Quando se é menino, desses que vivem jogando bola na rua, o tempo não respeita o ponteiro das horas. O horário de ir para a escola, de tomar banho e de dormir é definido pelo antes e depois da pelada. Isso, claro, quando não acontece a tragédia de você ser convocado pela mãe ou pelo pai para qualquer uma dessas atividades enquanto a bola ainda rola.
É assim que nasce a simbiose do tempo com o esporte, que vai acompanhar o menino ao longo de toda sua vida. De repente, há um rapaz de 17 anos, assim como você, estreando em algum time profissional. É quando se descobre que o tempo de criança acabou. Já é possível frequentar o mundo dos adultos.
Depois, aos 23, 24, 25 anos, quando invariavelmente os jogadores estão em suas melhores fases, você está ingressando no mercado de trabalho com a obrigação de também fazer bonito. Tanto no campo quanto fora dele, a árdua luta envolve a manutenção da regularidade, mesmo com os contratempos, que começam a aparecer.
Ao ultrapassar a barreira dos 30, quando, segundo Affonso Romano de Sant’Anna, passa-se da quantidade à qualidade, a preocupação é com a técnica, o toque de bola, o jogo bonito. Nessa fase, já se conhece os limites. O que pesa, como ensinou Ronaldinho Gaúcho, é a artimanha. Ninguém corre ou trabalha sem absoluta necessidade.
Quando o povo das quatro linhas se aposenta, geralmente ali perto dos 40 anos, você acaba perdendo um pouco a noção do tempo. Mas, dada a bagagem acumulada, sem se aperceberem, todos se tornam comentaristas esportivos e também de outras coisas. É aquela história de se ter opinião formada sobre tudo.
Difícil é saber o que fazer quando aquele craque, que você sempre pensou ser como ele, completa 60 anos. Além de ainda atiçar a saudade da magia daquele outro futebol, o sessentão Zico nos alerta para a pressa do tempo.
