
Em 2006, Haroldo Carvalhido passou pelos cerca de 78 quilômetros de estrada do trajeto entre Paraíba do Sul (RJ) e Juiz de Fora com um objetivo claro: viver do xadrez. O enxadrista já ensinava o esporte em sua cidade natal, mas o mercado não era suficiente para ter uma vida tranquila. Em terras mineiras, a vida profissional vingou e, depois de quase 15 anos formando jovens enxadristas em escolas juiz-foranas, a trajetória de uma década e meia de experiência resulta no lançamento do livro “Ensinando xadrez aos futuros mestres”.
O lançamento oficial da obra aconteceu no último dia 20, em cerimônia realizada no Independência Shopping. Produzido e lançado durante a pandemia de coronavírus, o livro foi feito sob medida para tempos epidêmicos: ele é pensado para o aprendizado do esporte mesmo durante o isolamento domiciliar, com conceitos do xadrez e interação pela internet, por meio de QR Code. “Ficou uma coisa tecnológica para um livro. Não se imaginava que o livro teria uma tecnologia assim, funcional”, analisa o autor Haroldo Carvalhido.
A ideia de utilizar a ferramenta digital partiu do próprio autor, e surgiu após ele ter notado o uso do QR Code em programas de televisão. “Pensei que, se as pessoas conseguem fazer isso nos programas, a gente conseguiria fazer no livro também”, explica. O artifício, então, foi colocado de maneira intercalada na obra e complementa os conteúdos teóricos do livro. Cada vez que um conceito é passado, há um código que leva o aluno para um exercício relacionado com aquele conceito. “A proposta é conseguir um conteúdo pedagógico mesmo de casa”, resume Haroldo.
A obra foi lançada pela Editora Franco, que deve sediar comercialização do livro a partir de 4 de janeiro na Rua Halfeld, no Centro, número 744, sala 301, bloco 2. A expectativa é que o livro possa ser comprado também na Arco-Iris Livraria (Rua Halfeld, 744, loja 4, telefone 3215-9194). O preço de capa é R$ 110,00. A partir do dia 4, os pedidos de entrega serão através do telefone 3025-5650.
Experiência de vida
Se há quase 15 anos Haroldo se dedica a formar enxadristas em Juiz de Fora, a relação dele com o esporte da mente é mais antiga. Começou quando ainda morava em Paraíba do Sul, aos 8 anos de idade. Inicialmente, o jogo foi utilizado para conter as brigas que o professor tinha com o irmão, na infância. Décadas depois, se tornou profissão, ensinando enxadristas com idades a partir de 5 anos.
O lançamento do livro é visto como o resultado dos anos de experiência lidando com os jovens enxadristas. “Foi com um pouquinho de cada dificuldade dos alunos que eu consegui fazer o livro”, relata. “Pela experiência de 15 anos (ensinando xadrez), daria para fazer um almanaque”, brinca Haroldo.
O trabalho como professor também resultou na criação da Liga X de Xadrez Escolar, tradicional competição que é promovida anualmente na cidade desde 2009. Em 2020, com as dificuldades de realização de competições presenciais em virtude do coronavírus, o campeonato foi cancelado. “Logo que tudo estiver normalizado, a gente pretende voltar com o campeonato presencial da Liga X, que reúne mais de 500 pessoas”, projeta.
Esporte cresce em meio à pandemia
Enquanto diversas competições presenciais, como a Liga X, tiveram de ser canceladas, a prática on-line do xadrez explodiu durante o isolamento social. Entre março e agosto, a plataforma de transmissão de jogos Twitch viu quadruplicar o número de conteúdos relacionados ao esporte da mente, segundo estatística da SullyGnome, ferramenta que mede a audiência na plataforma de streaming. Já o site chess.com, um dos principais pólos de disputas on-line de xadrez, tem notado aumento de quase 100% no número de partidas.
O professor Haroldo Carvalhido também notou aumento no interesse pelo esporte durante a pandemia. Além da facilidade para disputar partidas sem sair de casa, filmes e séries têm divulgado a prática, segundo o enxadrista. “Isso faz com que aumente muito o número de praticantes de xadrez”, constata.
O momento de alta faz com que Haroldo tenha esperanças de um cenário ainda mais aquecido nos próximos anos, quando o “olho no olho” voltar a ser regra nas competições e aulas de xadrez, tanto na maior força quantitativa de atletas quanto na capacidade técnica de jogo e, naturalmente, mental dos esportistas de todas as faixas etárias.
“Muitas pessoas se interessam e começam a praticar. Criando o hábito de jogar, as pessoas conseguem benefícios como concentração, memorização e capacidade de raciocínio”, enumera. “Jogar presencialmente é muito melhor que jogar on-line, e (após a normalização) as pessoas vão poder mostrar a evolução durante a pandemia”, complementa.
