“Eu não moro no passado, mas o passado mora em mim.” A frase de Paulinho da Viola é lembrada por Márcio Itaboray no começo do documentário “Dentro da área não vale”, que narra histórias sobre o futebol de salão em Juiz de Fora. A obra é feita em conjunto com o livro homônimo, lançado em 2019, e parece reverberar justamente esse encontro entre os dois tempos. Em meio a muitas histórias e depoimentos, a memória da cidade vira tema central nas conversas sobre a vida futebolística dos participantes.
O nome do documentário marca a diferença entre o que era o futebol de salão e o que é o hoje o futsal. Mais do que isso, no entanto, Márcio Itaboray, um dos autores e organizadores do livro, fala que é também “uma diferença metafórica entre dois tempos distintos”. Isso ocorre porque, afinal, são depoimentos que vêm de vivências dos anos 1960 e 1970, tendo o futebol de salão como foco.
A ideia de começar o projeto surgiu em conversas entre os amigos que participaram desse momento esportivo da cidade. “A gente brincava muito lembrando de lances e resultados”, conta Carlos Salomão, também autor e organizador do documentário. Segundo ele, quando os jogos universitários de futebol de salão aconteciam, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) tinha que entrar em recesso tamanha a empolgação de todos.
Para que o livro tomasse a forma de documentário, foi preciso convocar um “jogador” experiente no assunto para entrar “em campo”. Para esta função, foi escalado o jornalista Felipe Hutter, que roteirizou e dirigiu o vídeo. Os encontros regados a lembranças dos amigos, desta vez, foram gravados em imagens. As fotos da época foram se juntando aos rostos atuais e aos nomes dos que são lembrados. Para Felipe, o mais marcante “foi ver o quanto as pessoas queriam contar essas histórias”.
O diretor ressalta, assim como os autores, que essa não é “uma história oficial do futebol de salão da cidade. São depoimentos de como as pessoas se lembram e contam”. São 18 relatos de vivências diferentes da época. É como uma conversa entre amigos, em que muitos nomes surgem, e as pessoas se reconhecem uma nas histórias das outras.
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Um roteiro feito de histórias
A ideia do documentário partiu da esposa de Carlos, a jornalista e professora da UFJF Christina Musse. Com um extenso estudo sobre a memória, ela identificou que esses depoimentos, gravados para o livro, poderiam ter vários rumos. Foi aí que Felipe entrou no projeto. Seria dele a missão de reconvocar os amigos para uma nova sessão de depoimentos, desta vez, com o auxílio da imagem “para ilustrar essa geração de futebol de salão”.
Fotos da época foram inseridas no documentário para que as histórias contatadas tivessem cenários, e assim, uma Juiz de Fora do passado é apresentada. Um recurso que agrada o autor do livro, Márcio Itaboray, que diz gostar que suas obras abordem como era a vida na cidade, nos bares e nas ruas.
Em seu depoimento para o documentário, Márcio defende o resgate das memórias e diz não entender o que ele chama de preconceito contra o saudosismo. O escritor não tem dúvida de que é preciso rememorar o passado. “As pessoas querem falar da sua vida, querem falar da sua história.”
Para Carlos Salomão, muito mais que relembrar fatos, o documentário é uma maneira de informar as futuras gerações. “Se a gente não contar essa história, daqui a pouco nem vão saber mais o que era futebol de salão.”
Felipe, que é de uma geração mais jovem do que os autores, achou interessante descobrir a cidade com esse olhar do passado. A expectativa dele e dos outros envolvidos no projeto é de que os espectadores sintam o mesmo, conheçam uma Juiz de Fora até então desconhecida de muitos.
E para quem conheceu e vivenciou todas as histórias, os autores garantem que vale a pena a oportunidade de revisitar uma época que deioxu saudades.
Reencontro marcado
O documentário será exibido pela primeira vez na próxima segunda-feira (6), às 19h, no Bar da Fábrica. Logo em seguida, às 20h, ele será disponibilizado no YouTube para todos. Para Felipe, que está ansioso para o evento, vai ser uma emoção “poder ver as pessoas assistindo e se encontrando com o que elas falaram nos depoimentos. É muito diferente a sensação de ver”.

