Não, não estou no Facebook. Essa tem sido minha resposta padrão nos últimos dois anos quando sou questionado por parentes, amigos e desconhecidos, invariavelmente em tom de espanto, sobre minha suposta defasagem digital. Dependendo do grau de intimidade do interlocutor, chego a sofrer bullying. Sou tratado como uma espécie de bicho-grilo, perdido no espaço e no tempo. Para a tribo dos portadores de óculos escuros, com smartphones sempre à mão quando sentam para bater papo, devo ser considerado um tipo contemporâneo do homem-de-neandertal.
Mas, não sabem eles que, por não estar no Facebook, entre outras coisas, foi possível sair de férias na mais completa discrição. Não vivi aquela ânsia de postar fotos e comentários sobre lugares e pessoas. Nas tardes das terças e quartas-feiras, quando estava às voltas com a Liga dos Campeões da Europa e uma seleção de cervejas artesanais, não senti a quase obrigatoriedade de ser importunado por mim mesmo para postar algo. Poupei muita gente de comentários óbvios sobre o declínio do Barcelona pós-Guardiola ou sobre o advento do bom futebol alemão.
Também me preservei, por não estar no Facebook, de qualquer tentativa de diálogo por parte de alguns atleticanos entusiasta do bom momento do Galo na Libertadores da América. Da mesma forma, consegui não registrar minha indignação frente ao fraquíssimo Campeonato Mineiro ou à saída precoce do Tupi da Copa do Brasil. A minha condição de bicho-grilo digital me permitiu não opinar publicamente sobre o lento e gordo time do Cruzeiro e, muito menos, sobre os modestos elencos de Flamengo e Vasco.
Não que não tenha versado sobre essas e outras questões de menor interesse nos últimos 30 dias. Falei e ouvi de quase tudo no Buteco do Pururuca, na beirada do campo de futebol, em Rio Espera. As bravatas, as histórias e as paixões ditas ali se desmancharam no ar, sem nenhum registro, como deve ser.
