Garotada adere ao motocross e ao kart
O ímpeto da maioria dos pais é evitar que seus filhos corram riscos. Geralmente, em brincadeiras mais arriscadas, o sinal de alerta vem rápido. Os cuidados quando os menores procuram alguma prática esportiva não são diferentes. Mas e quando a modalidade de preferência da garotada não são as tradicionais, como futebol, vôlei ou ciclismo, e envolvem velocidade e um veículo? Em Juiz de Fora, algumas famílias colocaram seus pequenos desde muito novos nos esportes a motor. E não se arrependem da escolha.
Multicampeão de motocross e supercross, o piloto Guto Lima, 47 anos, hoje já é professor. Há um ano resolveu dar asas, ou melhor, rodas à vontade de seus dois filhos: Gustavo, 5 anos, e Guilherme, 4. Eles começaram a, pelo menos uma vez por semana, subir em suas pequenas motos e desafiar os obstáculos das pistas de terra. No mesmo ano, ambos iniciaram no circuito carioca, despertando a simpatia do público.
"Foi muito natural para eles. Sempre me viam correr, ganharam bicicletas muito cedo, com 2 anos, 2 anos e meio eles já andavam nelas sem rodinhas, então, eu via que tinham equilíbrio apurado. Quando íamos às disputas, eles me reconheciam na pista, no boxe, me viam ajustar e limpar a moto e imitavam na bike. Acredito que essa convivência fez a vontade de andar de motocicleta aparecer neles", explica Guto.
Mãe da dupla, a professora de educação física Fernanda Silva, 35, aprova a opção dos filhos. "Conheci o Guto quando ele já era piloto e sempre convivi com ele disputando as provas. Quando estava grávida não parei de acompanhá-lo e digo que os meninos desde o útero já estão acostumados ao ronco dos motores. Então, como sempre procuramos incentivá-los a praticar algum esporte, a escolha do motocross foi natural", conta.
Os garotos, que disputam a categoria até 11 anos com motos de 50 cilindradas, revelam sua paixão pelos cavalos de aço quando falam sobre as provas. "Gosto de correr. É muito legal subir e descer os morros, ainda mais junto com meu irmão", diz Gustavo. "Eu já caí, mas é só levantar e continuar. No começo eu tinha medo, agora não. Até já cheguei em quarto em uma prova", comemora Guilherme, o mais novo.
Nos carrinhos
Não precisa ser de família ligada ao esporte para tomar gosto pela velocidade. O piloto de kart Erick Mayrink, hoje com 16 anos e morando em Uberlândia, onde disputa provas regionais, começou a pilotar e a disputar suas primeiras corridas aos 7. "Sempre gostei de carros e via corridas com meu pai (Júlio César). Então, um dia, soube que poderia correr também e insisti com minha família até conseguir", lembra o juiz-forano.
Segundo a mãe de Erick, a professora Denise Mayrink, 44, foi a paixão do menino que convenceu os pais a deixá-lo sentar no kart e acelerar. "A primeira palavra que ele formulou foi carro. Aos 5 anos já queria correr de kart. Fomos adiando até que, aos 7, não teve jeito. Ele ganhou um e começou os treinos e sua carreira nas pistas", conta.
Boa orientação é fundamental
Com um professor em casa, Guilherme e Gustavo estão sob a tutela constante de orientação especializada. Mas nem por isso a vida fica mais fácil na hora de garantir que as coisas saiam tranquilamente. "Procuro passar tudo de forma bem tranquila, sem estresse e sem pressão. Sempre digo que eles estão ali é para se divertirem. Busco transmitir o que aprendi nesses anos de experiência para tornar sempre a prática deles mais segura e agradável. Mas na hora da prova, acabo cortando um dobrado, pois tenho que estar em cima dos saltos, falando para eles diminuírem a velocidade para passar e, se um cai, tenho que correr na pista para levantar e ligar a moto novamente", explica Guto.
No caso de Erick, a busca de treinamento competente e especializado fez a família viajar. "Quando ele começou, morávamos em Piracicaba (interior de São Paulo) e íamos até a vizinha Itu para que ele treinasse. Procuramos profissionais acostumados a lidar com iniciantes e crianças bem novas para que ele tivesse a orientação correta. Até mesmo por isso, nosso receio em deixá-lo competir foi pouco. Sempre contamos com o equilíbrio do Erick aliado a bons profissionais que o orientavam no início para nossa segurança", conta Denise.
A prática dos esportes a motor também é uma forma de juntar a família. "Acompanhei meu filho em todas as corridas dele. Meu marido (Júlio César) também. Ele ficava nos boxes, ajudava na estrutura. Até minha filha, Pâmela, hoje com 13 anos, além de acompanhar o irmão, chegou a dar suas voltinhas quando mais nova. Era bem esse o clima em todas as pistas. Como o esporte não tem muito apoio de patrocínio, é ‘paitrocínio’ mesmo, as competição têm sempre esse clima familiar", revela Denise.
Já Guto, com os dois filhos na pista deu um jeito de não ficar sozinho quando deixa Juiz de Fora para competir. "Colocar os dois para andar também é uma maneira de carregar a família para onde vou em competição. Eu, o Guilherme e o Gustavo indo, Fernanda vem junto e a turma está completa nos eventos que participo", comemora o piloto.
Coração apertado
Com os filhos participando de provas em esportes arriscados, claro que o coração dos pais, por vezes, ficou apertado, mas a vontade de ver o sorriso no rosto de seus descendentes fez valer a angústia. "Quando ele entrou a primeira vez para uma tomada de tempo para valer fiquei bastante nervosa. Aliás, em todas as provas ficava nervosa. Muito mais com os outros garotos que, na época, eram mais velhos e mais arrojados que ele. Torcia para ninguém bater nele. Graças a Deus o Erick nunca se machucou com gravidade. Teve só um acidente, no qual fraturou uma costela justamente quando um concorrente o acertou por trás e ele acabou saindo da pista e batendo. Mas ver a felicidade e dedicação dele às corridas compensava o meu sofrimento", garante Denise, citando o acidente que Erick sofreu no Campeonato Brasileiro de Kart, em Eusébio, Região Metropolitana de Fortaleza.
Fernanda coloca na balança prós e contras e acredita estar fazendo um bem para seus garotos, apesar da apreensão que sente em seu coração de mãe. "Lógico que o coração fica apertado. Convivo há muito tempo com o motocross, sei dos riscos, fico preocupada. Mas ao mesmo tempo sei que orientação melhor eles não poderiam ter, e estão felizes em cima das motos. Algumas mães me chamam de doida, mas ao deixarem seus filhos viverem em frente ao videogame e ao computador e só indo ao shopping como passeio estão expondo eles a outros tipos de riscos que considero tão ou mais graves quanto os meus correm", teoriza.
E nem mesmo o pai-treinador escapa de ficar com o peito apertado na hora que seus filhotes aceleram pista afora. "Sempre corri buscando o limite e continuo em busca dele, sem exageros, mas me forçando para dar o máximo. Claro que já cai, tenho as marcas do esporte no corpo. Mas com filho é diferente. Se eles estão na prova, fico várias vezes mais cauteloso. Quando caem, dói dobrado em mim", confessa Guto.
Sem arrependimentos
Olhando para trás, nem a família de Guilherme e Gustavo e nem a de Erick se arrepende de ter deixado os garotos aceleraram desde cedo. "Nesse ano que eles estão treinando e competindo, tudo valeu a pena", diz Guto. "Eles chamam a atenção nas provas, as pessoas querem ver, tirar foto, vibram quando eles passam perto das arquibancadas. Estamos tendo até que controlar um pouco esse aspecto. Quando comecei, não havia com quem aprender, então já foi tarde, com 15, 16 anos. Os campeões de hoje iniciaram aos 10 anos e, lá fora, é normal garotos de 4, 5 anos nas pistas. Acredito que essa seja uma evolução natural, pois quem aprende mais cedo as técnicas tem mais chance de evoluir e menos riscos de se machucar no motocross. Mesmo que eles não queiram seguir a carreira, fico feliz de proporcionar um hobby bacana. Faria tudo de novo", garante Guto.
Denise também repetiria a dose. "Está no sangue, ele iria correr de qualquer maneira. Talvez, se fosse voltar no tempo, minha vontade seria de arrumar mais patrocinadores para a carreira dele. Mas acredito que seria a mesma coisa. Os pais que tiverem filhos com essa vontade devem procurar boa orientação e deixá-los correr. Hoje tem até uma categoria baby no kart, voltada para os mais novinhos", aconselha.
Pensando no futuro, Erick garante que, se puder, vai colocar seus descendentes nas pistas. "Se um filho meu quiser correr, vou dar todo o apoio possível. Tem que deixar. Claro, associando estudos e corridas, como sempre fiz. Hoje, estou voltado para os estudos e o vestibular. Mas, assim que der, volto a competir. E sei que vou passar essa minha paixão para frente."
