Ícone do site Tribuna de Minas

Novos hábitos abrem mercado

PUBLICIDADE

A busca do brasileiro por melhor qualidade e maior expectativa de vida tem refletido na economia do país. O mercado de "produtos naturais" – que engloba bebidas e alimentos orgânicos, funcionais e sem substâncias como gordura, açúcar, sal, glúten ou lactose – cresceu 83% no Brasil entre 2009 e 2013, conforme estudo do instituto de pesquisa Euromonitor. Só no ano passado, o setor movimentou R$ 16 bilhões, e a expectativa é que até dezembro alcance a cifra de R$ 40 bilhões. O cenário favorável aos negócios se estende a Juiz de Fora, onde os produtos ganham cada vez mais espaço em lojas, supermercados e feiras. Na cidade, faltam números que quantifiquem, de forma oficial, o aumento da produção e a conquista de novos mercados, mas fábricas voltadas para este setor enfrentam diariamente o desafio de atender de forma eficiente as exigências de uma fatia crescente de consumidores.

Há 32 anos no mercado, a Pró-Vida nasceu na cidade com a proposta de oferecer produtos que eram "difíceis de serem encontrados", como conta um dos proprietários, Paulo Araújo. Especializada na fabricação de produtos naturais, a indústria viu esse panorama se modificar no decorrer do tempo, o que impactou diretamente as vendas. "A procura cresceu e foi intensificada nos últimos cinco anos." O empresário conta que, hoje, a fábrica atende todo o território nacional e que há intenção de levar a loja, que por enquanto opera apenas no mercado juiz-forano, para outras cidades. "Acreditamos que podemos atender melhor este aumento de demanda ampliando nossa atuação no varejo", diz Paulo.

PUBLICIDADE

Na avaliação do professor e pesquisador da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Victor Trujillo, a tendência é que o setor continue em expansão nos próximos anos. "O consumo aumentou dentro e fora do lar. A tendência é que esta movimentação aconteça de forma ascendente e constante, já que é resultado da modificação dos hábitos alimentares." O que o especialista denomina "mudança cultural irreversível" engloba a adaptação da indústria e da cadeia produtiva ao novo comportamento do consumidor. "Antes as pessoas se atentavam, no máximo, ao valor calórico de um produto – agora elas analisam teor de gordura, sódio, açúcar e outros elementos. Isto ocorreu graças ao acesso à informação."

Foi por conta desta percepção que a rede juiz-forana Chico Geraes abriu sua segunda fábrica, dedicada apenas aos produtos sem glúten. "Este mercado está crescendo em progressão geométrica", diz o diretor da empresa, Chico Mendonça. "O diagnóstico sobre a intolerância ao glúten ficou mais fácil, e as pessoas querem ter uma boa qualidade de vida. Esta linha representa 50% da nossa venda." A empresa também produz alimentos integrais e comuns, que são distribuídos para o mercado nacional.

 

Estratégia

PUBLICIDADE

Para Trujillo, a melhor estratégia para os fabricantes é manter uma boa apresentação e o sabor dos produtos. "Estamos num processo de transição. Em busca de hábitos saudáveis, mais pessoas estão aceitando experimentar produtos novos, mas é importante destacar que o consumidor continuará valorizando aparência e paladar."

 

PUBLICIDADE

 

Mais espaço no comércio

A mudança do comportamento do consumidor aqueceu toda a cadeia produtiva. Com o aumento da produção das fábricas, a oferta ao varejo também cresceu. Como reflexo, novos estabelecimentos do setor foram criados, e outros já existentes ampliaram as portas para a linha de "produtos naturais". O relatório do instituto de pesquisa Euromonitor destaca que "com os brasileiros cada vez mais conscientes sobre alimentação e dando preferência aos produtos considerados mais saudáveis, ocorreu no ambiente de negócios o florescimento de empresas dedicadas à venda de alimentos naturais".

A Associação Brasileira de Franchising (ABF) confirma a tendência. No Brasil há quatro grandes redes de franquias voltadas para este mercado, que nos últimos anos têm expandido a atuação pelas regiões do país. Em Minas Gerais, três destas redes estão presentes e todas possuem unidades em Juiz de Fora. "Está ocorrendo um grande movimento de empresários em busca desse tipo de negócio", garante a diretora da ABF Minas, Danyelle Van Straten.

PUBLICIDADE

Dentre estes empreendedores está o ex-bancário Flávio Zeringota, proprietário de duas lojas da franquia Mundo Verde. Há um ano no mercado da cidade, ele conta que a opção por abrir o primeiro estabelecimento foi bem planejada. "Fiz pesquisas sobre diferentes setores e, neste ramo, enxerguei maiores perspectivas de crescimento", conta. "Existe uma demanda latente por estes produtos. Foi graças ao retorno que tive que decidi assumir a segunda loja."

 

Abrindo portas

PUBLICIDADE

Quem já estava no mercado também decidiu apostar no novo comportamento dos consumidores. A feirante Flávia Mariano, que há oito anos vende pães, bolos e biscoitos na feira do Bairro Manoel Honório, expandiu sua produção. "As próprias pessoas me pediram uma linha de produtos integrais. Percebi que a preocupação delas era ter uma alimentação mais saudável e sem conservantes", analisa. Ela conta que há alguns anos começou a produção artesanal dos itens solicitados. "O custo é mais caro, mas vale muito a pena. Sempre vendo tudo."

Na rede de supermercados Bahamas, os "produtos naturais" foram ganhando cada vez mais espaço nas gôndolas. "Estamos observando esta movimentação dos clientes e nos adequando. A indústria também está atenta e, por isso, ampliou a oferta de produtos", explica o gerente de marketing, Nelson Júnior. Ele destaca que trata-se de um mercado ascendente. "Começou com as linhas diet e light, agora temos um grande mix. As áreas de laticínios, pães e farináceos cresceram muito nos últimos cinco, seis anos."

 

 

Custo alto é desafio para setor

Para especialistas e empresários, a franca expansão do setor traz grandes desafios. "O aumento da demanda cria a necessidade de se ampliar o mix de produtos para atender estes clientes, que estão cada vez mais exigentes e buscam sempre novidades no mercado", destaca Paulo Almeida, proprietário da Pró-Vida. O professor e pesquisador Victor Trujillo pondera que adequar a produção à demanda não é tarefa fácil. "Estamos falando de um mercado que tem um custo alto e uma clientela que está crescendo. É preciso dosar o atendimento ao consumidor e os investimentos."

Para Chico Mendonça, diretor da Chico Geraes, os custos de produção e logística são o principal desafio para o empresariado. "No caso dos alimentos sem glúten, por exemplo, não temos nenhum tipo de incentivo como acontece com o trigo. Além disso, o transporte é caro." Estes também são os fatores apontados pela diretora da ABF Minas, Danyelle Van Straten, como responsáveis por tornar os "produtos naturais" mais caros ao consumidor. "O preço mais alto pode prejudicar o crescimento do setor na escalada em que ele poderia ocorrer."

Com relação às franquias, o proprietário da Mundo Verde, Flávio Zeringota, ressalta a preocupação com projeto de ampliação das redes. "O plano da franqueadora de dobrar o número de unidades requer uma grande estrutura, que com certeza, será um desafio também para os franqueados."

Sair da versão mobile