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JF explora pouco potencial do lixo

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Quando o assunto é lixo, Juiz de Fora ainda é incipiente nas ações de redução, reutilização e reciclagem de resíduos sólidos. Das 380 toneladas de resíduo domiciliar coletadas por dia, conforme o Demlurb, apenas 5% do total recolhido têm como destinação final a usina de reciclagem, o que perfaz 18 toneladas. Estima-se que cada pessoa produza cerca de 700 gramas de lixo por dia. Apesar de tanta matéria-prima a ser utilizada, ainda são tímidas as iniciativas na cidade para transformar o que é descartado pela população em dinheiro e fonte de renda.

O ambientalista Theodoro Guerra, consultor de meio ambiente e mestre em ecologia, avalia que os resíduos domésticos e industriais possuem valor econômico significativo, principalmente os que podem ser reutilizados ou reciclados. O segmento de reciclagem é um dos que mais cresce e gera emprego e renda. A economista Maria Isabel Alvim, professora da UFJF, considera, no entanto, que as empresas ainda não atentaram para a potencialidade econômica da reciclagem. Em Juiz de Fora, ainda é pouco explorada.

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Para a catadora Flávia Helena Dias da Silva, que é presidente da Associação dos Catadores de Papéis e Resíduos Sólidos de Juiz de Fora (Apares), tudo que está no lixo é precioso. Junto com o marido, ela garante o sustento dos seis filhos. O trabalho começou aos 14 anos, ajudando os pais a localizar o que poderia ser reaproveitado. Eu vi a importância que tem o lixo para o meio ambiente e para a minha vida.

O material fino, composto por metal e cobre, retirado de computadores descartados, é o mais valioso, ganhando o posto antes ocupado pela tradicional e disputada latinha, cujo preço no mercado chega a R$ 2.400 a tonelada prensada (ver quadro). O papel e a garrafa PET têm saída, ao contrário das sacolinhas plásticas, que não interessam mais ao mercado.

De acordo com o material, o preço do fardo varia de R$ 0,10 (jornal) a R$ 0,70 (plástico transparente) no início da cadeia. Cada fardo reúne entre 250 e 300 quilos. Depois de tantos anos, Flávia identifica mudança de olhar da população. Quem não gostava da gente, agora nos ajuda. Traz o material e deixa na nossa porta. Está mais fácil trabalhar, porque agora somos reconhecidos. Para ela, mais empresas deveriam se interessar pelo material reciclável, aumentando as opções de venda e elevando o preço pago aos catadores.

O sócio da Recicle Santa Maria, Luis Antônio Gonçalves Duarte, também aprendeu o ofício com o pai, um dos pioneiros no trabalho com reciclagem na cidade, ainda na década de 1960. A Recicle compra todo tipo de material de empresas e catadores, realiza a triagem, embala e revende para indústrias no país. Na avaliação de Luis, o mercado está retraído. Hoje, vende cerca de 300 toneladas por mês, mas já houve tempo em que, se comprasse 100 toneladas por dia, conseguia comercializar tudo. Para ele, a crise impactou o setor.

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Cadeia produtiva

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Na ponta da cadeia produtiva, estão empresas como o Grupo AG. Em uma iniciativa pioneira, o grupo vai investir R$ 14 milhões em uma fábrica de reciclagem de garrafas PET em Juiz de Fora. O projeto prevê a transformação do lixo plástico em matéria-prima limpa para novos produtos, como embalagens para alimentos, poliéster, peças para carros e vassouras. Segundo o diretor industrial Eduardo Costa Deotti, para alcançar a capacidade instalada de 1.400 quilos por hora, serão necessários 27 milhões de garrafas PET de dois litros por mês. Este é o maior desafio. De acordo com Deotti, a preocupação não está em clientela para o produto, mas na quantidade necessária para o processo. A oferta é baixa. O projeto existe há quatro anos e foi idealizado quando o proprietário da empresa viu centenas de PET boiando no Rio Tietê, em São Paulo. O galpão da fábrica está em construção, e a previsão de inauguração é junho deste ano. O número de empregos diretos passa de 200. O projeto tem importância econômica, mas principalmente social e ambiental.

Poder público e

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sociedade terão

que se adequar

Em agosto, a Política Nacional de Resíduos Sólidos começa a valer, impondo responsabilidades a poder público e geradores de resíduos. A Lei 12.305 carece de regulamentação, mas prevê mudanças como a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos e o conceito da logística reversa – retorno dos produtos após o uso pelo consumidor. A criação de um plano municipal de gestão integrada torna-se condição para que as cidades tenham acesso a recursos do Governo federal para limpeza urbana e financiamentos para o setor.

O diretor administrativo do Demlurb, Nelcimar Breder, diz que, em atendimento à política nacional, a coleta seletiva sofrerá mudanças. Hoje, o recolhimento é feito de porta em porta. O sistema, avalia, funcionaria bem em cidades com até 15 mil habitantes, em que há público menor para ser conscientizado. O Demlurb está realizando estudos para melhoria do serviço e dos resultados, disse, considerando os 5% destinados à usina de reciclagem aquém do ideal. Breder cita a importância da logística reversa, atribuindo legalmente responsabilidade também a quem gera. Vai obrigar, de certa forma, as empresas a assumirem o seu papel nesse processo.

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Para a professora da UFJF Maria Isabel Alvim, o gerenciamento do lixo exige programa de educação ambiental que contemple a recusa de consumo de produtos com alta capacidade de geração de resíduos. Ela avalia que os resíduos advindos de aglomerações urbanas, processos produtivos e estações de tratamento de esgoto são um grande problema, tanto pela quantidade quanto pela toxicidade. A solução não depende apenas de atitudes governamentais ou decisões de empresas. Deve ser fruto também do empenho de cada cidadão, que tem o poder de recusar produtos potencialmente impactantes, participar de organizações não governamentais ou segregar resíduos dentro de casa, facilitando a reciclagem.

Para o ambientalista Theodoro Guerra, a lei inova, mas não modifica o ambiente. É necessária mobilização da comunidade na cobrança pela efetivação e fiscalização do poder público. Na sua opinião, as empresas já perceberam que a reciclagem pode ser um item de insumo no processo produtivo, elevando à rentabilidade. A preocupação com o meio ambiente é uma premissa para a exportação. As empresas têm que atentar para esta questão com seriedade e competência.

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