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Nada no balaio: Faxina

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A faxina da quinta-feira era sempre um problema. Ter carteira assinada representava alguma vantagem, mas como diarista era possível fazer um salário melhor. O único problema era a variedade de patrões. Na quinta-feira, o dia começava com a faxina na casa do Ronaldo.

Chegou quase no horário combinado. Na sala, deparou-se com uma bandeira nas cores preta e branca. Lembrou-se do filho e do marido que são torcedores do Botafogo.

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– Bom dia, Ronaldo!

– É nóis!

Ficou assustada com o cumprimento. Pensou se tratar de alguma novidade. Quis responder, repetindo a mesma expressão, mas deixou de lado. Começou a lavar louças e tentou ser agradável.

– O Botafogo jogou ontem?

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– Não dona Ana. Foram os mano.

Mesmo sem entender nada, prosseguiu.

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-Ah!Os mano… Ganharam?

– A Libertadores. A agora não falta mais nada.

Que diabos era essa Libertadores, pensou meio sem graça. Seu filho e marido nunca haviam falado nisso.

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– Os mano, então, jogam bem.

Havia conseguido arrancar um sorriso da cara de ressaca do Ronaldo. Já era possível comunicar-lhe o aumento da faxina. Ainda assim, resolveu esticar a conversa.

– Não sei como vocês gostam tanto de futebol!? Agora até a novela tem jogador. Meu marido reclama o dia inteiro, mas não desiste. De uns dias para cá, até que melhorou. Só fala num jogador com nome esquisito.

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– Seedorf.

– Este mesmo. Ele é bom igual aos mano?

– É, dona Ana.

Percebeu que o humor do patrão da quinta-feira havia mudado. Para tentar consertar, decidiu falar mal do time do marido. Sabia que homens gostavam desse tipo de rivalidade.

– Mas a alegria de hoje lá em casa nem se compara à tristeza de uns anos atrás, quando o Botafogo foi rebaixado. Você não sabe o que é isso…

– Sei, dona Ana. Sei.

Continuou conversando, mas percebeu que o pedido de aumento deveria ficar para a próxima quinta-feira.

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