Na conta de quem?
uem não recebe é que tem razão. Não dá para criticar os jogadores do Tupi, falar que estão abandonando o barco na hora do aperto, que são mercenários e não sei mais o quê, porque essa história de rato que pula fora de navio é muito bonita para quem não tem que pagar a prestação do carro, a escola das crianças. Jogador de futebol, ganhe mil contos, 50 mil ou 500 mil, tem relação trabalhista com seu empregador e, se não recebe pelo serviço, tem todo direito de puxar o carro. Se o cara quer ficar – e ainda bem que tem quem fique, senão 98% dos clubes do Brasil seriam cidades-fantasma – porque prevê um futuro melhor ou enxerga sua participação ali como investimento, maravilha. Mas ninguém é obrigado a ser mártir.
Agora, tem um problema muito maior nisso aí. Eu, particularmente, sou contra o investimento de dinheiro público em instituições privadas, caso dos clubes de futebol. Se quer usar a verba de publicidade do Município para patrocinar, tudo bem. Convencer os empresários a botar uma grana lá ou explicar como funcionam as leis de incentivo ao esporte, melhor ainda. Agora, destinar verba específica para ajudar time de futebol com um monte de crianças tendo aula em sala sem carteira, sem quadro-negro, sem merenda, com teto despencando, é uma aberração.
Mas o fato – goste você, goste eu ou não – é que Juiz de Fora tem uma lei que obriga o Município a pagar uma mensalidade aos times de futebol da cidade em disputas profissionais. Ou seja, fazer um repasse mensal ao Tupi enquanto o clube estiver competindo. E se a Prefeitura, que criou ela mesma essa obrigação de pagar, não paga, o clube não tem dinheiro nem pra quitar conta de luz. Esse repasse é a única fonte de recursos do Tupi. Nesse caso específico, a culpa é da Prefeitura? É. Como é em São Caetano do Sul, onde o campeão olímpico Arthur Zanetti jogou a caca no ventilador esta semana ao denunciar atraso nos vencimentos que a Prefeitura se comprometera a pagar.
Mas a culpa é só do poder público, que arrumou essa sarna pra se coçar? Não. Tem pra todo mundo nessa mesa. Há a incapacidade do Tupi de desenvolver um projeto convincente que arregimente parceiros e consiga alguma estabilidade. Não trabalho lá e não sei quais são as dificuldades ou como as coisas são conduzidas, mas se tem clube que consegue, é porque é possível. Iria até me eximir de criticar mais uma vez a mentalidade mercantilista de parte do empresariado local – esse que patrocina com ambulância de plantão e linguiça de churrasco, mas botar a mão no bolso mesmo que é bom, nada -, mas não tem jeito. Se falta projeto, também falta visão a quem poderia enxergar mais longe estando lá no alto. Mas aqui dentro dos muros da Cidadela da Permuta, dinheiro é o que menos se vê.
