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Os pés pelas mãos

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Concentrar ou não

Nem sempre é possível precisar a autoria das frases feitas que povoam o folclore do futebol. Um exemplo é a história – na verdade, está mais para estória – de um jogador que ganhou um Motorádio (radinho famoso há algumas décadas) por ter sido o melhor em campo. Dizem que o gaiato respondeu de pronto: A moto vou vender, o rádio dar para minha mãe. Já vi o chiste ser creditado ao Dadá, ao Biro-Biro, ao Josimar… O mesmo vale para a máxima se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão invicto. Já ouvi diferentes fontes de fidedignidade inabalável dar os créditos ao onipresente Neném Prancha, enquanto outras apontam o mestre João Saldanha como autor da pérola.

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Indiferente de autoria, estava preparado para utilizar este espaço para defender a frase. Já havia rascunhado em minha mente: Basta olhar o Vascão. Com salários atrasados, os jogadores cruz-maltinos optaram por não se concentrar. A medida foi tomada em três partidas. No Carioca, tudo azul. Jogando bem, o time manteve 100% de aproveitamento. Na Libertadores, o caldo desandou. O Vasco foi derrotado em casa na estreia e parecia estar exatamente desconcentrado.

Será que a teoria de Prancha/Saldanha caiu por terra? Não! A tal concentração é algo arcaico. Da época em que taxavam os atletas de vagabundos. Mais do que enjaulá-los, deve-se cobrar profissionalismo. Para fazer uma cirurgia, o médico precisa estar concentrado, não dormir no hospital. O problema é que temos mania de passar a mão na cabeça dos jogadores. Eles agem como crianças exatamente por serem tratados como tal. O senso comum acredita que um boleiro não sabe tomar conta de si, por isso é preciso trancafiá-los às vésperas de um jogo. Enquanto for este o pensamento, veremos nas manchetes como fulano é flagrado em boate bebendo umas tantas caipirinhas. Notícia boba, digna de coluna de fofoca. Concentração não ganha jogo. Profissionalismo, respeito ao empregador e talento, sim. Que o diga o saudoso Sócrates e sua Democracia Corintiana do início dos anos 80.

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