A cada dia se percebe mais a entrada de crianças muito jovens nas competições esportivas. A presença do desafio rotineiramente na vida de um menino ou menina que há pouco deixou de usar fraldas talvez cause preocupação à primeira vista. Mas, se essas mentes em formação forem bem orientadas, as disputas e campeonatos podem ser um ambiente propício para seu desenvolvimento pleno.
Segundo a psicóloga infantil Sandra Vieira, não há uma idade ideal para que se inicie a criança em competições esportivas. O importante é a orientação dada à ela. A competição esportiva não é algo ruim. O esporte é um ambiente propício para que a criança vivencie experiências com as quais ela vai se deparar no restante de sua vida, como triunfos e reveses. O que deve ser observado é que ela deve iniciar a vivência esportiva como algo lúdico e escolher se quer ou não a competição. Pais e treinadores devem orientar no sentido de que essa experiência competitiva seja de crescimento, não importando-se com vitórias ou derrotas.
Modalidade na qual as crianças começam a competir bem cedo, a ginástica de trampolim é um bom exemplo de inserção das disputas esportivas na infância. Para o técnico do Instituto Vianna Júnior, Deber Zambelli, o importante é deixar o mais novos experimentarem e mostrar se querem competir. Levo as que começam comigo com 3, 4 anos para as copinhas, para elas irem se habituando. A criança geralmente se ambienta, brinca e mostra que quer estar lá e ir fazer o que ela sabe. É bem natural. O importante é fazer o esporte ser divertido, considera.
Pais de Elena Ventin, de 4 anos, Rosedaisy, 35, e Edson, 30, procuraram a ginástica de trampolim para a melhora da saúde da filha. Mas, agora, vendo a entrada dela nas competições, procuram apoiar. Ela tem frouxidão ligamentar. Era toda molenga. Hoje, depois de menos de um ano de treinos, já está toda firme. Influência direta do esporte. Ela é disciplinada, cobra os dias de treino e, quando se aprofundar nas competições, vai querer ser melhor, se cobrar, prevê a mãe. Nessa hora, estaremos do lado, como estamos sempre agora. Caso ela não vença, tentaremos mostrar que a vida é assim. O importante é ela se sentir feliz, completa o pai.
Já a mãe do pequeno ginasta Bernardo Antônio, de 4 anos, Eleonora, 31, acredita que seu filho tem espírito competitivo.Nas copinhas, ele fica à vontade, adora ganhar uma medalha. Quando as disputas forem mais sérias, acredito que ele vai querer ser o primeiro sempre. Cabe a nós, pais, tirar essa pressão, aconselha.
Sandra Vieira alerta que a pressão da própria criança, que muitas vezes vem acompanhada de outra dos pais, pode acarretar problemas futuros. A cobrança excessiva pode levar o jovem ter raiva com relação ao esporte. Além disso, ter dificuldades em questões como autoconhecimento e autoestima, teoriza Sandra.
Aos 11 anos, o ginasta André Moraes, hoje com 16, sentiu na pele essa situação. Quebrei o pé e, naquela época, decidi que não gostava mais da ginástica. Na verdade, não estava maduro o suficiente para lidar com essa pressão, colocada por mim mesmo, de competir, ter uma rotina de treinos, essas coisas. Me divertia fazendo os movimentos, mas não conseguia lidar com a competição, que era séria. Hoje, estou retomando minhas atividades e percebo que não deixei de gostar da ginástica, apenas sei lidar melhor com a situação. Está sendo uma volta por cima para mim.
Passo a passo até a tranquilidade
Por vezes, duas crianças da mesma família, da mesma idade e que treinam juntos um mesmo esporte, reagem de maneira bem diferente às pressões da disputa. Na primeira competição que levamos os meninos, o Victor ficou muito nervoso. Tanto é que chegou em um momento que deu branco nele, esqueceu o katá (sequência de movimentos simulando um combate do karatê). Já o Yan, não. Foi lá e fez tudo, sem se importar, conta Viviane Detoni, 33, mãe de Victor e tia de Yan, ambos de 4 anos.
O mestre da dupla de jovens karatecas, Rousimar Neves, ensina que esse nervosismo vai diminuindo com a evolução da criança, mas é sempre preciso ficar atento às pressões. Me preocupo muito com as cobranças, em não deixar os atletas mais novos estressados. Falo isso com os pais também, pois, se ficar muito em cima delas, com certeza vamos afastá-las do esporte. Por isso, vamos colocando em torneios menores. Depois, gradativamente, subindo o nível, ela vai perdendo a timidez, até chegar em um Brasileiro, por exemplo. É uma escadinha mesmo. Sempre deixando claro: há dias em que vencemos, há dias em que perdemos. Só um vence no karatê.
Podendo ser considerado experiente no mundo das competições, o karateca Gabriel Sobreira, 13 anos e que começou nas disputas aos 9, passou por todas as fases em busca da tranquilidade. Sempre achei muito bom competir. Nos primeiros campeonatos, ficava nervoso, mas, hoje, não muito. Até gosto de sentir isso. Meu pai também fica, aí, um ajuda o outro a relaxar, conta o lutador. Para o pai de Gabriel, Marcio Sobreira, 47, o importante é saber como a criança se sente. Deixo ele bem à vontade. Quem decide se vai competir e em qual competição quer ir é ele. Sempre pergunto se ele está feliz, se quer continuar. E ele adora o karatê, diz o pai.
Geração acelerada
O técnico de futsal do Clube Bom Pastor, Sérgio Moraes, sente na pela a cobrança dos mais novos. Os jogadores de seu time sub-11, que já disputou campeonatos fora do estado, exigem serem inscritos nas disputas. Eles me perguntam sempre se vai haver torneio, por que não vamos participar deste ou daquele. Acho que isso é natural. Hoje, a criança tem muita informação, não dá para criá-la em uma redoma de vidro. Se ele não competir no esporte, vai fazê-lo no videogame, por exemplo. A vida é uma grande competição, e a prática esportiva prepara as cabecinhas deles para isso, considera o treinador.
As mães de dois dos atletas do clube fazem coro. A partir da entrada nas competições, a criança fica mais responsável, aprende a ganhar e a perder, lida com companheiros de time, se solta mais, cria mais responsabilidade. Enfim, o crescimento é grande, conta Ana Paula Neves, 42, sobre o filho Igor, 9. A partir do momento em que começou a competir, meu filho percebeu que tinha que ser bom para jogar. Ele criou maturidade e, hoje, por exemplo, tem o hábito de não ir dormir tarde na véspera de treinos e jogos, diz Luciana dos Santos, 35, mãe de Diogo, 9.
Os dois jovens atletas encaram a rotina esportiva de maneiras diferentes. Gosto mais de treinar, porque estou só entre os meus amigos. Mas, também gosto das competições, das viagens, dos jogos. É muito legal, opina Igor. Quando comecei, não pensava em competir. Mais novo, não aceitava bem perder. Mas, isso passou e, agora, quero estar no máximo de competições que puder, deseja Diogo.
Vida competindo
Hoje com 25 anos, o triatleta Lucas Leite começou como nadador aos 6 anos. Depois de uma vida de disputas esportivas, o local não se arrepende de ter iniciado nas competições tão cedo. Não acho que comecei cedo. Aliás, se competi, foi por insistência minha. Meus pais me levaram para as piscinas por causa de problemas de saúde. Mas, a água fria e o cloro, ao qual sou alérgico, pioraram a situação. Mesmo assim, nunca desisti e sempre fui muito competitivo. Era meio Romário, não gostava muito de treinar, só de estar nos campeonatos, lembra.
Mesmo tendo dedicado a vida às competições, seja na natação ou no triathlon, Lucas, que hoje também organiza várias disputas na cidade, afirma que um dia quis parar. Foi mais ou menos quando tinha 16 anos. Via meus amigos saírem, me chamando para festinhas, e eu não queria ter de deixar de ir para poder treinar. Mas, era preciso. Não parei, mas conheço vários atletas que desistiram nesse mesmo período. Para mim, valeu a pena.
