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Na orelha da bola

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O médico e o monstro

Eram mais ou menos oito e meia da noite quando eu saía de uma loja de conveniência na Avenida Washington Luis, na Zona Sul de São Paulo, e topei com um corintiano entrando. Eu vestia uma camisa velha do Flamengo, ele andava com uma camisa nova do Corinthians. O cidadão estava meio cabisbaixo, talvez ainda um pouco abatido pelo banho de água fria proporcionado pelo Bernardo, do Vasco, com aquele gol no finalzinho do jogo contra o Fluminense, que deu a vitória ao time de São Januário e impediu o título antecipado no Alvinegro do Parque São Jorge no domingo passado.

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– Ânimo, homem! – eu disparei, momentaneamente esquecido que paulistano não é dado a tais intimidades. – O título de vocês já está garantido, pode ir embora e dormir tranquilo que domingo que vem a gente garante.

Ele não disse nada, mas sorriu e deu pra notar um sopro de alívio quase embaçando as lentes dos óculos sem aro. Deu um tapinha no meu ombro, um cumprimento algo entre tomara e eu sei, e seguiu seu caminho rumo ao balcão. Semana de decisão é assim, especialmente quando seu time te decepcionou na reta final e você já não liga muito mais para nada: deixa a gente meio fanfarrão.

Mas aquele era o torcedor. O jornalista, o cronista esportivo, aquele que analisa os números e os combina com as paixões e todas as maravilhosas improbabilidades do futebol, este tem uma perspectiva mais cética. Em todas as cores e sentidos. Depois de tudo que vi este Vasco da Gama fazer este ano, não duvido de mais nada. Pela lógica, tem mais time e deveria ganhar do Flamengo. E com a história do derrame de Ricardo Gomes, seria uma conquista incrivelmente romântica, um verdadeiro épico. Mas esse Rubro-Negro não perdeu um clássico sequer em 2011, e um empate lhe basta para ir à Libertadores. É um time que gosta dos grandes desafios – e despreza os pequenos, senão teria ido mais longe neste Brasileiro.

No jogo de São Paulo, acho que dá Corinthians, provável campeão brasileiro de 2011. Mas o Palmeiras desandou a ganhar partidas recentemente e não será surpresa se complicar a vida do maior rival. A torcida exige isso, assim como os atleticanos exigem o rebaixamento do Cruzeiro que, acredito eu, acabará se salvando. Não por seus méritos, mas sim graças a uma dupla mão de Bahia e Coritiba, que devem mandar Ceará e Atlético-PR para a Série B.

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O jornalista é mais chato que o torcedor.

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