Durante a entrevista ao programa Dá Jogo, transmitido ao vivo no YouTube da Tribuna de Minas, o supervisor de futebol do PSG Academy JF, João Victor Martins, falou sobre a rotina e os desafios nas disputas do Campeonato Mineiro Sub-13 e Sub-14 em parceria com o Uberabinha. Também abordou a formação de atletas, o relacionamento com os pais, a importância de profissionais experientes e o potencial do futebol de base em Juiz de Fora.
Confira a entrevista na íntegra:
Tribuna de Minas: Como a paixão pelo futebol influenciou sua trajetória profissional?
João Victor Martins: Falar que nunca quis jogar futebol é mentira. Eu sempre quis, desde pequeno. O futebol esteve presente na minha vida o tempo inteiro. Porém, como muitos, não consegui seguir a carreira dentro de campo. Hoje, estar como supervisor da PSG Academy é uma trajetória pela qual agradeço muito. A gente não consegue nada sozinho; sempre precisa de alguém para ajudar. Eu comecei a estudar Administração pensando em trabalhar em uma empresa, mas percebi que gostava muito de futebol e pensei: “Por que não trabalhar com futebol?” Passei a pesquisar sobre gestão esportiva e conheci o curso de Gestão Executiva da Futebol Interativo. Foi lá que descobri a função de supervisor, uma área que poucas pessoas conhecem. Depois, comecei a trabalhar mais profundamente com isso e também tive a oportunidade de atuar no marketing do PSG antes de atuar como supervisor.
O que faz um supervisor de futebol no dia a dia?
A supervisão é uma área pouco conhecida. No PSG, o trabalho é um pouco diferente do realizado em um clube, porque somos uma academia de futebol. Mesmo assim, temos uma parceria com o Uberabinha, que é uma equipe federada e disputa o Campeonato Mineiro. Também cuido da logística dos jogos, da separação dos uniformes e dos checklists. Como não temos um roupeiro, por não sermos um clube, preciso organizar todo o material antes das partidas. Além disso, participo do planejamento semanal junto com a comissão técnica.
Como é feita a organização da semana de trabalho?
Nossos treinamentos acontecem de terça a sexta-feira. Toda terça fazemos uma reunião com a comissão técnica para organizar o cronograma da semana. A partir daí, começo a separar os uniformes, conferir os materiais e verificar tudo o que será necessário para os jogos. Também organizamos ações relacionadas à alimentação e ao acompanhamento dos atletas. A cada 15 dias, recebemos um psicólogo e um nutricionista para conversar com os meninos. Eu fico responsável por organizar os horários e alinhar a presença desses profissionais com a comissão técnica.
O que faz parte do checklist antes de um jogo?
Eu montei um checklist próprio para não esquecer nenhum detalhe. Nele, coloco as bolas, os coletes, os materiais dos gandulas e os uniformes. Também verificamos questões relacionadas à segurança e à presença de ambulância. O Felipe fica responsável por essa parte. Precisamos conferir os uniformes principais e reservas, além de todos os materiais que serão utilizados durante a partida. Em um jogo contra o Athletic, por exemplo, tivemos um problema com os meiões. O Sub-14 jogaria com o meião preto, mas o adversário também utilizaria essa cor. Como não levamos um par extra, tivemos que reorganizar os meiões das duas categorias. No fim, conseguimos resolver, mas situações assim mostram a importância de estar preparado.
Quais categorias fazem parte do PSG Academy atualmente?
Hoje, trabalhamos com categorias do Sub-5 ao Sub-17. Também temos o Footbaby, para crianças a partir dos três anos, além das equipes femininas. Há turmas mistas e categorias exclusivas para meninas, como o Sub-15 e o Sub-17. O Sub-15, inclusive, foi campeão do futsal em uma competição da Prefeitura.
Como funciona a logística das viagens pelo Campeonato Mineiro?
É uma situação complicada, porque não somos um clube e não temos o mesmo orçamento das equipes maiores. O ideal seria viajar um dia antes, mas muitas vezes precisamos sair no próprio dia do jogo e fazer o bate-volta. Para diminuir o desgaste, deixo tudo organizado com antecedência. Faço um cronograma com os horários de saída, previsão de chegada, partida e retorno, e envio essas informações aos pais. Também organizamos a alimentação. Os meninos almoçam, jogam e, na volta, geralmente compramos pizza para que eles possam comer dentro do ônibus. Dessa forma, evitamos parar à noite em estradas, o que é mais seguro, já que estamos viajando com muitos adolescentes. Normalmente viajamos com cerca de 40 atletas, sendo 20 de cada categoria. É uma grande responsabilidade cuidar de tantos meninos de 13 e 14 anos. Os pais também acompanham de perto. Temos grupos separados por categoria e enviamos a localização em tempo real, além de fotos e informações sobre as paradas, o almoço e o início dos jogos. Nem sempre conseguimos atualizar tudo no momento exato, porque a rotina é muito corrida, mas procuramos manter as famílias informadas.
Como é o relacionamento com os pais dos atletas?
Essa é uma questão muito importante. Os pais precisam entender que o treinador é a autoridade dentro de campo e que a função deles é oferecer suporte aos filhos. Alguns pais acabam exagerando nas cobranças e nos xingamentos à beira do campo. Isso atrapalha o processo de formação. O professor está ali para educar, mas, se os próprios pais não colaboram, o trabalho fica muito mais difícil. Também existe a preocupação com os atletas que jogam por várias equipes no mesmo fim de semana. Alguns meninos chegam a disputar três, quatro ou cinco partidas. Isso pode causar desgaste excessivo e, no futuro, até contribuir para o surgimento de lesões. Eles precisam entender que a formação vai muito além do resultado de um jogo. O atleta precisa ter uma metodologia, uma rotina e um processo de desenvolvimento. Quando o menino joga por várias equipes, acaba não tendo continuidade em nenhum trabalho. Os pais, muitas vezes, pensam apenas em colocá-lo em diferentes times para que ele tenha mais oportunidades, mas não percebem que isso pode prejudicar sua evolução. Também é importante entender que o atleta está em formação como jogador e como cidadão. A família tem um papel fundamental nesse processo.
Como é trabalhar ao lado de profissionais experientes no PSG?
Para mim, é um privilégio enorme. O Walker Campos, por exemplo, é uma referência. Mesmo com toda a experiência que tem no futebol, ele continua ouvindo e orientando as pessoas. O Alex Nassif também foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha trajetória no PSG. Ele se tornou um amigo e uma pessoa que quero levar para a vida toda. Também temos profissionais como o Igor e o Felipe, que são muito importantes em suas áreas. É muito bom trabalhar com pessoas que já viveram aquilo que queremos alcançar. Procuro absorver o máximo de conhecimento desses profissionais. O Hudson é uma pessoa muito inteligente. Há alguns meses, ele me disse uma frase que guardei: “A gente não forma apenas jogadores; a gente forma profissionais também”. Ele tem uma experiência enorme no futebol e é uma pessoa fora da curva. Ter esse contato próximo é muito importante para o nosso desenvolvimento.
Como você avalia o nível do futebol de base em Juiz de Fora?
Juiz de Fora sempre teve uma base muito forte. Todos os anos surgem bons jogadores. O problema é que, como a cidade não tem atualmente um clube profissional estruturado, não conseguimos segurar os atletas por aqui. Por isso, muitos jogadores acabam deixando a cidade em busca de oportunidades. A ideia do PSG é justamente oferecer visibilidade para esses meninos por meio de parcerias com clubes maiores. Neste ano, por exemplo, perdemos quatro atletas para outras equipes ainda durante as primeiras rodadas da competição. Ao todo, seis jogadores do PSG já foram encaminhados para clubes, incluindo Atlético, Cruzeiro, Boston City e Vila Nova.
O que falta para o futebol de base de Juiz de Fora evoluir ainda mais?
Acho que os clubes precisam se unir mais para dar visibilidade aos atletas da cidade. Juiz de Fora tem uma localização muito boa, próxima do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Belo Horizonte. A cidade também é atrativa para receber competições, mas isso ainda não é explorado como poderia. Temos a Copa Prefeitura Bahamas e outras iniciativas importantes, mas falta um campeonato regional de alto nível, capaz de trazer equipes de fora. Seria interessante organizar uma competição com categorias desde o Sub-9, reunindo clubes de diferentes regiões. A cidade tem potencial para isso, mas ainda precisa trabalhar melhor essa possibilidade.

