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Carne bovina atinge preço recorde e deve seguir em alta em 2026

Preço recorde da carne bovina pressiona açougues, reduz consumo e deve seguir elevado por oferta menor, custos e exportações.
Preço recorde da carne bovina pressiona açougues, reduz consumo e deve seguir elevado por oferta menor, custos e exportações.
Arroba do boi gordo atingiu, em abril, o maior valor nominal da série histórica do Cepea, pressionando o preço da carne bovina no varejo (Foto: Felipe Couri)
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Consumir carne bovina está mais caro. O preço da arroba do boi gordo atingiu, em abril, o maior valor nominal da série histórica do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), iniciada em julho de 1997. Na prática, isso significa que a pressão sentida pelo consumidor no açougue começa antes, ainda na produção, e passa por pecuaristas, frigoríficos e comerciantes até chegar ao prato.

Em 15 de abril de 2026, a arroba foi negociada a R$ 367,30, o maior valor nominal já registrado pelo levantamento. O recorde anterior havia sido de R$ 352,65, em 2024. No último dado disponível, referente a 27 de abril, o preço estava em R$ 360,70.

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Mesmo quando se desconta a inflação, o valor segue em patamar elevado. Em termos reais, corrigidos pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI), a média de abril ficou em R$ 363,82 por arroba, apenas R$ 1 abaixo do recorde real de toda a série histórica, registrado em novembro de 2011. Em outras palavras, a carne bovina está hoje muito próxima do teto histórico de preço, mesmo considerando a perda do poder de compra ao longo dos anos.

Na comparação anual, a pressão também aparece. O valor médio da primeira quinzena de abril ficou 12,4% acima do registrado no mesmo período de 2025, quando a arroba era negociada a R$ 324.

Alta chega ao açougue e muda rotina de consumidores 

Em Juiz de Fora, o movimento acompanha o cenário nacional e já pesa na rotina de consumidores e comerciantes. Para a consumidora Suellem Horácio, a alta é percebida a cada ida ao açougue. “Hoje, com R$ 50, compra-se muito mal 1kg de carne. E vale ressaltar que é apenas um tipo de proteína. Cada ida ao açougue não fica por menos de R$ 150 por semana”, afirma.

A percepção é semelhante para Josélia Alves, que associa o aumento da carne a uma alta mais ampla dos alimentos. “Tudo aumentou: carne, legumes, verduras. O tomate está a R$ 10. Os produtos estão cada dia mais caros”, relata.

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Antes de chegar ao bolso do consumidor, no entanto, o aumento passa pelos estabelecimentos. Segundo o proprietário do açougue Mister Carnes, Reinaldo Viana, o preço da carne bovina vem registrando alta significativa e oscilante desde março. Ele afirma que, apesar dos esforços para segurar os valores, parte do aumento precisou ser repassada ao preço final.

Em Juiz de Fora, açougues relatam alta desde março e repasse ao consumidor após reajustes cobrados pelos frigoríficos (Foto: Felipe Couri)

O gerente do açougue Bom Bife, Luciano Barboza, também relata pressão nos custos. De acordo com ele, o valor cobrado pelos frigoríficos subiu cerca de 20%, com avanço mais forte a partir da primeira quinzena de abril. No estabelecimento, o reajuste repassado ao consumidor foi de 5%.

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Os impactos no consumo, porém, variam de acordo com o perfil do comércio. Barboza afirma que ainda não percebeu queda significativa nas vendas. Já Viana identifica retração importante na procura, com impacto direto no setor.

Segundo Barboza, o momento da alta chama atenção porque ocorre em um período em que, normalmente, a oferta tende a ser mais favorável. Até agosto, a pecuária vive um período de safra, quando o gado costuma estar em melhores condições de peso. A partir de setembro, com a seca e o calor, os pastos perdem qualidade, os animais emagrecem e a pressão sobre os preços tende a ser mais esperada.

Menos fêmeas no rebanho afetam oferta futura

Para o professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Weslem Rodrigues Faria, a alta da carne bovina é resultado de uma combinação de fatores. Um dos principais é o abate de fêmeas nos últimos anos.

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O economista explica que, em períodos de preço elevado, muitos pecuaristas optaram por vender também parte das matrizes, ou seja, as fêmeas responsáveis pela reprodução do rebanho. Essa decisão pode aliviar o caixa do produtor no curto prazo, mas reduz a capacidade de produção nos anos seguintes. 

“Quando há redução da matriz geradora de animais, isso sacrifica gerações futuras de produção. Muitos produtores aproveitaram o preço alto, acreditando que aquele movimento seria temporário, mas a alta se mostrou persistente, inclusive pela própria redução da oferta”, afirma Faria.

Além da menor disponibilidade de animais, o custo de produção também pressiona o preço. Insumos como milho e ração ficaram mais caros, assim como energia, transporte e outros itens necessários à cadeia produtiva. Fatores climáticos também interferem, especialmente quando há períodos prolongados de seca, que prejudicam as pastagens e reduzem a produtividade da pecuária.

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Na prática, quando o custo sobe no campo, ele tende a se espalhar por toda a cadeia. O produtor gasta mais para manter o rebanho, o frigorífico paga mais pela matéria-prima, o açougue compra mais caro e o consumidor encontra preços maiores no balcão.

Exportações reduzem oferta no mercado interno

Outro fator que ajuda a explicar a alta é a força das exportações. Quando o mercado externo está aquecido, frigoríficos e empresas de processamento tendem a direcionar parte maior da produção para fora do país, especialmente quando o câmbio favorece as vendas internacionais.

Segundo Faria, a demanda de países como a China segue forte. Ele também cita os Estados Unidos, que enfrentaram problemas de oferta após o abate de parte relevante de suas matrizes. Esse cenário internacional aumenta a procura pela carne brasileira. “Com as exportações em alta e a demanda externa aquecida, frigoríficos preferem exportar, especialmente por causa do câmbio. Isso reduz a oferta de carne no mercado interno e contribui para elevar os preços aqui dentro”, explica o economista.

Em abril de 2026, as exportações brasileiras de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada avançaram 38% em relação ao mesmo período de 2025, segundo boletim da Balança Comercial Mensal do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), com dados até a quarta semana do mês.

O resultado de 2025 também foi destacado pelo MDIC em nota publicada em 6 de janeiro de 2026. Segundo o ministério, as exportações de carne bovina bateram recorde histórico naquele ano, com receita de US$ 16,6 bilhões.

Preço alto muda consumo das famílias

Com a carne bovina mais cara, famílias reduzem compras e substituem o produto por frango, carne suína e ovos (Foto: Felipe Couri)

Com o preço elevado, a carne bovina deixa de ser uma compra cotidiana para parte das famílias e passa a exigir substituições no cardápio. Para o economista, esse é um dos efeitos sociais mais importantes da alta.

Segundo Faria, famílias de menor renda tendem a ser as mais afetadas porque têm menos margem para absorver reajustes. Quando o preço sobe de forma persistente, parte da população reduz o consumo ou deixa de comprar determinados cortes. “Famílias de baixa renda não têm condições de continuar comprando carne com valor elevado. É como se uma parte da sociedade fosse excluída da possibilidade de consumir um produto que está ficando cada vez mais caro.”

Ao mesmo tempo, a própria perda de poder de compra pode limitar novos aumentos. Se o consumidor reduz muito a demanda, a pressão sobre os preços tende a diminuir. Ainda assim, o economista avalia que esse possível freio não significa alívio imediato.

“Pode ser que a falta de renda das pessoas para comprar carne contribua para reduzir um pouco a escalada de preço. Mas, no curto e médio prazos, não acredito que haverá alívio. A tendência é de manutenção das tensões, e o que pode desacelerar a alta é justamente o limite da renda da população”, analisa.

Enquanto isso, consumidores buscam alternativas. Suellem conta que a família não deixou de comprar carne bovina, mas reduziu a quantidade e passou a substituí-la por outras proteínas. “Não deixamos de comprar, mas fizemos uma boa redução na carne bovina e substituímos por frango, carne suína ou até mesmo ovo”, relata.

*estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa

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