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Economia Popular Solidária em JF: outra forma de produzir e vender

feira mogico felipe couri

Foto: Felipe Couri

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A economia está em cada canto do nosso dia. Pensar no desenvolvimento econômico de uma cidade remete, em um primeiro momento, à atração de grandes indústrias, ao fortalecimento de empresas e à geração de empregos e renda. No vocabulário econômico corrente, nos deparamos com o lucro, o mercado, a produtividade e a competitividade.

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Entretanto, também há uma economia em outra escala, encontrada na dimensão do caminhar, ao alcance das mãos e dos olhos, feita de forma artesanal, respeitando os ciclos naturais e organizada horizontalmente. Essa forma de se fazer economia coexiste com o modelo econômico convencional predominante, mas se diferencia em seus valores e objetivos. Nas ruas, nas feiras e em trabalhos coletivos, está a Economia Popular Solidária.

Em Juiz de Fora, essa economia é fortalecida há quase 30 anos com a Intecoop, uma incubadora de cooperativas populares, fruto de políticas públicas e criada dentro de uma universidade pública por professores e estudantes. Uma história também entrelaçada a duas feiras instaladas em espaços públicos na região Central da cidade: a Mogico e a Fecosol, como também aos seus produtores. Ainda há desafios para implementar ações voltadas à Economia Popular Solidária no município e materializar as ideias, no entanto, as sementes seguem crescendo.

Ao celebrar seus 45 anos de história e propor o debate sobre as perspectivas para a reconstrução e o desenvolvimento de Juiz de Fora, a Tribuna de Minas tem a oportunidade de olhar para formas de fazer jornalismo, de reconstruir uma cidade, e, sobretudo, de compreender outros modos de fazer economia.

Intecoop: germinando novos empreendimentos 

Em março de 1998, um projeto de extensão voltado ao cooperativismo e à economia solidária foi criado na Universidade Federal de Juiz de Fora: a Intecoop, abreviação de Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares. Seu símbolo visual é uma ilustração de um sol em espiral com raios coloridos, associando à ideia de crescimento e desenvolvimento.

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A incubadora é pioneira não somente no município, como também no país. A partir da primeira edição do Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares (PRONINC), política pública do Governo federal iniciada naquele mesmo ano, seis incubadoras foram formadas em universidades públicas. Além da UFJF, que criou a Intecoop, também foram contempladas UFRJ, UFC, UFRPE, USP e UNEB. 

Atual coordenador geral da Intecoop, Edwaldo Sérgio José Araújo Júnior, também professor do Departamento de Turismo da UFJF, explica que, além de prestar assessoria a cooperativas e associações no âmbito da geração de renda, a incubadora também atua em outras frentes de trabalho. A mobilização social é uma dessas. “Até porque, na economia popular solidária, as partes que a compõem não são vistas de formas separadas: a organização coletiva, os saberes tradicionais e a geração de renda estão juntos.”

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Entre as participações em mobilizações sociais no município, a Intecoop colaborou com a criação do Fórum Municipal de Economia Popular Solidária de Juiz de Fora (Fomeps-JF) e com a construção coletiva da Lei de Economia Popular Solidária, promulgada em 2022. Em outra frente de trabalho, a incubadora oferece assessorias técnicas ou desenvolve processos de incubação para empreendimentos de economia solidária, não somente aqueles com domicílio em Juiz de Fora, mas também nas cidades da região da Zona da Mata. 

“Os empreendimentos têm dois níveis de maturidade. Alguns já estão consolidados como associações, mas precisam de assessoria, de suporte técnico, de uma revisão de processos e de documentos ou de uma consultoria para se ajustar do ponto de vista produtivo. Também temos os incipientes ou iniciantes, aos quais damos suporte desde o início, desde sua gênese como associações ou cooperativas”, explica.

A Intecoop assessora ou incuba, atualmente, sete empreendimentos de economia solidária, que foram selecionados por meio de um edital público. São eles a Associação Ação do Paiol e o Linhas de Minas, de Lima Duarte; o Bem te vejo, de São João Nepomuceno; o Mogico, com sede em Belmiro Braga; e o Atitude, o Lixarte e o Causos Gerais, de Juiz de Fora. Na seleção, a equipe da incubadora busca conhecer a história do empreendimento, identificar um diálogo com os princípios da economia solidária e a disponibilidade para formações, oficinas e rodas de conversa.

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À frente do Núcleo de Projetos da Intecoop, a cientista social e pesquisadora Nathália Prados cita as metodologias desenvolvidas para compreender as tecnologias sociais mobilizadas pelos empreendimentos. Entre as questões que orientam esse processo, estão: “Como organizam a questão do saber? É um saber popular? É um saber tradicional da comunidade? E como funciona o conhecimento e a autogestão do grupo?”. A partir dessa avaliação, como aponta, podem ser identificados as lacunas e os potenciais para desenvolver e captar capital de giro.

Os valores da Economia Popular Solidária andam de mãos dadas

“Seja para complementar a renda, seja para ofertar renda a quem não tem, a dinâmica da economia popular solidária tem se mostrado muito interessante no país e no contexto latino-americano, que é justamente atravessado não apenas pelo desemprego, mas pela remuneração precária e por dificuldades estruturais de acesso a direitos”, explica o professor Edwaldo.

Em sua compreensão, um dos princípios mais importantes é o da democracia, que traz a ideia de tentar construir coletivamente, com tomadas de decisão mais horizontais. Segundo ele, o público da Economia Popular Solidária é formado por artesãos, artistas, pessoas quilombolas e pessoas do campo, que vivenciam falta de possibilidades e podem experienciar um processo democrático de gestão. 

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Indissociável a este princípio, está também o da autogestão, ou seja, a autonomia dos trabalhadores para se organizarem. O coordenador da Intecoop também evoca o princípio da sustentabilidade e o profundo respeito que os trabalhadores dão ao meio ambiente e à reutilização de materiais.

Já Nathália Prados apresenta o princípio da cooperação, no qual “andam juntos e de mãos dadas” o trabalho cooperativo, a lógica do bem viver e da justiça social. “Isso força as pessoas a estarem em contato umas com as outras, a chegar a um consenso, que é muito mais difícil do que um trabalho hierarquizado. Esse sistema em que vivemos segregou tudo isso, e a economia popular solidária tenta recuperar.”

Conforme o professor, a economia popular solidária apresenta à sociedade uma outra forma possível de pensar o emprego, a renda e o trabalho, também se posicionando diante de um modelo estabelecido, considerado por ele individualista, vertical e permeado de assimetrias. “Nessa dinâmica associativista e cooperativa, formam-se vínculos comunitários, o que é muito interessante de se pensar no século XXI.”

Mogico leva alimentação orgânica e sustentabilidade à praça

Foto: Felipe Couri

“Desde a primeira vez, o Mojico já tinha esse caráter de economia solidária, e nasceu dentro de uma escola na qual levávamos alimentação saudável para os pais e os alunos”, conta Waltencir Carlos da Silva, produtor de alimentos orgânicos e vice-presidente da associação Mogico, abreviação de Monte de Gente Interessada em Cultivo Orgânico, criada em 2013. Da feira na porta de uma escola em Juiz de Fora, o Mogico passou a ocupar um espaço no Bairro São Pedro e depois o Shopping Alameda, até se instalar definitivamente na Praça Bom Pastor. Para ele, levar o movimento para um espaço público foi o passo responsável por democratizar e incentivar a produção e o consumo de alimentos orgânicos e agroecológicos em Juiz de Fora e região, assim como aumentar a visibilidade e fortalecer produtores com capacitações e formações.

Segundo ele, a feira reúne cerca de seis produtores, que produzem e vendem legumes, frutas, verduras e produtos integrais. “Nosso carro-chefe, sem nenhuma dúvida, é a batata-doce e a banana.” Em sua estimativa, 20 pessoas estão envolvidas em todos os processos da organização. “A gente tem um cenário diverso, mas para a grande maioria dos produtores é a única renda.” 

A realização da feira inclui também os consumidores que frequentam e compartilham de valores semelhantes, como a valorização dos pequenos produtores e a troca comercial por preços justos – tornando-se também, como considera Waltencir, “agentes de consciência”. “O nosso consumidor, de certa forma, ele não é um consumidor comum”, diz.

Além de organizar a feira, Waltencir também comercializa os orgânicos que produz em um ponto na Vila Irineu José, localizada na Rua Manoel Bernardino, no Bairro São Mateus. No local, o produtor vende alface, couve, cebolinha, salsinha, batata-doce, pimentão, berinjela, beterraba, cenoura e abobrinha.

Há mais de uma década acreditando nesse movimento, ele identifica que os produtores também enfrentam falta de apoio e as burocracias de manter um empreendimento — o que fez com que muitos desistam. “A gente vê que a feira tem um papel importante de abastecimento alimentar, mas nos vemos um pouco enfraquecidos aqui na cidade. O Poder Público deveria olhar mais para o produtor, para quem está levando a alimentação e valorizar mais o acesso à comida de verdade.”

Foto: Felipe Couri

“É dia de feira, quem quiser pode chegar”: Fecosol no parque

Foto: Leonardo Costa

“Nós completamos 15 anos este ano, com direito a baile e tudo”, conta Eliza Bertildes, presidente da Feira de Economia Popular Solidária (Fecosol). Segundo ela, o objetivo da associação não é somente promover feiras, mas criar um movimento de economia popular e solidária em Juiz de Fora, no qual seja possível pautar o cooperativismo, o associativismo, o respeito ao meio ambiente e ao ser humano com mais solidariedade.

Atualmente, a Fecosol reúne 60 pessoas, entre artesãos e pequenos produtores de alimentos. Muitos desses trabalhadores e trabalhadoras estão presentes desde sua criação e têm neste trabalho a única fonte de renda. As feiras são realizadas no Parque Halfeld às segundas, terças e quartas-feiras e, recentemente, também aos sábados. Eliza conta que a falta de uma sede, de estrutura e de apoio financeiro do Poder Público limita os projetos e as iniciativas da Fecosol.

“Não temos uma sede própria, muita coisa funciona na minha casa. Como agora vamos ter o Centro Público de Economia Solidária, o espaço que foi cedido pela Prefeitura, estamos pensando em levar nossa sede para lá.” Segundo a trabalhadora, o espaço poderá auxiliar na retomada dos encontros regulares, das formações e capacitações para empreendedores, na criação de uma cozinha solidária e de um espaço para costura — o que ela acredita poder ampliar e fortalecer a economia popular e solidária na cidade.

A economia popular e solidária como política pública de Estado

Foto: Leonardo Costa

O secretário de Desenvolvimento Sustentável e Inclusivo, da Inovação e Competitividade (Sedic), Ignacio Delgado, explica que a economia popular solidária é um conceito que se desenvolveu principalmente na América Latina, a partir da constatação de que a relação entre o emprego convencional e o desenvolvimento tecnológico não era suficiente para incluir o conjunto da população, especialmente as populações mais vulneráveis. “Vai se desenvolvendo essa ideia que esses grupos deveriam se organizar em coletivos para desenvolver uma economia autogestionária, à margem do mercado de trabalho convencional.”

Anteriormente tratada como política pública de assistência social, a economia popular solidária foi transferida à pasta de desenvolvimento econômico. “Uma lei regulamentando a política popular solidária no município foi aprovada, na qual foi criado o Fórum Municipal da Economia Popular Solidária, além do calendário e dos espaços para atividade dos grupos integrantes. Também estamos em vias de inaugurar o Centro Público de Economia Popular Solidária, que vai ser um espaço tanto para capacitação quanto para realização de atividades ligadas à economia popular solidária, ou seja, o comércio com os produtos que elas geram”, explica Delgado.

Segundo Diego Farnezi, coordenador do Departamento para Melhoria do Ambiente de Negócio e Promoção da Economia Solidária (DMANPES), que faz parte da Sedic, o Fórum Municipal da Economia Popular Solidária é integrado por grupos diversos que se reúnem mensalmente no Centro Público de Economia Popular Solidária. O espaço localizado na Avenida Francisco Bernardino, número 30,  como afirma, já está em uso, mesmo que ainda não tenha sido  inaugurado oficialmente. Quanto às ações do Fórum, uma delas tem sido a promoção e a organização de feiras livres, como a realizada na Praça Clodesmidt Riani, no Centro.

“Nosso projeto para o Centro Público é trabalhar em algumas frentes. A primeira delas é usá-lo como  local para fazer um mapeamento mais preciso do universo da economia solidária hoje, porque os dados estão desatualizados. Também queremos que seja um espaço para capacitações de marketing, de redes sociais e precificação. Queremos atrair cooperativas para que sejam disponibilizadas linhas de crédito”, diz.

Conforme avaliação de Farnezi, o registro dos empreendimentos tem sido um gargalo “porque quanto menor forem os indicadores, menor vai ser a atenção”. Por isso, a pasta pretende lançar um mutirão de cadastramento. Outro desafio é a falta de disponibilidade para participação em capacitações de aprimoramento dos produtos e das vendas, já que parte dos trabalhadores tem vínculos de emprego formal, considerando a economia popular solidária como um complemento da renda.

Mapeamento e dimensionamento são desafios

Juiz de Fora tem 28 empreendimentos, que reúnem 268 trabalhadores, conforme registros no Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários (Cadsol), criado em 2014 para reconhecimento dos empreendimentos econômicos solidários e para facilitar o acesso às políticas públicas. Atualmente, segundo o cadastro, o setor movimenta cerca de R$400 mil por ano no município. 

O valor, no entanto, é uma estimativa e representa apenas parte do faturamento, já que o preenchimento dessa informação no cadastro é opcional. Os dados foram solicitados pela Tribuna de Minas e coletados pela Secretaria Nacional de Economia Popular e Solidária (Senaes), vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego do Governo federal.

Ressalta-se também que, para além dos empreendimentos cadastrados ou não registrados, pode haver ainda outros que não estejam vinculados à categoria de economia popular e solidária por falta de conhecimento e informação sobre as características desse modelo.

“Imagino que existam empreendimentos de economia solidária ocorrendo na cidade sem que a gente perceba. Acho que estão invisibilizados. Vejo como dois desafios: dar visibilidade a esses empreendimentos, entender onde estão, quem são e o que fazem e, ao mesmo tempo, dimensionar o impacto econômico disso sobre a cidade”, reflete a cientista social Nathália Prados.

Perspectivas de crescimento

Outra iniciativa prevista para sair do papel ainda neste ano é o primeiro encontro do Conselho Municipal de Economia Popular Solidária de Juiz de Fora (COMEPS), cuja reunião está marcada para a próxima quarta-feira, dia 30 de setembro. O conselho reúne, entre seus membros, representantes do Poder Público municipal, de instituições de ensino público federal, dos empreendimentos de economia popular solidária e da sociedade civil.

O secretário Ignacio Delgado aponta que o desastre climático ocorrido em Juiz de Fora no início deste ano afetou todas as atividades previstas pela pasta para a Economia Popular Solidária do município. “Tenho esperança de colocar o movimento nos trilhos. Temos o desafio de realmente colocar o Centro Público para funcionar a todo vapor. Na lei também está previsto o fundo da economia solidária. Então, a nossa ideia é realmente captar recursos para o fundo para trazer recursos”, declara.

 

 

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