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Matemática e paixão mescladas no Brasileiro

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Já é uma tradição no futebol nacional. Invariavelmente, quando o Campeonato Brasileiro entra em sua reta final, as projeções dos matemáticos sobre as possibilidades de cada time na briga pelo título, por uma vaga na Libertadores ou mesmo para escapar do rebaixamento invadem a mídia especializada. Os números frios, que tentam desvendar o que existe dentro da famosa caixinha de surpresas, muitas vezes, despertam sentimentos rancorosos entre os torcedores mais fanáticos.

O famoso duelo entre a lógica aritmética e a paixão clubística registrou seu embate mais emblemático na temporada 2009. O matemático Tristão Garcia, do site "Infobola", chegou a apontar que as chances do Tricolor ser relegado à Série B naquele ano eram de 98%, a dez rodadas do fim da competição. Com uma série invicta – sete vitórias e três empates, o Flu tornou obsoleto o improvável e afiançou sua permanência na Primeirona. De onde estiverem, Nelson Rodrigues e seu "Sobrenatural de Almeida" devem ter acabado em galhofas com a frase que veio das arquibancadas: "Rebaixamos os matemáticos."

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Professor do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e responsável pelo site "Probabilidades no Futebol", Gilcione Nonato Costa defende a categoria. "Naquele momento, o Flu estava a 12 pontos do primeiro time fora da zona de rebaixamento. Os comentários dos especialistas na imprensa eram de que a equipe já estava rebaixada. Os matemáticos nunca afirmaram isso. Pelo contrário. Apontar 1% ou 2% de chances de permanência na Série A não mostra uma impossibilidade."

Criador do site "Chance de Gol", o estatístico Marcelo Arruda acredita que, em muitos casos, os torcedores interpretam as perspectivas matemáticas de forma errada. "Não se trata de futurologia. É a indicação de uma tendência com base em um momento. Essa previsão deve ser vista como um diagnóstico. É como quando você vai ao médico e é diagnosticado com gripe. Naquele momento, você está gripado. Não quer dizer que a doença perdurará indefinidamente. Na semana que vem será outra coisa."

Método

Mesmo tendo por base conceitos semelhantes da matemática, os sites possuem metodologias distintas, o que explica a diferença dos percentuais entre um e outro. "Trabalhamos com os resultados de cada jogo. No domingo passado, o Corinthians venceu o Avaí por 2 a 1, e foi um gol melhor que os catarinenses. Vasco e São Paulo empataram, e foram iguais. Cada jogo, uma equação. O somatório das partidas aponta variáveis, que são analisadas pelo computador, que cria um indicador técnico para cada equipe e aponta as probabilidades de cada time", explica Arruda.

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Para Gilcione, além de alimentar as discussões futebolísticas das esquinas do cotidiano, as previsões ajudam a fomentar o interesse pela matéria. "É uma forma de estimular o gosto pela matemática. Para efeitos de cálculo, medimos os perfis dos times, quando atuam como mandante e visitantes, bem como seus resultados. A partir disso, fazemos uma simulação para os jogos seguintes." Arruda reitera que os números podem ser usados em favor dos clubes. "São indicadores que auxiliam as equipes na busca por determinados objetivos."

‘Munição para papo de boteco’

A prática de analisar o futebol valendo-se da matemática não costuma ser bem recebida pelos torcedores. "Eu confio muito nos matemáticos para construírem prédios e, mais ou menos, para tomarem conta do meu dinheiro. Mas não para explicar o que leva a bola a estufar a rede ou a influência da paixão do torcedor sobre o seu time", dispara o advogado Francisco Alves, 30 anos. Com seu Timão sendo apontando pelas estatísticas como favorito, o torcedor faz previsões ainda mais otimistas. "Se o Corinthians jogar com força de vontade suas seis últimas partidas, as chances serão de 100%."

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O vascaíno Flávio Sereno, 34, mostra-se mais frio diante dos números. "Estas probabilidades só servem para o período entre um jogo e outro." Para o administrador, as previsões não devem ser levadas a ferro e fogo. "É munição para papo de boteco e mais nada." Também vascaíno, o publicitário Luiz Bianco Cunha, 26, recorre à mística do time da virada. "É possível virar, mesmos com os números jogando contra. Depende inclusive da torcida, que pode fazer a diferença nos clássicos justamente nos números."
  Fiel à máxima de que existem coisas que só acontecem ao Botafogo, a torcedora Leíse Assis, 28, acredita que o Glorioso pode tirar de letra qualquer previsão negativa dos matemáticos. "No futebol não dá pra prever resultado. Temos grandes chances se o time tiver foco e objetivo. A matemática é uma ciência exata, enquanto o futebol é surpreendente!"

Fla-Flu

Correndo por fora segundo as previsões matemáticas, Flamengo e Fluminense não somavam sequer 5% de chances de título até o início da rodada deste final de semana. Mesmo assim, seus torcedores esbanjam confiança. "Em seis jogos, há a possibilidade de passar os demais concorrentes. Ou seja, ou o campeão é o Flu, ou é outro. Então, temos 50% de chances", brinca o auxiliar operacional Orlando da Silva, 49. Ainda sonhando com a taça, o rubro-negro Vinícius Peixoto se apoia no passado recente. "O Flamengo, em 2009, faltando seis rodadas para o fim do campeonato, estava 6 pontos atrás do líder. Ainda assim, conseguiu ser campeão."

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Mesmo defendendo a veracidade de seus diagnósticos, até mesmo os profissionais dos números têm seu lado torcedor. "Ainda tenho esperanças na reação do São Paulo. Por fatores que fogem à matemática, como a troca de treinador", explica o estatístico Marcelo Arruda. Atleticano, o matemático Gilcione Nonato Costa aposta que o Galo irá permanecer na Série A em 2012. "Já passamos por momentos piores. A equipe está em ascensão, conseguindo bons resultado. Quem está lutando com ele também não está vencendo. Já o Cruzeiro, não convence, e corre riscos maiores de rebaixamento."

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