Clientes fazem fila na porta de lanchonete para comprar sorvete em meio ao tráfego intenso da via
Um dos principais corredores do comércio popular de Juiz de Fora está atraindo marcas tradicionalmente estabelecidas em áreas consideradas mais nobres. Com pouco menos de 900 metros de extensão, a Avenida Getúlio Vargas, que abriga cerca de 30 ambulantes e 144 estabelecimentos entre lojas voltadas para as classes D e E, hotéis, farmácias e estacionamentos, vem mudando de perfil. A via, que tem fluxo diário de 28 mil veículos, segundo dados da Settra, e grande circulação de pedestres, já conta também com franquia de vestuário, loja de fast-food, de departamento e de tintas.
O potencial de consumo da população que frequenta as imediações da Getúlio é apontado como um dos principais motivos na atração dos novos lojistas. A pesquisadora do Grupo de Estudos em Marketing e Comportamento do Consumidor da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Cintia Loos, lembra que, há dez anos, a classe média do país somava 38% da população, e hoje representa 53%, de acordo com dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. "Nítido foi o aumento do poder aquisitivo da nova classe média, em que a renda disponível, ou montante de sobra dos ganhos, descontando-se as despesas, subiu de R$ 368 em 2010, para R$ 449 em 2011, aumento de pouco mais de 20%".
A pioneira na quebra de característica da região foi a C&A, em 2006. Em 2010, aportou a Lojas Americanas Express. Segundo informações da assessoria de imprensa da empresa, para a versão Express a empresa busca estabelecimentos com cerca de 400 mil metros quadrados, com oferta de 15 mil itens de vários segmentos. Nas lojas tradicionais, o espaço varia de mil a 1.500 metros quadrados, com uma média de 60 mil itens. De acordo com a marca, os produtos à venda na Rua Batista de Oliveira, quase esquina com a Getúlio foram adequados ao perfil do comércio popular do local.
Vizinha da Americanas, a rede de fast-food McDonald’s abriu o terceiro restaurante na cidade em junho na esquina com a Rua Batista de Oliveira, sendo as outras duas no Bairro Alto dos Passos e no Independência Shopping, ambas na Zona Sul. "Juiz de Fora está crescendo economicamente. Além disso, com o aumento do poder aquisitivo da classe C, os centros das cidades tornaram-se ainda mais movimentados, e nós estamos onde estiverem potenciais clientes", ressalta o vice-presidente de Desenvolvimento da Arcos Dourados (empresa que administra a rede no Brasil), Dorival Oliveira. Além dos tradicionais sanduíches e dos produtos lançados recentemente com preços mais acessíveis, a unidade da Getúlio tem como diferencial das demais a oferta de café da manhã a R$ 3,50. Apesar de não divulgar o valor do investimento, Oliveira garante que "o resultado do restaurante atende ao que esperávamos da região."
O local atrai consumidoras como a estudante de fisioterapia Sabrina Neves. "Vou direto procurando os sanduíches mais em conta", diz ela. Moradora de Leopoldina e de passagem com o neto pelo local, a aposentada Maria de Lourdes Pereira gostou da localização da loja. "O ponto ficou ótimo. meu neto adora comer aqui. O outro McDonald’s é muito longe", fala.
A marca carioca Taco inaugurou a quarta de suas franquias na esquina com a Rua Marechal Deodoro há duas semanas. "Viemos buscar o crescimento que está acontecendo na Getúlio, nos posicionando junto com as grandes marcas e perto desse elevado fluxo de pessoas", revela o proprietário do estabelecimento, Alexander Silva. Mesmo com o pouco tempo de funcionamento, ele destaca que a loja já vende volume igual ou até maior que as demais unidades. "Aqui encontramos uma diferença no consumo, já que a maioria das compras é feita à vista, um reflexo do tipo de consumidor da região", afirma.
Imóveis maiores também são atrativos, diz Sindicomércio
Para o Sindicato do Comércio de Juiz de Fora (Sindicomércio-JF) os empreendedores têm preferido a avenida também em função da oferta de espaços maiores. "As lojas grandes do Centro já estão ocupadas, e na Getúlio temos imóveis que vão ao encontro do desejo desses lojistas", pondera o presidente do Sindicomércio-JF, Emerson Belloti. Na visão de Belloti, a via une o útil ao agradável: "a parcela dos brasileiros que mais elevou a renda per capita nos últimos 15 anos foi a classe C, e comércio aqui é ativo e atrativo."
Apesar de estar há mais de uma década instalada na Avenida Getúlio Vargas e fugir do perfil de negócios lá instalados, a Pavan, que comercializa materiais de construção, tem se beneficiado do fluxo de clientes. De acordo com informações da gerência, a loja detém o segundo lugar no ranking de vendas entre as seis que a rede possui no município. "O volume de gente que trafega na avenida é fenomenal. Isso faz com que o comércio daqui seja melhor do que o do Calçadão ou de qualquer shopping", festeja o gerente Paulino Ferrarezi.
Com obras sendo realizadas em casa, a doméstica Conceição Silva conta que estava procurando pisos. "Passo sempre pela Getúlio, e aproveito para comprar aqui. E levo à vista para não fazer dívidas", afirma. Já a moradora do Bairro São Bernardo, na Zona Sudeste, Lídia de Almeida, que foi de ônibus ao Centro, diz que é atraída por itens com preços mais baixos. "Quero produto bom e mais em conta. Uso o cartão de crédito ou o carnê para os meus pagamentos", revela a aposentada.
