Embora os plantonistas do apocalipse destaquem as ocorrências de violência – que devem e precisam ser combatidas -, prefiro ver o futebol de forma lúdica, mais capaz de agregar e estreitar laços do que provocar inimizades. Foi assim na última quarta-feira. Como perdi a hora para acompanhar o Tupi na Copa do Brasil, segui para o boteco do camarada Kaká para assistir à boa exibição do Corinthians pela Libertadores. Mais do que os 3 a 0, deixei o local satisfeito por ter feito uma daquelas amizades instantâneas com Ken Coleridge, um sul-africano bonachão, apaixonado pelo Brasil e por sua esposa brasileira, no país, de mala e cuia, desde 2011.
Misturando meu inglês claudicante com o português arrastado do gringo, conversamos durante os 90 minutos da partida e mais umas duas horas na resenha do pós-jogo. Além de uma aula sobre a política do país de Nelson Mandela e o apartheid na África do Sul, Ken me detalhou as regras dos esportes mais populares de seu país. Apesar da lição, continuei comparando o rúgbi ao futebol americano e o críquete aos confrontos de bete de minha infância. Também passei um pouco da minha experiência e, ao final do jogo, o gringo repetia aqui é Corinthians, com um sotaque inconfundível.
Seguindo a máxima em Roma, faça como os romanos – ou seria se ‘tá’ no inferno, abrace o capeta? -, a paixão com que Ken assistiu ao jogo chamou a atenção. A cada boa trama do ataque corintiano, vibrava como um torcedor de arquibancada. No Brasil jogam futebol veloz, compreende?, indagava, com seu português sábio e caricato.
Apesar da admiração, o que mais intriga Ken é a paixão do brasileiro pelo futebol. Não se cansava de repetir a história de quando foi a um funeral no Rio de Janeiro. Tinha uma bandeira ‘da’ Fluminense sobre o caixão!. Quase tricolor, Ken só não percebia que já havia sido contaminado a cada amizade firmada entre um gol – ou seria um gole? – e outro. É disso que o esporte é feito. Depois do jogo, voltei para casa com um sorriso torto, lembrando o tal Fernando Vanucci, ligeiramente ébrio. É, a África do Sul é logo ali!
