela se sustente, os empreendedores precisarão se profissionalizar em um mercado que cobra inovação a cada mês — e a cidade terá de acompanhar a estrutura ao ritmo da demanda. O que é certo é que não haverá refluxo: os donos de quadra planejam novos espaços, os circuitos já fecham calendário para os próximos anos e o Sebrae segue com o fenômeno no radar. Em Juiz de Fora, a economia descobriu que suar a camisa também dá lucro e, cada dia mais com plano de jogo, não planeja parar de transpirar.

