Para o treinador histórico do Clube Bom Pastor, Sérgio Moraes, a Copa de 2002 está diretamente ligada à família. Ele lembra que os horários inusitados mudaram completamente a rotina dos brasileiros durante o torneio.
“Contar a história da Copa de 2002 é quase como rever um filme na cabeça. Foi uma Copa muito marcante, com jogos em horários completamente diferentes do que a gente estava acostumado. A maioria das partidas era de madrugada ou bem cedo de manhã. A final, por exemplo, foi às 7h. Então não tinha aquele clima de churrasco e cervejada. A preparação era para o café da manhã mesmo”, recorda.
As partidas eram acompanhadas ao lado dos irmãos, do pai, hoje já falecido, Eros Moraes, e da mãe, Téa Beraldo. A casa da família virou ponto de encontro durante a campanha brasileira.
“Meu pai fazia questão de entrar no clima. Ele colocava um bandeirão enorme na cobertura do prédio onde morava, daqueles que iam do terraço até o primeiro andar. Tivemos até que pedir autorização ao condomínio para instalar a bandeira sem atrapalhar os vizinhos”, conta.
Depois da vitória na final, a comemoração tomou as ruas.
“Meu pai deixou a gente tirar a bandeira do mastro, onde ela ficava muito bem amarrada, e fomos carregando ela pelas ruas para comemorar no Alto dos Passos, que na época ainda tinha o trevo. A família inteira desceu para participar da carreata e daquela festa”, pontua.
Sérgio também relembra momentos emblemáticos da campanha brasileira, como o gol de falta de Ronaldinho Gaúcho contra a Inglaterra e a recuperação de Ronaldo Fenômeno após a lesão e o trauma da Copa de 1998.
“Aquela foi a Copa da redenção dele. Depois do que aconteceu em 1998 e de uma lesão gravíssima, muita gente achava que ele nem conseguiria voltar a jogar em alto nível. Alguns até falavam em aposentadoria. Mas ele mostrou uma força absurda, deu a volta por cima e acabou sendo o grande nome do Mundial”, afirma.
Além do título, o treinador afirma que o Mundial ficou eternizado pelo significado afetivo.
“Quando lembro da Copa de 2002, não penso só no pentacampeonato. Penso na família reunida de madrugada, no café da manhã antes dos jogos, na bandeira gigante estendida no prédio e na alegria de comemorar tudo aquilo ao lado do meu pai. Foi uma Copa que marcou a nossa família para sempre”, revela.
“Isenção e emoção”
O jornalista Márcio Guerra também guarda lembranças especiais do torneio, apelidado por muitos de “Copa do Pijama”.
“Como os jogos foram disputados na Coreia do Sul e no Japão, a maioria das partidas acontecia de madrugada para nós brasileiros. Tirando a final, que foi pela manhã, tivemos que enfrentar uma verdadeira maratona contra o sono para acompanhar os jogos”, relembra.
Diferentemente de outras Copas, Márcio acompanhou boa parte dos jogos em casa e percebeu uma mobilização menor em relação a edições anteriores.
“A primeira Copa do Mundo que acompanhei entendendo realmente o que era futebol foi a de 1970. Naquele tempo, o Brasil literalmente parava para assistir aos jogos. Depois das partidas vinham as manifestações nas ruas, as carreatas, toda aquela mobilização popular”, narra.
Já em 2002, ele viveu a Copa de uma maneira diferente.
“Eu acompanhava as transmissões na Rádio Facom, a rádio universitária, porque os alunos da faculdade faziam a cobertura dos jogos, inclusive os que aconteciam de madrugada. A final contra a Alemanha eu assisti lá, dentro desse ambiente de rádio e jornalismo“, rememora Márcio.
Além da felicidade como torcedor, havia a responsabilidade profissional.
“Era preciso informar com isenção, mas ao mesmo tempo transmitir toda a emoção daquele momento histórico do pentacampeonato”, pontua.
2002: nascimento do filho e título da Copa
Quem também não esquece daquela manhã é Eneida Santos, mãe do paratleta Gabrielzinho. Ela lembra da emoção ao ver Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho e o goleiro Marcos conduzirem o Brasil ao título.
“Lembro muito da final, com o Brasil vencendo a Alemanha por 2 a 0. Tínhamos grandes jogadores, era muita emoção e alegria”, indica. “Nesse tempo, a gente enfeitava as ruas com muito entusiasmo. Assisti a final em casa para prestar mais atenção, e quando terminou, fui para a rua comemorar. Muitas bandeiras, um clima sensacional”, completa.
Entre tantas lembranças daquela Copa, uma delas se tornou ainda mais especial para Eneida com o passar do tempo: Gabrielzinho, hoje principal da natação paralímpica brasileira, nasceu no mesmo ano do penta. Ele tinha apenas três meses de vida, e assistiu à Copa nos braços da mãe.
