
Consumir carne bovina está mais caro. O preço da arroba do boi gordo atingiu, em abril, o maior valor nominal da série histórica do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), iniciada em julho de 1997. Na prática, isso significa que a pressão sentida pelo consumidor no açougue começa antes, ainda na produção, e passa por pecuaristas, frigoríficos e comerciantes até chegar ao prato.
Em 15 de abril de 2026, a arroba foi negociada a R$ 367,30, o maior valor nominal já registrado pelo levantamento. O recorde anterior havia sido de R$ 352,65, em 2024. No último dado disponível, referente a 27 de abril, o preço estava em R$ 360,70.
Mesmo quando se desconta a inflação, o valor segue em patamar elevado. Em termos reais, corrigidos pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), a média de abril ficou em R$ 363,82 por arroba, apenas R$ 1 abaixo do recorde real de toda a série histórica, registrado em novembro de 2011. Em outras palavras, a carne bovina está hoje muito próxima do teto histórico de preço, mesmo considerando a perda do poder de compra ao longo dos anos.
Na comparação anual, a pressão também aparece. O valor médio da primeira quinzena de abril ficou 12,4% acima do registrado no mesmo período de 2025, quando a arroba era negociada a R$ 324.
Alta chega ao açougue e muda rotina de consumidores
Em Juiz de Fora, o movimento acompanha o cenário nacional e já pesa na rotina de consumidores e comerciantes. Para a consumidora Suellem Horácio, a alta é percebida a cada ida ao açougue. “Hoje, com R$ 50, compra-se muito mal 1kg de carne. E vale ressaltar que é apenas um tipo de proteína. Cada ida ao açougue não fica por menos de R$ 150 por semana”, afirma.
A percepção é semelhante para Josélia Alves, que associa o aumento da carne a uma alta mais ampla dos alimentos. “Tudo aumentou: carne, legumes, verduras. O tomate está a R$ 10. Os produtos estão cada dia mais caros”, relata.
Antes de chegar ao bolso do consumidor, no entanto, o aumento passa pelos estabelecimentos. Segundo o proprietário do açougue Mister Carnes, Reinaldo Viana, o preço da carne bovina vem registrando alta significativa e oscilante desde março. Ele afirma que, apesar dos esforços para segurar os valores, parte do aumento precisou ser repassada ao preço final.
O gerente do açougue Bom Bife, Luciano Barboza, também relata pressão nos custos. De acordo com ele, o valor cobrado pelos frigoríficos subiu cerca de 20%, com avanço mais forte a partir da primeira quinzena de abril. No estabelecimento, o reajuste repassado ao consumidor foi de 5%.
Os impactos no consumo, porém, variam de acordo com o perfil do comércio. Barboza afirma que ainda não percebeu queda significativa nas vendas. Já Viana identifica retração importante na procura, com impacto direto no setor.
Segundo Barboza, o momento da alta chama atenção porque ocorre em um período em que, normalmente, a oferta tende a ser mais favorável. Até agosto, a pecuária vive um período de safra, quando o gado costuma estar em melhores condições de peso. A partir de setembro, com a seca e o calor, os pastos perdem qualidade, os animais emagrecem e a pressão sobre os preços tende a ser mais esperada.
Menos fêmeas no rebanho afetam oferta futura
Para o professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Weslem Rodrigues Faria, a alta da carne bovina é resultado de uma combinação de fatores. Um dos principais é o abate de fêmeas nos últimos anos.
O economista explica que, em períodos de preço elevado, muitos pecuaristas optaram por vender também parte das matrizes, ou seja, as fêmeas responsáveis pela reprodução do rebanho. Essa decisão pode aliviar o caixa do produtor no curto prazo, mas reduz a capacidade de produção nos anos seguintes.
“Quando há redução da matriz geradora de animais, isso sacrifica gerações futuras de produção. Muitos produtores aproveitaram o preço alto, acreditando que aquele movimento seria temporário, mas a alta se mostrou persistente, inclusive pela própria redução da oferta”, afirma Faria.
Além da menor disponibilidade de animais, o custo de produção também pressiona o preço. Insumos como milho e ração ficaram mais caros, assim como energia, transporte e outros itens necessários à cadeia produtiva. Fatores climáticos também interferem, especialmente quando há períodos prolongados de seca, que prejudicam as pastagens e reduzem a produtividade da pecuária.
Na prática, quando o custo sobe no campo, ele tende a se espalhar por toda a cadeia. O produtor gasta mais para manter o rebanho, o frigorífico paga mais pela matéria-prima, o açougue compra mais caro e o consumidor encontra preços maiores no balcão.
Exportações reduzem oferta no mercado interno
Outro fator que ajuda a explicar a alta é a força das exportações. Quando o mercado externo está aquecido, frigoríficos e empresas de processamento tendem a direcionar parte maior da produção para fora do país, especialmente quando o câmbio favorece as vendas internacionais.
Segundo Faria, a demanda de países como a China segue forte. Ele também cita os Estados Unidos, que enfrentaram problemas de oferta após o abate de parte relevante de suas matrizes. Esse cenário internacional aumenta a procura pela carne brasileira. “Com as exportações em alta e a demanda externa aquecida, frigoríficos preferem exportar, especialmente por causa do câmbio. Isso reduz a oferta de carne no mercado interno e contribui para elevar os preços aqui dentro”, explica o economista.
Em abril de 2026, as exportações brasileiras de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada avançaram 38% em relação ao mesmo período de 2025, segundo boletim da Balança Comercial Mensal do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), com dados até a quarta semana do mês.
O resultado de 2025 também foi destacado pelo MDIC em nota publicada em 6 de janeiro de 2026. Segundo o ministério, as exportações de carne bovina bateram recorde histórico naquele ano, com receita de US$ 16,6 bilhões.
Preço alto muda consumo das famílias
Com o preço elevado, a carne bovina deixa de ser uma compra cotidiana para parte das famílias e passa a exigir substituições no cardápio. Para o economista, esse é um dos efeitos sociais mais importantes da alta.
Segundo Faria, famílias de menor renda tendem a ser as mais afetadas porque têm menos margem para absorver reajustes. Quando o preço sobe de forma persistente, parte da população reduz o consumo ou deixa de comprar determinados cortes. “Famílias de baixa renda não têm condições de continuar comprando carne com valor elevado. É como se uma parte da sociedade fosse excluída da possibilidade de consumir um produto que está ficando cada vez mais caro.”
Ao mesmo tempo, a própria perda de poder de compra pode limitar novos aumentos. Se o consumidor reduz muito a demanda, a pressão sobre os preços tende a diminuir. Ainda assim, o economista avalia que esse possível freio não significa alívio imediato.
“Pode ser que a falta de renda das pessoas para comprar carne contribua para reduzir um pouco a escalada de preço. Mas, no curto e médio prazos, não acredito que haverá alívio. A tendência é de manutenção das tensões, e o que pode desacelerar a alta é justamente o limite da renda da população”, analisa.
Enquanto isso, consumidores buscam alternativas. Suellem conta que a família não deixou de comprar carne bovina, mas reduziu a quantidade e passou a substituí-la por outras proteínas. “Não deixamos de comprar, mas fizemos uma boa redução na carne bovina e substituímos por frango, carne suína ou até mesmo ovo”, relata.
*estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa

