Nos últimos tempos, o futebol brasileiro vive uma crise de carência de ídolos identificados com as camisas dos clubes nacionais. Em busca de melhores condições financeiras e contratos mais interessantes, grandes atletas geralmente vão para o exterior, e mesmo os que permanecem em território brazuca trocam de cores com muito mais frequência do que acontecia no passado. Por isso, o Tupi pode ser considerado uma exceção. A qualquer torcedor que se pergunte quem é o principal ídolo do Carijó hoje, a resposta virá de bate-pronto: Ademilson. A história improvável de amor entre o centroavante, o Alvinegro de Santa Terezinha e sua torcida parece ter levado ao casamento perfeito que elevou um atleta à condição de mito. E não seria exagero dizer que alguns fãs mais fervorosos consideram natal o dia 10 de outubro.
No próximo sábado, o atacante do Tupi comemora 40 anos e prova a cada treino e jogo que a idade não pesou nem um pouco. Na última semana, Ademilson – “Ademito” para a torcida, ou simplesmente “Adê”, como é carinhosamente chamado pelos companheiros de clube – revisitou sua história com a camisa alvinegra, falou de sua relação com o clube juiz-forano, com os torcedores e deixou claro que ainda tem lenha para queimar em busca de ajudar o time naquela que hoje é a principal obsessão do centroavante carijó: subir para a Série B do Campeonato Brasileiro.
Segundo levantamento realizado pelo professor de educação física e fanático pelo Tupi Léo Lima, Ademilson tem 136 jogos com a camisa do Alvinegro e balançou as redes 62 vezes com a camisa do clube. Desses, 43 gols foram marcados diante dos olhos dos juiz-foranos, no Estádio Municipal Radialista Mário Helênio. Da década de 1980 até agora, é o maior artilheiro do Carijó, seguido por Nequinha, com 44 gols. “O levantamento das décadas anteriores ainda está sendo terminado, mas é seguro afirmar que, na era do futebol profissional, ele seja o principal goleador do time em competições oficiais”, explica o autor da pesquisa, que começou há quatro anos o levantamento de todos os jogos do Alvinegro de Santa Terezinha. “Queria conhecer mais da história do clube, então fui pesquisar. Como sou apaixonado por estatísticas, cruzei os dados e surgiu esse material”, completa.
Números de respeito
A pesquisa de Lima aponta também algumas curiosidades de Ademilson no Tupi. Somente na temporada na qual vestiu pela primeira vez a camisa do Tupi, em 2007, Adê não foi o artilheiro do time. Em todos os outros anos em que esteve nas fileiras de Santa Terezinha, foi dele o posto de maior goleador da temporada. O centroavante acumula também o título de maior artilheiro do clube juiz-forano no Módulo I do Campeonato Mineiro, no qual já foi às redes 22 vezes; da Taça Minas, na qual marcou dez vezes; e da Série D do Brasileiro, com 21 gols. Vestindo alvinegro, o jogador já foi o maior goleador de duas competições: Taça Minas de 2008 e Quarta Divisão do Nacional em 2011. Em cinco oportunidades, Ademito balançou a redes dos oponentes três vezes no mesmo jogo, fazendo o chamado hat-trick (“tirando gols da cartola”, em tradução livre do inglês): na vitórias por 6 a 0 sobre o Sport, em 2009, na Taça Cidade de Juiz de Fora; 5 a 1 sobre a Caldense, no Mineiro de 2010; 4 a 1 sobre a Anapolina, na Série D de 2011; 3 a 0 sobre o Araxá, no Mineiro de 2012; e 3 a 2 sobre o Nova Iguaçu, na Série D de 2013, na única vez que conseguiu o feito fora de casa.
Um pouco capixaba, meio carioca, muito juiz-forano
Nascido em Itaguaí, no Rio de Janeiro, Ademilson foi ainda no início da adolescência para o Espírito Santo, onde trabalhou com seu pai em uma fazenda no município de Mimoso do Sul. Lá, deu seus primeiros chutes e não parou mais. “Com 14, 15 anos jogava no São José Futebol Clube, um time amador, me destacando nos campeonatos da região. Um desembargador aposentado, Seu Sebastião Sobreira, me viu com 17 para 18 anos e perguntou se queria fazer um teste em um time profissional. Devo a Deus e a ele tudo o que tenho hoje. Me levou ao Comercial de Alegre, e esse foi meu primeiro clube. O técnico, Marco Nunes, me segurava após o treino, fazia trabalhos específicos comigo, porque via futuro em mim. Também sou muito grato a ele”, conta.
Adê mudou de time, disputou pela primeira vez uma competição nacional, retornou a Alegre e, então, a projeção nacional veio. “Fui para o Rio Branco em 1995, onde disputei a Série C. Depois, voltei para o Alegrense, no qual me tornei campeão capixaba e participei da Copa do Brasil. Em janeiro do ano seguinte me apresentei ao Botafogo. De lá fui para o Fluminense, seguindo para o México (Deportivo Irapuato) e para a Bélgica (Lokeren). No retorno ao Brasil, joguei no Paysandu, logo após no Marília e vim para Minas Gerais. Joguei no Ituiutaba e no Democrata-GV”, relembra.
Foi de Governador Valadares que Ademilson desembarcou em Juiz de Fora, para viver um caso de amor com o Tupi e a cidade a partir de 2007. “Pode-se dizer que sou um misto de carioca, capixaba e mineiro. Me considero juiz-forano. Já falei com minha esposa que, se puder, fixo residência aqui. Só uma proposta muito vantajosa, coisa que não vai aparecer, para eu sair agora. É quase impossível me tirar do Tupi. Quando coloco essa camisa, não quero perder de jeito nenhum. Minha relação com o clube é de respeito e coração, e espero honrar suas cores em campo e fora dele, sempre”, deseja.
Um coração alvinegro
Desde sua estreia, no dia 23 de setembro de 2007, quando abriu o caminho para a vitória por 3 a 0 sobre o Uberaba pela Taça Minas daquele ano, Adê ajudou o clube com gols e pavimentou com raça seu caminho para o coração do torcedor de Juiz de Fora. E o início da relação de amor do artilheiro com a torcida foi em clima de lua de mel, embora o ambiente não fosse dos melhores à época. Trazido pelo técnico Moacir Júnior, o jogador, então com 33 anos, chegava para dar experiência ao grupo e ser a solução para o ataque. O hoje ídolo não pipocou e acabou criando um laço poderoso com as arquibancadas do Estádio Municipal.
“Quando cheguei aqui, encontrei o Tupi em uma situação meio crítica na Taça Minas. Torcida pressionando, treinador com a corda no pescoço. Então, não podia ser mais um apenas. Tinha de fazer algo diferente. Graças a Deus, depois da minha chegada, tudo deu certo. Fiz gol no primeiro jogo, fomos vencendo e chegamos à final. Assim, a torcida me recebeu de braços abertos. Aí já coloquei na minha cabeça que realmente teria que dar um algo a mais, pela responsabilidade que aumenta a cada jogo. É dessa forma até hoje. Essa atitude, quando compartilhada pelos companheiros como estou vendo agora, pode nos levar longe. No momento, até a Série B. Acredito muito nisso”, diz o ídolo carijó.
Nos últimos anos, Ademilson deixou o Tupi por pouco tempo, mas em uma de suas visitas, no segundo semestre de 2010, veio a certeza de que Juiz de Fora era seu lugar. “Em 2010 fui para o Ipatinga e vim a Juiz de Fora ver um jogo do Tupi. Quase ninguém sabia que eu estava aqui. Mas os torcedores da Tribo Carijó (uma das torcidas organizadas do clube) me viram do outro lado do estádio, gritaram meu nome, me levantei, saudei a todos. Mas mesmo assim eles deram a volta e foram ficar do meu lado. Ali veio forte a vontade de voltar e não sair mais. Resolvi retornar. Graças a Deus, tenho o respeito dos torcedores. Sempre que me param para conversar procuro atender com carinho, e o mais importante, que é darmos vitórias. Quando conquistamos o Campeonato Brasileiro da Série D, aí que eu disse para mim mesmo que esse era meu lugar. Meus maiores títulos da carreira foram aqui”, emociona-se.
Drama
Este ano, Ademilson sofreu a pior contusão da carreira ao romper o tendão de Aquiles do pé esquerdo. Acostumado a deixar os fins de semana dos torcedores mais leves com seus gols, o centroavante contou com a força da galera para aliviar o fardo carregado por cerca de sete meses entre recuperação clínica e retorno aos gramados. “Foi mais leve passar por essa contusão aqui em Juiz de Fora. Tive uma lesão de ligamento cruzado quando estava no Uberlândia, mas lá eu não tinha jogado ou mostrado muito. Não tinha muito apoio de torcida, os amigos estavam longe. Foi difícil. Mas aqui não. Eu encontrava as pessoas na rua me falando que estavam orando por mim, que eu tinha que voltar. Aquela energia positiva me dava mais vontade de estar ali todos os dias para me recuperar e voltar brevemente a dar alegria à torcida. Para falar a verdade, nem vi o tempo passar. Passou voando. E espero corresponder isso tudo com gols sempre”, deseja.
Mesmo aos 40 anos, idade avançada para um jogador de futebol, o ídolo carijó não pensa em parar. Até arrisca poses de modelo para a marca de roupas Seeds, sua apoiadora pessoal, mas não pensa em seguir carreira fora do futebol ou do Tupi quando pendurar as chuteiras. “Jogar bola é melhor do que trabalhar na roça. Sempre treinei forte e me cuidei, dentro e fora de campo. Isso hoje me faz estar bem. As noites de sono que sempre dormi na hora certa, os treinamentos que sempre fiz com intensidade. Hoje treino e nem preciso fazer tanta força, pois o corpo já vai sozinho. Sei que vai chegar o momento que o corpo vai pedir para parar. Mas por enquanto ainda não aconteceu. Não tenho data para parar, mas sei que me resta mais uns dois, três anos de futebol. Já me convidaram para fazer parte da diretoria do Tupi e espero poder ter essa oportunidade, ajudar fora de campo”, garante.

