A demolição da pista de skate da Praça Teotônio Vilela, no Bairro Vitorino Braga, colocou um ponto final em anos de reivindicações por reforma e reacendeu o debate sobre os espaços destinados à modalidade na cidade. Para a Associação Juiz-Forana de Skate (AJS), a cidade perde uma das poucas pistas adequadas para o esporte, situação contrastante com as demais estruturas restantes na cidade, consideradas pequenas e mal executadas, impossibilitando a prática.
Na visão do skatista e atual presidente da AJS, Mateus Gomes, a demolição da pista de skate representa grande perda para o esporte e para a cultura no município. “Foi um símbolo do skate por muitos anos e vinham profissionais de todos os cantos para cá”, afirma. A pista foi inaugurada em 2000 e vinha, ao longo dos últimos anos, sendo motivo de pedidos por manutenção da estrutura. Segundo Mateus, a Associação segue em contato com a Prefeitura de Juiz de Fora para buscar possíveis soluções.
‘Formas como skate pode habitar o espaço público’
Foram longos anos de luta pela restauração do espaço, que recebeu apenas uma reforma realizada pelo Poder Público em 2009, conforme relembra a AJS à Tribuna de Minas. Já em 2017, foi apresentado requerimento de reforma na Câmara Municipal de Juiz de Fora.
“A pista foi a primeira a ser construída na cidade com esta finalidade. Atualmente, precisa ser revitalizada devido ao seu estado precário, com muitos buracos, o que impede o acesso dos munícipes ao lazer e convívio social”, avalia o documento da época, que a reportagem teve acesso.
Mesmo sem receber as reformas, o representante Mateus Gomes conta que a pista de skate manteve-se em funcionamento e teve sua vida útil prolongada por contar com a união dos próprios skatistas, que utilizaram de seus próprios recursos para sua preservação.
“O que acontece até hoje, por exemplo, com a pista Rusível Silva Costa, localizada no coração da cidade, que já completou dois anos sem nenhuma manutenção preventiva”, declara.
Segundo o representante, assim como aconteceu com a demolição da rampa da Praça Antônio Carlos, em 2022, quando os integrantes da associação tomaram conhecimento da demolição da pista no Vitorino Braga, já não era mais possível barrar a reforma. A Associação aponta ter sido informada por terceiros, não diretamente por órgãos públicos competentes.
Ao lamentar a perda do espaço, Mateus pondera que a AJS tem consciência da importância da transformação de uma região abandonada em um local para abrigar centros de atenção à saúde para a população.
“Nossa demanda é dialogar para haver novas possibilidades de ocupação da cidade, buscando diversificar as formas como skate pode habitar o espaço público, paralelamente às pistas, e por opções de resgatar a memória deste local”, manifesta.
Luta pelo skate em Juiz de Fora
“A Associação lutou pela pista do Vitorino antes mesmo da sua construção”, narra Brunner Lopes, skatista e ex-presidente da AJS.
“Quando a Associação foi formada, as principais demandas eram que a prática de skate fosse permitida nas praças, sem repressões. Também pedimos a construção de equipamentos públicos com pistas para que pudéssemos ter locais exclusivos e específicos para praticar. Além das rampas, corrimãos, escadas e bancos também deveriam ser incluídos nos projetos”, complementa.
Em 2013, havia um projeto para construção de uma pista de skate no Bairro Aeroporto: Na época, o Ministério do Esporte destinou recursos para a cidade construir uma nova pista. Inicialmente seria construída no Parque da Lajinha, depois nas proximidades do Estádio Municipal de Juiz de Fora. Por fim, foi construída no Bairro Linhares em 2017.
“Sinto que falta algum setor ou órgão público para zelar pelas questões do skate, que não é somente esporte e lazer, mas também cultura e patrimônio imaterial, com a devida atenção. Deveria fazer um planejamento mais participativo, não ouvindo somente a AJS, que apesar de ser privada, representa o interesse público dos skatistas. Momentos de audiências públicas convidando a toda a comunidade do skate, com transparência e para buscar soluções eficientes. Não aceitamos mais que em 2026 a Prefeitura ainda esteja construindo pistas esquisitas como foi feita lá na via São Pedro, a revelia da opinião dos skatistas”, pontua o ex-presidente da Associação.
Prefeitura reitera contato com a Associação de Skate
A Tribuna de Minas questionou a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) quanto a justificativa de instalar equipamentos de saúde na área da antiga pista de skate do Bairro Vitorino Braga, em vez de reformar o espaço, como reivindicavam a Associação Juiz-Forana de Skate (AJS) e os praticantes do esporte. Também foi perguntado se há previsão de construir uma nova pista e qual o posicionamento diante das críticas sobre a escassez de espaços públicos para a modalidade e à falta de diálogo com os skatistas na elaboração de projetos de novas pistas.
O Poder Executivo local, por meio de nota, informou apenas estar em contato com a AJS por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano com Participação Popular (Sedupp).
Pistas como espaços de formação cultural
Skatista, artista visual e DJ, Josimar Freire, mais conhecido como Gramboy, tocou em diversas festas organizadas na pista. Ele considera que o espaço já estava perdido há tempos pela falta de manutenção, tanto da pista quanto da praça. Segundo ele, as reformas na pista foram feitas, muitas vezes, pelos próprios frequentadores.
“Os eventos que movimentamos na praça já eram feitos ‘na raça’. Tomara que reparem a história criada nesse lugar durante décadas com um novo espaço, porque os picos de rua e pistas são muito importantes na formação cultural de jovens nas cidades”, frisa.
De acordo com Vinícius Costa de Oliveira, skatista e pesquisador da prática do skate enquanto prática cultural, urbana e citadina no mestrado em História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a pista do Bairro Vitorino Braga se desenvolveu como uma referência para o skate mineiro como um todo.
“Juiz de Fora recebeu muitas etapas do Campeonato Mineiro. Grandes skatistas vieram para cá para competir, socializar e se apropriar da pista. Uma grande energia se desenvolveu em torno dessa pista”, frisa.
O último obstáculo construído na pista foi feito pelos próprios skatistas, como uma celebração, conta o skatista. “Tínhamos uma relação afetiva com a pista, apesar da degradação física”, desabafa. Além das competições, eventos culturais, como festas e exibições de vídeos de skate também conquistaram seu espaço na pista.
“Em relação ao campo simbólico, qualquer perda de espaço público, para nós de Juiz de Fora, é sentido de uma maneira muito forte, ainda mais para o skate. A demolição toca muito nesses sentidos mais simbólicos. Apesar da galera não ir mais andar, a pista do Vitorino ainda estava presente de alguma forma no imaginário do skate na cidade. A minha questão, principalmente enquanto pesquisador, é entender quais serão os desdobramentos dessa demolição. Será que vão apresentar outro espaço para construir uma nova pista, uma outra alternativa?”, pergunta.
Terreno dará espaço ao Caps e à UBS
Após a demolição das estruturas na Praça Teotônio Vilela, o terreno dará espaço ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Leste e a Unidade Básica de Saúde (UBS) Vitorino Braga. As duas obras somam mais de R$8 milhões e serão realizadas com investimentos do Governo Federal, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A ordem de serviço e os contratos para a construção foram assinados pela Prefeitura de Juiz de Fora no fim de maio.
Uma demanda antiga dos moradores da região, até então descoberta quanto a Atenção Básica, a UBS Vitorino Braga será construída para atender uma população estimada em 18 mil pessoas. Já a nova sede do Caps Leste substituirá o imóvel alugado e atenderá moradores das regiões Leste e Nordeste da cidade, fortalecendo a rede de atenção psicossocial.

